As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 267 de 289

Páginas do PDF

As Luzes de Leonor

Diário

E frente à silenciosa indiferença do Regente, acrescenta com raiva encoberta:

– Estes franceses são uma ameaça!

Por fim sossega, recosta-se com cautela na almofada de brocado, acariciando ao de leve com os dedos grossos a guarda de madrepérola do seu espadim. Enquanto olha sem disfarce o Príncipe, que boceja, indiferente às suas palavras mas atento ao som do minuete que chega de longe.

O pensamento rondando em torno de Eugénia de Meneses.

 

†

DIÁRIO

 

Nomeada há pouco dama de honor da Princesa D. Carlota Joaquina, vejo já confirmadas as minhas maiores apreensões: as regalias que esta distinção me traz, mal compensam os dissabores e as obrigações, a prisão ao protocolo do Paço, o dever de a escutar e de entrar em suas intimidades.

Tornando-me sem querer testemunha emudecida das frivolidades e turvidades da maioria das aias e açafatas e até de algumas damas camaristas. Vendo-me assim, sem gosto, colocada no meio de guerras de salão e de medíocres intrigas.

O único conflito que me interessa e ao qual assisto com moderado regozijo é aquele que opõe Lannes a Pina Manique.

Lisboa, 20 de Abril de 1802

†

Recusando-se a escutar os conselhos do pai e do irmão, Leonor continua perseverando, decidida em convencer o Príncipe Regente de que em breve Portugal será invadido pelas tropas francesas.

Por fim D. João escuta-a, admirando-a pela tenacidade, impressionado com a sua ousadia, mas logo os ministros dão-na a ver ao Príncipe como sendo uma louca, mulher em quem não se pode fazer fé. Levando-o a desejar de novo mantê-la à distância.

Apesar de tudo Leonor, obstinadamente, consegue chegar até ele, que para a afastar e se ver livre dela vai dizendo sim ao que politicamente lhe propõe: finge partilhar das suas ideias, aprovar-lhe os planos, escutar-lhe os conselhos. Manda-a em seguida, sob promessa de protecção, percorrer os ministérios onde, em vão, ela aguarda horas esquecidas ser recebida pelos ministros que, irritados ou enfastiados com a sua incómoda presença, se trancam nos gabinetes. Isolados do Mundo, que entretanto mudara sem eles darem por isso. Recusando-se a reconhecer como a Europa passara a ser outra depois da Revolução Francesa.

E numa dessas raras vezes em que D. João parece escutá-la mais atento, Leonor aproveita para lhe recordar as palavras que Pedro de Alorna, seu irmão, no ano anterior enviara por carta ao Príncipe:

«A balança da Europa está tão mudada que os cálculos de há 10 anos saem todos errados na era presente. Em todo o caso o que é preciso é que Vossa Alteza Real continue a reinar, e que não suceda à sua Coroa o que sucedeu à da Sardenha, à de Nápoles, e o que talvez entre no projecto das grandes potências que suceda a todas as coroas de segunda ordem na Europa. Vossa Alteza Real tem um grande império no Brasil, e o mesmo inimigo que ataca agora com tanta vantagem, talvez trema e mude de projecto, se Vossa Alteza Real o ameaçar de que se dispõe a ser imperador naquele vasto território de onde pode facilmente conquistar as colónias espanholas e aterrar em pouco tempo em todas as potências da Europa. Portanto é preciso que Vossa Alteza Real mande armar com toda a pressa os seus navios de guerra, e todos os de transporte, que se acharem na praça de Lisboa – que meta neles a princesa, os seus filhos e os seus tesouros, e que ponha tudo isto pronto a partir sobre a barra de Lisboa…»

D. João lembra-se bem dessa carta, que arrecadara no fundo de uma das gavetas da sua secretária. E não comentando nada, limita-se a fazer um breve sinal de despedida, a dispensá-la.

Leonor, sem alternativa, depois de uma ligeira vénia contrariada, sai mais uma vez sem saber qual é a verdadeira posição do Príncipe Regente.

†

– Necessito de falar urgentemente com Vossa Excelência! – diz Carlota Joaquina travando o braço de Leonor de Almeida, encostada a uma das balaustradas do palácio de Queluz, de onde olha a Rainha D. Maria, que todos os dias por aquela hora sai a passear com a irmã, a Princesa Maria Francisca Benedita, e D. Mariana de Arriaga. Esta, muito bela no seu vestido de cetim cor de pimenta, acena a Leonor, com quem passa mais tempo desde que a amiga é dama de honor da Princesa Regente.

