As Luzes de Leonor
1773-1777
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Teresa chega de Estremoz e vai à grade do convento de Chelas para ver Leonor, levando consigo, envolto na capa escarlate em que se embrulha, um outro volume proibido da Encyclopédie, encomendado pela amiga, através de Pedro, ao livreiro do costume.
Contrariada e corando um pouco, entrega-lhe o livro passando-o por entre as grades, olhar arredio e com aquele habitual franzir do lábio superior nas ocasiões em que se zanga consigo própria por ceder aos pedidos de Leonor, quando deles discorda. Severa e intransigente demais para compreender o prazer tirado da desobediência e do risco, e mesmo dos autores que ela prefere, das suas ideias e leituras contra as quais fica a maior parte das vezes.
Teme a hipótese, segundo ela provável, de essas obras lhe poderem fazer muito dano, insurgindo-se sobretudo contra a heresia que sempre encontra nelas: «Não entendo o teu interesse em obras que propagam tais ideias!», protesta, ao observar o entusiasmo com que Leonor desfolha o volume organizado por Diderot e do qual não conseguirá separar-se o resto do dia.
Mais tarde, já no claustro, tenta passar por ele os olhos apressados, mas apercebendo-se da chegada da mãe esconde o livro sob a toalha de altar que anda a bordar ao bastidor, naquele momento esquecido no regaço, ao mesmo tempo que finge picar-se na agulha.
Mas talvez tivesse exagerado na intensidade do grito, pois vê-a acelerar o passo em sobressalto, arrastando a bainha do vestido pelo chão do claustro molhado com a chuva caída no início da tarde. A filha logo a sossega, um pouco arrependida do estratagema usado como desculpa para recolher ao quarto. Mal conseguindo moderar a ansiedade, leva apertado ao peito o pano inacabado onde envolvera o tesouro que Teresa lhe dera nessa mesma manhã.
Corrido o fecho da porta da sua casa dos livros, logo desembaraça a Encyclopédie das linhas de cor, da tesoura e do dedal, das agulhas e dos alfinetes. Atira o bastidor para longe e, sem quase respirar pelo tanto gosto tomado à curiosidade, senta-se na cadeira manca, e sobre a mesa de madeira abre-a na primeira página, de início inquieta e depois cada vez mais atenta à medida que vai lendo. Debruçada sobre o novo volume da obra que, como prometia Diderot, «tinha como objectivo mudar a forma comum do pensamento». Propósito fascinante para o qual a levava inteira a ambição de conseguir vir a participar nesta desafiadora aventura de mudança.
E assim voando, acaba por perder a noção do tempo.
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Maria preocupa-se quando a irmã começa a não querer comparecer na grade, deixando-se ficar deitada sobre as cobertas da cama, chegando a rarear as vezes em que se fecha a ler na casa dos livros que tanto trabalho lhe dera a conquistar.
Dia após dia vê-a emagrecer, ficar mais e mais pálida, melancólica e sumida nos pensamentos, olhar perdido longe e um suspiro reprimido sempre a roçagar-lhe a boca. E porque teme afligir a mãe, já de si alarmada e sempre doente, Maria prefere ter uma conversa particular com o doutor Tamagnini, dando-lhe a conhecer as suas inquietações sobre a saúde de Leonor, que lhe parece cada vez mais sumida de cores e de riso.
Quando este a visita, Leonor zanga-se. Mas, cheia de pressentimentos e receios, acaba por aceitar a sua oferta de ajuda. E fala-lhe:
do coração descompassado;
das febres que lhe aparecem furtivas aos fins de tarde;
da tosse reprimida no peito afundado;
dos suores a encharcarem os lençóis e a roupa do corpo;
da insídia das insónias cruéis, madrugada atrás de madrugada.
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Habituada que está a tratar das doentes e escutar as suas queixas, Leonor não se dá logo conta do que está a acontecer consigo. Descobre-se pálida no pequeno espelho que guarda no quarto agora só dela, onde começa a gostar de permanecer fechada durante muito tempo.
Sem forças nem vontade de as ter.
Maleitosa, dúbia, perdida nos seus pensamentos e nas próprias palavras, deixa-se ir na tristeza embainhada pela indiferença.
O olhar embacia-se, perde a vivacidade e o brilho. As olheiras ensombram-lhe o rosto.
O corpo cede sem se debater.
Imagina que se estilhaça.
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Apesar de não crer que haja ainda motivo para maior alarme, preocupa-me a saúde nos últimos tempos muito abalada de D. Leonor de Almeida: sobressalto a dobar uma febre baixa mas pertinaz que a empurra para a letargia, quando não se sente revolvida por ânsias de arroubo e arrepiamentos. Adornando-a as insónias com uma tez tão pálida, que receio sangrá-la por suspeita de grande anemia.
Dizem-me haver também da sua parte perdas de conhecimento, delíquios, desmaios demorados, de onde sai exausta e exangue, passando os dias seguintes prostrada na cama, entre versos e almofadas de linho com rendas de bilros, sem lamentar o afastamento da grade onde há quem não desista de comparecer só para vê-la, ter a honra de escutá-la ou até, quem sabe, para conhecê-la.
Como seu médico temo sobremaneira a penumbra que lhe ensombra o semblante pensativo, a turvação dos olhos de madressilva. Assim como receio a sua passiva entrega à doença, como já aconteceu há dois anos: desânimo e desinteresse que, por não serem de sua natureza forte e determinada, causam estranheza a quem a rodeia.
