As Luzes de Leonor
Raízes
†
A Rainha Mariana Vitória passa as noites sem dormir.
A febre do ciúme consome-a.
O fogo parece atear-se nas suas jóias de pedras incendiadas, mas ela reconhece as chamas criadas no sangue envenenado pela desconfiança e a suspeita, perfeitos nós brancos de ódio enovelado a fazer ninho no seu coração atormentado pela inquietude.
Não é o amor frustrado que a enfurece, nem sequer o facto de estar a ser enganada. A Soberana não ama, não anseia pelo Rei seu marido, a quem há anos apenas se sente obrigada. D. José está velho, feio e maleitoso, o seu grande corpo obeso não presta, cheira a urina, a vurmo, às chagas abertas nas pernas, a suor retardado; e o seu hálito, mistura de tabaco mastigado e rapé, só lhe provoca náuseas.
Há muito que o desejo por ele deixou de perturbar a Rainha.
Nunca o conhecimento das suas amantes tristes e vulgares lhe beliscaram o orgulho, lhe retiraram o sono, ou de algum outro modo a incomodaram, a precipitaram no poço onde agora se enrosca no fundo, saboreando a maresia do ódio e da raiva. Por vezes sufocando sob os vestidos de veludo e brocado que rasga, para em seguida, asfixiada, arrancar o espartilho, ficando apenas com a camisinha de cambraia, arrepiada, sentindo na pele despida a queimadura das opalas de fogo, dos rubis, das granadas, do jaspe vermelho, com uma ansiedade daninha a consumir-lhe a alma.
Desde que se deu conta do enlevo de El-Rei por Teresa, marquesa nova de Távora, a maré da correnteza do sangue de D. Mariana Vitória começou a tomar altura por entre as margens dos seus nervos em franja.
Passa as noites sem dormir,
corroída pela febre da emboscada.
Relembrando a acintosa relação dos amantes que diante de toda a Corte a humilham, a rebaixam e envergonham, enquanto ela se esmera no acto de iludir, de fingir não ver a impudícia, de não reparar no desacato, de não observar os desmandos sexuados.
É através do vidro da simulada indiferença transformada em distância que ela vai buscando os espinhos de roseira brava e infecciosa, ao espiar na jovem marquesa as maneiras libertinas, irreverentes, os modos licenciosos, a futilidade esvoaçando no estouvamento.
Estremece com o seu despudor.
Remói.
Dá-se conta de como ela rumoreja e esvoaça, exercendo a sua esquiva sedução de garça, gosto de fruto cristalizado na saliva do Rei, até ao regresso da Índia do marido e dos marqueses de Távora seus sogros, ignorantes da desonra entretanto semeada no seu nome.
A Rainha adoece de raiva, perde a noção de equilíbrio, delira, imagina participar em actos de vingança e crueldade: vê gumes de punhal e faca a lacerarem a pele acetinada de Teresa, ferida de lança e espada lancetando o seu seio, vómitos de veneno desenhados a sangue, golpe aberto lado a lado em caule de lírio ou de garganta.
Embora reconheça os nefastos efeitos da atracção doentia que a marquesa nova exerce sobre a sua vontade ressentida, a Rainha deixa-se arrastar pela insídia da arisca beleza de Teresa de Távora.
Invejando-lhe a silhueta frágil.
Desejando-lhe o corpo liso, trigueiro e franzino.
Por ele envenenada e enfeitiçada,
como se quisesse substituir pelo dela o próprio corpo, que desde menina tanto lhe sobeja: pesado, grosso, obstinado.
Mas, em si, muito mais lhe desagrada: a tez de um moreno sem brilho, o nariz, a boca pouco firme, os olhos pequenos de ónix entornado, olhar de gelo fixo no espelho dourado do toucador.
Não querendo testemunhas do seu descontrole nervoso, afastara as aias, as camareiras, as açafatas, até as fidalgas mais íntimas; e julgando-se sozinha debate-se sem entraves com os soluços e as lágrimas, que não a impedem de distinguir a sua imagem à luz da implacável lucidez por ela usada nos momentos mais difíceis.
Encoberta pela doce penumbra do toilette, sem coragem para se mostrar, a Princesa D. Maria dá em silêncio nervosos nós ao longo do cinto estreito do fato de renda cor de marfim e malva, enquanto o perfume da esteva e da madressilva, ao entrar pelas janelas entreabertas, ajuda a entorpecer o ar estagnado do quarto.
Acidental e invisível testemunha do desconcerto da Rainha sua Mãe, a Princesa esquece-se da aflição que a levara de corrida para lhe dar conhecimento das palavras e dos presságios ruins que os profetas da desgraça ultimamente têm dilatado, possuídos pelo mau agouro das suas visões sanguinolentas. Juntamente com os cataclismos antecipados pelas cartas e pelos cristais deitados por bruxas e videntes, que descalços percorrem os escombros de Lisboa, a fazerem crescer com as suas palavras de sombra uma espessa névoa de inquietude, que convocam para agravar o medo do povo
ainda assustado pelo terramoto.
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