As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 155 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

†

 

Leio Kant, que tanto influenciou Schiller.

Detenho-me na sua secura apesar de tudo amável.

Gosto de lhe seguir as dissertações acerca da decisiva importância da razão pura. Mas também não deixo de reler Montesquieu, por seu lado defendendo a ordem da História e a liberdade, que me é tão cara. E acabo por pedir a ajuda dos poetas, que sempre me acodem,

mas também por demais me sobressaltam.

Olho as águas do canal da minha rua colorida pelos panos de múltiplas cores, dos tintureiros que lhe dão o nome. Escuto o toque grave dos sinos que parece arruivar o final da tarde, enquanto a melancolia me invade.

Comecei a ler Princípios Matemáticos da Filosofia Natural, de Newton, numa espantosa tradução feita por Madame de Châtelet, mulher de quem admiro a sabedoria e a ambição feminina.

A perseverança.

O que a levou a manter o discernimento e a coerência, até se apaixonar pelo jovem poeta Saint-Lambert, a corromper a tessitura que durante anos a mantivera unida a Voltaire,

por entre divergências e sobressaltos.

Avignon, 10 de Agosto de 1785

†

Minha querida mana

muito do meu coração

Não digo, Leonor, que nos tivéssemos perdido uma da outra. Eu sim, é que ando perdida. Sabe bem como sou, apanho tudo o que anda no ar, antes de ter pousado na terra; poalha do bem e do mal a inquietar-me, e nos últimos tempos só tenho encontrado alvoroço nas cartas que a mana me envia.

Há qualquer cousa, sim, que revolteia, dança, volta e foge de novo, vem falar ao meu ouvido com palavras feitas pelo próprio avesso dos sentidos, e eu não compreendo, embora tente, entontecida de susto, o arrepio a subir-me no corpo esvaído que quereria invisível; então tudo retorna e retoma, recomeça na sua injusta medida a insinuar-se na penumbra da casa.

Há qualquer cousa, sim, minha Leonor, que se demora e atarda, insegura e frágil à minha beira, pois tanto se apressa como reluta na urgência que traz, parecendo temer aproximar-se: perspicaz, volátil, branda e doce e simultaneamente impura. Mas quem poderá saber o que nos reserva o futuro, determinado por um implacável destino de espinhos e desgraças… Parecendo regozijar-se em martirizar-nos, embora a mana se negue ao abraço, parta e se afaste, enquanto eu me entrego e fico e cedo, num longo trilho de humilhações e passividades cumpridas;

pomba

nas mãos de quem me comanda, me alimenta e decepa as asas.

Eu não digo que nos tivéssemos perdido uma da outra, Leonor, apesar de o tempo de clausura recordar o ninho, o resguardo feito pelas duas; e quando o comparo aos dias de hoje desfaço-me em lágrimas, afastadas que estamos para sempre uma da outra; confissão feita só por me sentir esgotada nestes dias de solidão e medos, para mim tão longos quanto breves no esbracejo, enquanto me vou consumindo esmaecida, exaurida, consciente do vazio cavado à minha volta,

atenta ao voo dos anjos.

Pois nada me restará se for incapaz de lhes escutar o chamamento. Já a mana, atenta à posteridade, um dia será salva da morte pelos poemas que escreve.

Beijos da irmã

que muito a ama

Maria

Lisboa, 20 de Agosto de 1785

†

Entra tacteando com o sapato de cetim a laje escura, na penumbra fria e húmida da Igreja de Santa Clara onde Petrarca lembra ter visto Laura de Noves pela primeira vez num domingo de Páscoa, quatro séculos atrás. Senta-se num dos bancos corridos perto do altar-mor, mal iluminado por velas de chama hesitante já meio derretidas entre os lírios brancos postos aos pés da santa.

De olhos fechados, Leonor recorda alguns sonetos em que Petrarca canta Laura angelical e inacessível. Tenta imaginá-la ajoelhada, vestido longo de prata fiada e bordada a pérolas e rubis, véu branco nimbando-lhe os cabelos anelados de um louro de seda natural.

Contra sua vontade, Leonor comove-se com a eternidade daquele amor incompleto. Dele sabendo apenas que se amaram em sigilo sem jamais se tocarem, a não ser com a ponta dos dedos com os quais ele raramente lhe tomava a mão etérea, na qual nunca pousara sequer os lábios trémulos.

Insatisfeita, fantasia-os:

Petrarca a tentar mitigar a paixão com a poesia, e Laura a toldar-se com a própria tibieza, a ocultar-se na virtude e nas febres que a debilitam; mais tarde entregar-se-á de bom grado à peste que ao passar pela cidade a levará consigo. Leonor impacienta-se com tanta passividade, não obstante o gosto que tem pela fatalidade do amor impossível.

Apesar de tudo atraída, procura a casa onde Petrarca viveu enquanto estivera em Avignon, tenta encontrar a austera capela dos frades menores onde se diz ter sido sepultada Laura, túmulo fictício que a certa altura ela julga encontrar, enternecendo-se ao parecer-lhe distinguir o seu nome talhado numa pedra fria: letras que os séculos rasuraram, apagando os anos a precisão do traço. Aí, onde Petrarca teria deixado tombar as suas lágrimas, Leonor pousa a rosa sanguínea que leva consigo.