– Como estais vendo não se pode mais contar com a Rainha – acrescenta Carlota Joaquina, perspicaz, dando conta da expressão contristada da condessa. E como se tomasse uma súbita decisão, continua em voz baixa:

– As vossas cartas e as vossas exposições, as vossas teimas em ser recebida estão a enervar o Príncipe Regente e a impacientar os ministros. E como sois minha dama de honor, todos eles vêm conspirar comigo contra Vossa Excelência…

Enquanto fala, a Princesa sai com Leonor atrás de si pelo corredor que leva aos seus aposentos e por onde esvoaçam os periquitos do Paço. Sem deixar de olhar em torno com desconfiança, mas não encontrando rasto de ninguém por perto, entra com ela no toucador. E quando se encontram a sós, Carlota Joaquina, fazendo tilintar as harmoniosas pulseiras de ouro e rubis a deslizarem-lhe nos braços morenos, inclina-se um tudo-nada para a frente e previne em surdina:

– Tenha a senhora Condessa de Oeynhausen cautela, pois corre grande perigo.

†

Ao ser informado de que Lannes mandara seguir D. Leonor da Almeida, o Intendente-Geral da Polícia, enfurecido com a intromissão, manda vigiá-la com cuidado redobrado, fazendo questão de ir pessoalmente no rasto dos passos da Condessa, a dar conta de cada uma das suas múltiplas diversões e actividades.

Mas enquanto se limita a espiá-la, a interceptar e a ler-lhe a correspondência, observando o seu dia-a-dia, investigando os seus contactos na Corte, tentando desvendar-lhe os hipotéticos sorrisos, os suspiros, as lágrimas contidas e as conversas travadas, sobretudo se com as Princesas Carlota Joaquina e Maria Francisca Benedita ou com D. Mariana de Arriaga, imaginando que assim chegará depressa aos seus enigmas, o embaixador francês vai mais longe, compra a lealdade de dois criados de Leonor, desse modo ganhando acesso à sua privacidade, na tentativa de atingir o seu íntimo e invadir-lhe o pensamento.

E num dos raros dias em que ela pernoita na Corte, à hora de maior quietude da madrugada, sem nenhum problema de consciência, a pedido de Lannes, Antoine Matheon de Curnieu, o único amigo que fizera em Lisboa, bom conhecedor da língua portuguesa, entra no seu gabinete de trabalho e no seu quarto, esquadrinha-lhe os bilhetes, as cartas que escaparam a Manique, abre-lhe as gavetas e as arcas, mexe-lhe na roupa interior por onde desliza os dedos numa leve carícia; depois abre a escrivaninha na ânsia de descobrir possíveis documentos guardados. Vasculha o diário e os cadernos, procura interpretar os versos inacabados, reconhece e deleita-se com o perfume do seu corpo nas sedas e nas pregas dos vestidos, destapa os frascos de cristal onde ela guarda os sais, as essências de gardénia e almíscar. Descobre as flores estioladas tendo a marca da memória entre as páginas dos livros largados à cabeceira da cama, aponta os seus sublinhados e anotações escritas à margem, a adivinhar-lhe:

Os gestos.

Os desejos.

Os sigilos.

A mácula que ela possa ter escondida.

Pina Manique, ignorando ter o embaixador chegado tão longe, ufana-se de ser mais ousado, e por seu lado, sem lhe pesar a consciência, reforça o gosto especial que lhe dá censurar os livros que Leonor encomenda do estrangeiro: primeiro apreende-os na Alfândega e em seguida chega a mandá-los queimar, à revelia dos ministros e dos Príncipes Regentes, temendo apenas as fúrias de D. Carlota Joaquina.

Lannes, por seu lado, ao relatório enviado regularmente a Fouché sobre Leonor de Almeida junta uma longa lista com os seus versos e os nomes das amigas e amigos, dos políticos, militares e poetas íntimos da Condessa, a maior parte deles membros das lojas maçónicas portuguesas; não deixando o ministro plenipotenciário de referir os dados completos daqueles de quem ela frequenta assiduamente as assembleias cultas, e até os nomes dos fidalgos que, nos bailes da Corte, a convidam para dançar.

