As Luzes de Leonor
Monólogo do Marquês de Alorna
A castigam de quê?
Qual teria sido o seu malfeito?
Na verdade, não é a si mesma e sim ao Senhor seu Pai e Rei que, em pesadelos horríveis, vê arder nas alteadas chamas do inferno, por conta da horrenda morte no cadafalso dos marqueses de Távora. Encolhendo-se mais ainda na sua agitação, a Rainha pressente de novo o insidioso vulto da culpa alheia a pretender tornar até ela.
Assombrando-a.
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MONÓLOGO DO MARQUÊS DE ALORNA
Não esperes ver-me ceder, Pedro, jamais te permitirei qualquer desobediência, menos ainda em matéria de casamento
acordado e tratado.
Para rebeldias bastam-me as da tua irmã Leonor, com os desassossegos costumados, as teimas em escapar das mãos de quem a agarra.
Não penses que eu me importo, Pedro, quando te oiço argumentar no sentido de não amares aquela que, escolhida por mim, será tua mulher até ao fim da vida. Desiste de tentares comover-me com queixas de alma e paixões imaginárias. Os casamentos de amor são sempre uma desgraça.
Não tentes escapar, como é teu hábito, Pedro, às obrigações menos agradáveis, pois irás receber Henriqueta Júlia Gabriela como tua legítima esposa; enlace há muito sonhado por tua Mãe, que sempre te quis ligado à casa dos condes de S. Vicente.
Não ouses desafiar-me, a quereres levar a tua avante, Pedro, na nossa família há preceitos, há palavra, há honra; não se pode desdizer o que se encontra escrito, comprometido e assinado por mim.
Não disfarces a realidade, está nas tuas mãos, Pedro, mudar em harmonia as aversões que terás de esquecer, os absurdos motivos sem motivo nenhum que pareces querer inventar, contrariando-me a vontade.
Não experimentes, não te atrevas, não arrisques.
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«Devo estar a endoidecer como Joana», imagina Leonor, a lembrar-se da singular e fascinante figura da Rainha Joana de Castela,
a Louca,
como ficara conhecida na História,
por se ter deixado perder de ciúme e paixão pelo Rei seu marido.
Leonor sente-se alarmada com a estranheza dos sentimentos equívocos e contrários a si mesma. Afinal ela nem sequer sabe
se continua a amar Carlos Augusto.
†
Nessa noite esperara-o até tarde, supondo-o na companhia de Luiza Todi que fora ouvir cantar no Teatro Francês. E quando ele chega, ao fim da madrugada, sem mesmo entender quando a sua exasperação havia começado, entrega-se a uma enlouquecida e descontrolada raiva, recusando-se com obstinação a escutar as suas desculpas.
Ao acalmar-se dá por si encolhida numa cadeira do quarto.
Exausta, mas finalmente serena.
Então, Carlos Augusto pega-lhe ao colo e, sem uma palavra, deita-a na cama, estende-a a seu lado, a tomá-la nos braços, lentamente a despi-la:
os sapatos e as meias, os saiotes de goma, as saias de sombra, o vestido de musselina cor de damasco que faz escorregar ao longo das pernas até ficar enrodilhado ao fundo da cama, onde irão juntar-se as culotes com entremeios bordados e o corpete de paninho de linho alvo; deixando-lhe ficar apenas o espartilho, fitinhas cruzadas no aperto já lasso, que a gravidez no seu começo ainda suporta.