As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 86 de 289

Páginas do PDF

As Luzes de Leonor

Diário

Ao mesmo tempo, porém, apercebe-se de um corrimento tépido que, depois de ter ensopado as culotes, trespassado as meias de seda e as saias de sombra, começa a descer-lhe grosso e quente por entre as coxas, até aos joelhos instintivamente unidos.

E é com incredulidade que, seguindo mentalmente o seu trajecto invisível, Maria olha para baixo, a descobrir no cetim bordado dos sapatos azul-cobalto alguns pingos de sangue muito vivo.

 

†

DIÁRIO

 

«Passámos a Aldeia Galega com algum trabalho pela braveza do mar. Betty desmaiou, o Conde riu, e eu vomitei mas também ri, pela extravagância da cara delicada com que a madame principiava a despedir-se de Portugal, e ainda que o meu coração não deixasse de ir dolorido, a ideia do que faria o mano se viajasse connosco me divertia, na primeira cena cómica da nossa cavalaria andante.

14 de Abril de 1780»

†

A Princesa do Brasil vai ao encontro de sua irmã a Rainha quando, ao sair da Sala dos Embaixadores, a vê dirigir-se na companhia da camareira-mor D. Mariana de Arriaga para o passeio habitual um pouco antes do crepúsculo. E as três tomam a álea dos limoeiros doces dos jardins de Queluz, que leva ao pavilhão chinês; cada uma com o passo leve a demorar-se em si mesmo, tentando aproveitar a hora de acalmia.