Pina Manique mostra-se mais preocupado com as inúmeras vezes que Bocage visita Leonor, assim como Freire de Andrade; tendo em conta que na casa da Boa Morte entretanto voltara a viver D. Pedro da Almeida seu irmão, homem arrebatado e, tal como a irmã, também ele perto das Luzes.

Tão interessado o Intendente-Geral da Polícia portuguesa como o embaixador de França, embora por motivos opostos, em afastarem de Portugal Leonor de Almeida.

†

Quando Leonor chega a casa, sente de imediato a presença equívoca de um estranho.

Pára à entrada,

atenta,

alertada.

Em seguida passa revista a cada uma das salas, os corredores, as escadas, a biblioteca, e só depois quarto por quarto. Em todo o sítio Leonor detecta algo de indefinível, de invisível, que não sabe explicar às filhas que a acompanham: Luiza troçando desatenta, Frederica levando a sério o pressentimento da mãe, e Henriqueta, inquieta, mas não entendendo o que a mãe e a irmã procuram sem descobrir qualquer rasto.

Mal chega aos seus aposentos, particularmente ao seu gabinete de trabalho, Leonor sobressalta-se. Olha em torno a querer perceber a devassa, a tentar interpretar os indícios de quem ali estivera, a buscar a sombra que pudesse ter ficado para trás. E apesar de tudo continuar aparentemente nos seus lugares, tudo na verdade se encontra diferente: trocado-truncado, desviado, desavindo, movido.

Na arca e nas gavetas a roupa interior fora revolvida e em seguida reposta no seu lugar, mal alisada; a escrivaninha encontra-se desviada da parede onde costuma estar encostada e a pena, que no tinteiro sempre deixa virada para a direita, resvalara para a esquerda. Nos armários, os vestidos encontram-se fora de sítio e, sobre o toilette, o pente desaparecera e os frascos de cristal encontram-se destapados.

Pálida, Leonor garante a Thérèse, estupefacta: «Esteve alguém de fora cá em casa.»

É então que Frederica se lembra dos diários e dos cadernos, e Leonor corre com o coração aos saltos para onde os guarda, mas logo se tranquiliza: estão no sítio certo. Ao desfolhá-los, porém, dá conta de páginas arrancadas e, entre os seus papéis, de poemas desaparecidos.

– Isto é obra do Intendente-Geral da Polícia –, garante Henriqueta com voz trémula.

Mas ela abana a cabeça. O rasto e os indícios visíveis têm uma marca demasiado metódica e ousada. Demasiado fria e implacável para ser de Pina Manique.

E no mesmo instante Leonor sabe:

Fora a mando de Lannes que lhe entraram em casa!

†

No dia seguinte bem cedo Leonor vai falar com a Princesa Regente, a quem faz queixa da invasão acontecida na véspera em sua casa, da escandalosa devassa da sua intimidade.

D. Carlota Joaquina escuta-a em silêncio, só os olhos muito escuros e coruscantes vão dando conta do grande desagrado em que a lançam as palavras sobressaltadas da sua dona de honor, em quem ela tanto se empenha. Mal esta termina o seu relato, sem dar uma única palavra levanta-se, e num passo vigoroso mas já de cautela, de gravidez no seu início, vai dos seus aposentos para os do marido, onde o encontra abatido em plena crise de depressão melancólica. Manda sair os camareiros e o sobranceiro guarda-roupa João Diogo de Barros Carvalhosa, que sai a arrastar o passo.

Só então se olham, sem guarda nem defesas, ele vacilante diante da inegável zanga dela, D. Carlota a tentar controlar a vontade de o insultar. E quando se faz ouvir, a voz da Princesa está rouca da contensão mordida a custo, narrando de uma vez só tudo aquilo acabado de escutar da boca de D. Leonor de Almeida. E ao ouvi-lo comentar hesitante, «há por certo muito exagero em tudo isso», fá-lo tremer com um grito: «Nem te atrevas a desmentir-me!» Arrependido do que dissera, D. João cala-se a pensar no que poderá prometer-lhe para a acalmar:

– Falarei pessoalmente com Pina Manique…

– Não foi Manique, foi Lannes!

O Príncipe Regente estremece ao imaginar-se a enfrentar o insolente e soberbo embaixador francês, mas mesmo assim garante num tom enfraquecido:

– Então, falarei pessoalmente com Lannes.

Carlota Joaquina responde-lhe rindo:

– Não vais falar cousa alguma, porque tens medo dele.