Queixas de abatimento e tristeza parecem-me ser as suas, dolentes, a convergirem para a insatisfação, a melancolia. Conjunto de sintomas cuja análise me leva à única conclusão possível: ser o longo e forçado enclausuramento de D. Leonor o primeiro e mais provável motivo da sua misteriosa maleita. Diagnóstico que faço saber à prioresa e em seguida me encarrego de espalhar na Corte, onde sei encontrar quem pode interessar-se por esta invulgar filha dos marqueses de Alorna, já que a sua fama ultrapassa grandemente as grossas paredes do convento de Chelas.
Onde ela se sente sufocar.
Onde ela estiola.
E por estar certo de ser a distracção o melhor dos seus remédios, e querendo levá-la a abandonar o abatimento e susto onde se afunda, tento descansá-la: «Não se preocupe Vossa Excelência, que o vosso mal reside no facto de estar mantida na maior clausura. Deve ir Vossa Excelência tomar ar todos os dias na cerca do convento, caminhar o mais possível. Aconselho também os banhos tépidos e demorados, com óleo de nardo e água de rosas.»
Recomendo-lhe ainda, insinuando um furtivo sorriso: «Não deixe Vossa Excelência de escrever, nem de regressar à grade onde a espera quem tanto vos admira! Quanto a mim, os versos e a alegria são os remédios mais indicados para as vossas penas.» Como única resposta, ela encolhe ao de leve os ombros magros, envoltos em caxemira. Parece-me, no entanto, ver despontar um brilho fugaz no seu olhar entristecido.
Tentarei mover todas as minhas influências de médico da Corte para que D. Leonor de Almeida seja autorizada a abandonar o convento.
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Sentindo-se perdida e sem arrimo de ninguém, nem forças sequer para continuar a disfarçar as dores e a infelicidade, Leonor escreve a Teresa uma longa carta de desabafo, sem nada já esconder do seu verdadeiro estado:
«Ouve sem perturbar-te, que morro, que morro ao desamparo. Deixa-me proferir estas palavras que são um pequeno desafogo, que se me concede no seio de tantos males. Pretendo talvez inutilmente o único remédio que tem a minha queixa e enquanto a nossa terra fértil em juízes incompetentes argumenta sobre a minha necessidade, vejo correr os instantes, vejo exacerbar-se a moléstia.»
Sem alento para mais, pousa a pena e vai até à janela tomar da noite a friagem do inverno, olhar uma paisagem que conhece de cor e que ela vê gradeada por ser de fechamento o lado onde ela está, e isso cada vez mais lhe retira o ar do peito aflito. Volta então a sentar-se para continuar ainda um pouco a confessar seus males à única amiga em quem confia, lamentando-se da vida e das freiras que a atormentam:
«Dizem umas friamente que estou tísica, e acrescentam que eu tenho a culpa com a frívola ambição de uma glória vã que procurei nos Livros. Dizem outras que eu não tenho nada porque procuro algumas dissipações que provam o meu bom ânimo e a felicidade da minha vida. Carregam uma multidão de conselhos sobre mim. Uma diz que escreva a fulana, outra a sua filha, outra que não escreva. Enfim, tacitamente, dizem quase todas que morra.»
Aqui, Leonor interrompe de novo porque a névoa das lágrimas a impede de escrever, mas recobrando o ânimo que agora muitas vezes lhe falta, retoma a carta para Teresa no mesmo tom de oculta ironia revoltada:
«E enquanto falam, enquanto me devoram, vou morrendo.»
Logo volta a suspender a pena, tentando contornar o temor que lhe causa aquela frase, e quase se arrepende de tamanha confissão que está certa de ir perturbar Teresa. Mas agora é tarde para voltar atrás:
«Um dos pontos que tem dado grande assunto aos discursos são os Livros, acrescentando uma pessoa que não há função em Chelas a que nós não assistamos. Tristes funções! Funções de horror! Argumentos da nossa desgraça, quantas vezes saindo dessas insípidas assembleias freiráticas, com o coração cheio da funesta causa que me faz assistir a elas. Um dilúvio de lágrimas me tem levado infinitas noites, e foi termo dessas aparentes consolações, desses meios de enganar o tempo, e de ver fugir sem desesperação uma idade em que todo o vivente sem crime tem direito à felicidade.»
O esforço de escrever torna-se porém tão grande que Leonor tem de regressar à cama a descansar um pouco. E só no dia seguinte continua a carta, num longo lamento interrogado:
«Que fiz eu, querida amiga, às minhas Patrícias, às nossas fidalgas? Não se condoem de uma rapariga moribunda?»
Porque é assim que ela se sente: moribunda.
Emparedada viva, ou viva amortalhada.
Como uma eterna noiva prometida e morta antes de chegar ao altar. No seu caso, antes de viver a vida.
«Não arguo ninguém, nem mesmo os que podiam com uma palavra dar-me a vida. O Ministro que tem a seu cargo os negócios de um Reino pode gastar o seu tempo em imaginar martírios para mim? Posso tal crer? Não. Gastaria ele as suas forças a combater com a mais fraca e desgraçada das mulheres?»
Leonor lembra-se bem do que lhe têm vindo a insinuar os frades e as freiras ao longo dos anos, sobre o mal que Pombal quer à família dos Távora, a garantirem-lhe quanto ela ganha em estar dentro do convento, em grande parte fora da sua alçada…
«Se o crêem os preocupados e os ignorantes, eu não o creio. Querem meter-me na cabeça que o Marquês de Pombal meditará as minhas circunstâncias e pela desgraça original me fará morrer.»
Já no final da carta, mais tranquila por haver desabafado, Leonor hesita em expedi-la, ficando à espera de que cheguem notícias assinadas pela mão de Teresa, pois se ela estiver triste prefere afundar-se na melancolia a dilatar-lhe mais o seu desconsolo.
«Deliro, querida amiga, e consterno-te com as minhas lamentações» – acrescenta ainda.