As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 15 de 289

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As Luzes de Leonor

Monólogo de Pedro

Oculta o orgulho e a rebeldia.

Tapa os seus verdadeiros gostos literários, a admiração por Rousseau, Diderot, Voltaire e a filosofia das Luzes. Mestra no iludir, joga com os sentimentos e o entendimento; faceira, julga evitar conflitos e tornear confrontos. Nunca deixando claro o não, como quem consente. Mas também sem jamais dizer o sim, e explicando isso com doces argumentos.

Perplexidades? Tantas!

Obscuridades? Múltiplas!

E se vai por vezes com passos de lã pelas áleas do atrevimento das ideias autênticas, a tentar convencer o pai com as suas alegações, nunca lhe expõe o que com desagrado contesta já, as interrogações que nela se levantam descobrindo tudo o que ousa procurar no pensamento dos filósofos de quem D. João de Alorna desconfia. Não lhe revela a dimensão do gosto que põe no estudo da ciência, em detrimento da religião e mesmo da teologia, nem lhe manda muitos dos versos que vai escrevendo e aos quais ele, com desagrado, chamaria eróticos.

Tanto deseja Leonor para si própria, e tão pouco lhe parece querer ofertar a sorte! Mas isso ilude em cartas onde esconde aquilo que nela se exalta, nunca dando a ver os sobressaltos da mulher que nela já desperta em disfarce, sustentando apenas o sentimento e a alma. Falando somente enquanto filha obediente, doce, submissa.

E isso mata-a.

 

†

MONÓLOGO DE PEDRO

 

Olhei-as e não reconheci nenhuma delas.

Nem sequer minha Mãe naquela mulher gasta e vacilante, vestida de luto carregado; nem minhas irmãs naquelas duas raparigas espigadas e pálidas, com um riso dificultoso nos lábios ressequidos, sem rasto de alegria.

Em nenhuma das três revi a infância.

Estranhas.

A olharem-me ansiosas por trás da grade do parlatório àquela hora deserto, mãos geladas que agarrei, a tropeçar nas pedras dos seus olhos, escolhos de um mar sem fim a humedecer-lhes as pálpebras, enquanto me fitavam com uma ansiosa sede de carinho.

Nas minhas irmãs tentei em vão rever as crianças que foram, meninas de quem nem a cor do cabelo guardei na memória, ou a maciez da pele, a insensatez ardilosa dos sorrisos. E só nesse momento julguei ter compreendido com exactidão a brutalidade daquilo que aos quatro anos me fizeram, ao afastarem-me de todas as afeições.

Optando eu então por uma espécie de superficialidade que me iludia os sustos, as pisaduras, os sofrimentos, a par de uma melancolia incontornável, pois nunca consegui mitigar a desmesura da alma ferida.

«Pedro!», reclamou Leonor, voz desabrida diante da minha evidente desatenção, chocada com a expressão acanhada que eu não conseguia apagar do rosto em chamas, onde teimavam buscar a exaltação do entusiasmo, quando na verdade eu era incapaz de iludir o fosso cavado entre nós, consciente de que o tempo raramente se recupera.

Terei pois de reaprender a amá-las como dantes.

Reatando e retomando até o que talvez não saiba ou queira recuperar, assustado com todas elas, embora de certa forma amando-as ainda por tudo o que representaram no meu passado.

– O mano tem de encontrar um antídoto para a solidão envenenada que lhe corre nas veias! – atirou-me Leonor como se me acusasse. Emudeci envergonhado com o deserto das emoções resguardadas, com a austeridade exposta, e menti dirigindo-me a nossa Mãe:

– É Vossa Excelência tal e qual como a recordava!