As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 134 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

Ambos somos diferentes e ambos fracos… Mesmo que em tudo o resto sejamos diversos, assemelhamo-nos na ânsia do conhecimento, no amor aos livros, no abismo dos versos. Idênticos fomos também no destino, os dois perseguidos pelo fanatismo dos déspotas: Pombal destruiu-me a infância e a família, tal como a Inquisição persegue em vós a poesia que canta a liberdade.

Termino estas palavras de sinceridade que vos envio, como sempre dividida: entre o esgarçar e o entretecer; entre o rasgar e o cerzir; entre o apagar e o acender.

Quanta amargura guardada e sem preceito dita!

Optei há muito pela razão, mas nem ela me defende das emoções, delas encontrando grave motivo para as temer. Que mais vos poderei eu adiantar sobre a saudade, que me assalta a alma, do jogo a que os versos nos transportavam?

Apesar de perdida e cativada pelo próprio desacerto,

continuo sendo a vossa

Alcipe

Viena, 25 de Fevereiro de 1783

 

†

DIÁRIO

 

Moldo os dias com uma impaciência ardorosa, nervosa e turbulenta; como se quisesse abrir as asas dissimuladas sob as sedas, os cetins macios e as nuvens de renda dos vestidos.

Sinto-as tentando adejar em desassossego, num rumorejar aprisionado, levemente trémulo.

Passo por casa de Maria Wilhelmine de Thun e arrasto-a comigo pelos arvoredos dos jardins, pelas matas de lobélias e magnólias, pelas alamedas de cedros dos palácios, pelas claras ruas de Viena que o Danúbio contorna, bordejando luminosamente a cidade. Por vezes paramos debaixo de uma árvore e ali nos esquecemos sentadas na erva que nos mancha de verde-ácido as saias, os vestidos. Vejo-a desenhar nas páginas brancas do seu caderno apoiado nos joelhos erguidos, enquanto eu escrevo no meu tudo aquilo que me dita o pensamento, o sentimento ou a memória dos livros. Por vezes somos distraídas pelo som envolvente das águas de uma fonte ou de um riacho a correr algures ali perto.

Viena, 10 de Março de 1783

†

Acorda inquieta e fica na escuridade a tentar perceber o mal que a despertara, e aos poucos está a transformar-se numa dor insidiosa e traiçoeira, a golpear-lhe a barriga e os rins, as costas e as virilhas suadas. Atira a roupa da cama para trás e soergue-se nas grandes almofadas de linho branco; na mesa-de-cabeceira mal distingue a palmatória de prata com a vela apagada, junto do livro que lera até tarde. Torna a fechar os olhos, na tentativa de voltar a adormecer, mas a moinha apoquenta-a, sem lhe permitir aquietar-se nem encontrar posição: encolhe-se sobre si mesma e ergue-se para tornar a deitar-se, desprendendo as pernas da enrodilhada camisa de seda branca.

Assenta os pés no lençol tépido, sobe os joelhos que dobra e desdobra de seguida, estende-se já assustada e senta-se de novo.

Mas num repente levanta-se, desliza descalça na carpete persa e tacteando chega à janela, corre as cortinas de cassa e abre para trás as portadas de madeira a fim de deixar entrar a luz esvaída e brumosa da madrugada, que mal atravessa o negrume onde ainda se esfiapa.

A casa mantém-se silenciosa: a menina não chora, os criados ainda dormem, e Carlos Augusto, tendo chegado noite alta, mantém-se recolhido nos seus aposentos ao fundo do corredor. Só o ladrar dos cães e o cantar dos pássaros começam a despertar o jardim, de onde sobe um cheiro acre a terra húmida, numa trança feita pelo odor cristalino do orvalho e o perfume azul-violeta dos cachos das glicínias.

A dor nas costas e nos rins atenua-se, persistindo no entanto a moinha no ventre; recorda-se de a ter sentido em outros meses, antes de as regras lhe chegarem. E Leonor que já se imaginava grávida de novo, depois de um último desmancho sangrento, começa a ganhar alento no alvoroço da esperança, sentindo o coração desenlaçar-se de alívio. Mas, supersticiosa, recua na alegria, tolhida pelo receio de se enganar. Lembrada ainda dos tormentos, dos medos e dos desesperos, mantém-se incrédula e desconfiada.

Uma ligeira tontura fá-la amparar-se ao parapeito enquanto toma alento, mas à medida que a claridade da manhã invade o quarto, o sono torna a pesar nas suas pálpebras pisadas de cansaço. E é quando, de volta à cama, se inclina, que Leonor dá conta da mancha vermelha na brancura do lençol de baixo. Leva a mão à boca a amordaçar o grito de felicidade, para tornar a descê-la ao longo do corpo, amarfanhando na pressa a seda da camisa de dormir erguida num repente, a desnudar-lhe as coxas entreabertas: mostrando o seu interior macio, matizado de sangue vivo.

†

Ilustríssima e Excelentíssima

Senhora D. Leonor de Almeida

A carta que a Senhora Condessa me enviou apanhou-me desprevenido, embora como sempre ávido… de Vossa Excelência, tal como vos recordo: bela, culta, talentosa e rebelde, mas não menos orgulhosa, determinada e caprichosa; tão depressa a afastar-me da grade com altivez, quem sabe até com fastio, como a buscar-me através de cartas e versos, apelando à minha compreensão e tolerância em relação a vossas ambiguidades e incongruências.

Estarei delirando, ou nas linhas traçadas pela vossa mão e vindas até mim encontra-se a proposta de uma possível correspondência secreta, que trocaríamos à revelia dos demais à nossa roda?

Caso eu esteja com a razão, terei de considerar haver da vossa parte vontade de uma reaproximação que poria cobro a desdéns, a orgulhos desmedidos e a outras agressividades.

Estarei enganado?

Demasiadas vezes já me enleou Alcipe com o fio tecido pelo seu riso de prata e versos argutos, na tessitura de uma teia de sentimentos e emoções que neste momento me parecem incertos.

Será que do nosso convívio no convento de Chelas sobejou alguma cousa mais do que memórias e afastamento? Por meu lado, creio que nada, mil vezes nada sobrou da vossa parte a meu respeito, Senhora Condessa de Oeynhausen!

E poderia ou deveria eu esperar algo diferente?

De vós jamais se deve aguardar senão o que é produto do desapego, da frieza, e nunca sentimentos que brotam de um coração ameno, como o de vossa irmã, toda ela tecida pela delicadeza.

Admito no entanto ter sido o vosso casamento com o conde de Oeynhausen, e não o de Maria com o conde da Ribeira Grande, que me encheu de despeito e zanga, pois reconhecendo em Vossa Excelência um talento de excepção e grandes Luzes, considerei ser-vos devido bastante mais do que uma mera união sofrível.

Não me dará razão esta vossa carta?

Atrevo-me então a indagar: pretendeis retomar nossa amizade e trato, desejando tornar inteiro aquilo que, no meu entender, se encontra estilhaçado?

Muitas são as mudanças entretanto operadas em nossas vidas, sendo a época de hoje de plenitude para vós e desfavorável em relação à minha pessoa: tendo em conta o meu exílio de perseguido político e de poeta pobre, contrastando com a vossa condição e nascimento, Senhora Condessa de Oeynhausen.