As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 248 de 289

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As Luzes de Leonor

Raízes

†

 

Na Quinta do Meio Leonor de Távora escuta a tempestade que se abate zunindo sobre Belém. Ouve o temporal a fustigar com o seu vento de mar o rio que, por seu lado, se enfurece já vindo bater nas amuradas, galgando as areias em direcção às casas.

A chuva enlouquecida açouta os vidros das janelas que dão para o pátio, de onde se avista o Tejo em dias limpos de grandes claridades. Do lado de lá do portão pesado chega-lhe um confuso ruído de martelos, serras, machados, de pregos a serem batidos nas pranchas que primeiro serram à medida, enquanto vão construindo o cadafalso.

Ninguém se lembrara de acender a lareira da cela onde a marquesa de Távora se encontra detida, tiritando de frio, casaquinho de cetim azul-escuro, xaile de lã fraquinha emprestado no Convento das Grilas onde estivera enclausurada tal como se encontrava vestida no jardim de sua casa onde a foram prender: corpete de seda preta com saia igual forrada de amarelo-torrado, mangas rasgadas nos punhos por lhe terem algemado os pulsos, braços amarrados atrás das costas.

Leonor de Távora procura embrulhar-se melhor no xaile, conseguido graças à influência do confessor que acabara por aceitar. Em cima da enxerga onde se senta está o único cobertor que lhe deram, e com o qual cobre os joelhos unidos. Debaixo do colchão escondeu o tinteiro e a pena que o desembargador Tavares de Sequeira trouxera às escondidas; o papel, dissimulou-o sob a travesseira suja e sem fronha.

Os seus dedos estão contudo tão gelados e hirtos que mal consegue movê-los, a pele gretada e inchada pelas frieiras que lhe apareceram nas últimas semanas. Tenta aquecer as mãos no fraco calor do corpo, metendo-as entre o espartilho desatado e a camisinha de pano áspero arranjados na véspera, quando por mero dó acederam ao seu pedido e lhe permitiram lavar-se na água fria de uma bacia de zinco, e em seguida mudar a roupa íntima, nunca mais trocada.

Tem que encontrar forças para escrever à neta. Frei José da Piedade, que viera confessá-la de manhã, prometera a contragosto fazer chegar o bilhete a Leonor no Convento de S. Félix em Chelas, onde – contou-lhe – Sebastião José a fechara na companhia da irmã e da mãe, doente de desgosto, de quem ela cuida apesar de menina.

Vai já a noite adiantada quando a madre Conceição de Jesus, que lhe leva uma malga de sopa, pão seco, água e um coto de vela acesa numa palmatória gasta, comenta com a voz velada de crueldade:

– Como daqui se escuta bem o barulho que fazem a montar o patíbulo!

– Talvez porque o constroem no Cais Grande, aqui bem perto – responde por orgulho Leonor de Távora, tentando manter um tom de voz sereno.

A freira, de tão assombrada com a impassível resposta, entende-a como pura arrogância e recua benzendo-se, a deixar cair o rosário tirado da cinta onde habitualmente o usa. Fecha a porta atrás de si, com muitas voltas de chave e tranca.

A condessa de Távora arrasta a mesa manchada, lascada no tampo e nas pernas cambadas, para um lugar que lhe parece menos exposto, cuidando, ao tomar assento no banco, de virar as costas para o postigo na tentativa de se resguardar do olhar dos guardas. Pretendendo encontrar algum calor, engole o caldo gorduroso.

As bátegas furiosas parecem fazer desabar o mundo sobre a Quinta do Meio, onde ela passa a última noite no maior abandono, dobrada em si mesma, como se abatida pela borrasca que se acirra lá fora a espelhar-lhe o destino. E apesar da saraiva que varre tudo à sua volta, continua a ouvir-se o barulho dos martelos a cravarem os pregos de ferro grosso, os caibros, os parafusos, as buchas, as dobradiças de metal na madeira de pinho que, encharcada já, incha e lasca. Tal como o ruído desordenado e ácido dos machados, das serras que separam os madeiros, dos gritos dos homens a escorregarem na lama, acotovelando-se zangados de cansaço.

Desesperada, Leonor de Távora cobre com as mãos em concha os ouvidos sob os cabelos soltos. O morrão da vela há pouco apagada empesta o ar estagnado. Mantém os olhos escancarados tentando desvendar a escuridade, enquanto aguarda os primeiros alvores da madrugada que marcará as derradeiras horas da sua vida.

De súbito estremece arrepiada, sentidos alertados, e embora se saiba sozinha, tem a certeza de se encontrar ali mais alguém a pretender encontrá-la: olhar invisível e envenenado a varrer de uma ponta à outra o negrume da cela, à sua procura.

Detendo-se por fim nela, maligno, e sem qualquer piedade.

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