As Luzes de Leonor
Angelus
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Não a posso proteger…
não te posso proteger, tomar-te nos braços a voar contigo pela infinitude, minha Cassandra do fio das estrelas, minha Eurídice através das constelações dos céus. E pela primeira e única vez permito-me ser imprudente: estendo a minha mão até ao teu ombro esquerdo, como se tocasse um astro, aflorando o teu coração de rubi um pouco mais abaixo, no sobressalto.
E a luz irisada da tarde revela-me a teus olhos:
as asas
a aura.
O olhar transparente – com a lividez mórbida dos lírios e dos seres alados.
Pronto a perecer pela tua estranheza.
Pela tua beleza.
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A Guarda Real da Polícia forma uma estreita ala por onde Leonor passa apertando os dedos crispados do filho na sua longa mão nua, onde apenas brilha um rubi ensanguentado.
Olhar de pedra, a contrastar com a falta de expressão do rosto pálido, porte altivo a intimidar os militares que irão ter a ingrata missão de escoltá-la durante a viagem, cuidando de que atravesse a fronteira com a Espanha.
Suprema ironia para quem anda há meses a aguardar em vão uma ordem do Príncipe Regente para obter um passaporte juntamente com cartas de recomendação. Mas não suportando ser tratada daquele modo, Leonor dispõe-se a acreditar que todo aquele aparato não passe de mera encenação, com a finalidade de a levar para fora do país nos termos que ela propusera ao Regente: fazendo constar publicamente a sua expulsão de Portugal, a fim de iludir Bonaparte.
Leonor avança ostensivamente com vagares de provocação, e quando um dos militares da Guarda Real da Polícia a quer ajudar a subir para a carruagem, ciente do olhar de regozijo de Diogo Inácio de Pina Manique que de algum lugar a espreita, recusa com um obstinado e seco movimento de cabeça, fazendo rebrilhar ao sol os seus cabelos de ouro.
A carruagem parte e Leonor, apesar de ter prometido a si própria o contrário, volta-se, a distinguir a custo, por entre os ombros fardados dos soldados, as portas e janelas fechadas da sua casa, tal como havia ordenado às filhas.
Varandas desertas debruçadas sobre os jardins entorpecidos.
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Lilias Fraser apercebe-se do anjo, antes de o ver materializar-se diante de Leonor.
«Minha única…» – lê no seu pensamento, enquanto expondo-se ele se perde a si mesmo prestes a estilhaçar-se, cristal ou pétala ou vidro transparente, numa fragilidade diáfana. E por um curtíssimo segundo as suas asas abrem-se, primeiro tremeluzindo de luz cintilante a matizar-se, e por fim resplandecendo com um ardente fulgor.
A cegar quem olhe para a sua desmesurada beleza.
Mas interpondo o seu próprio olhar, Lilias vela o de Leonor, que mesmo assim estremece deslumbrada e vacilante no passo, sem no entanto se deter, guiado pelo poder de Lilias, que desde a alva se resguarda entre a folhagem das árvores maiores do jardim em frente da casa da Rua da Boa Morte.
Tomada pelo anjo,
Leonor debate-se na turvação dos sentidos, e sem ter consciência do espaço refulgente onde se abisma, entra na carruagem com o menino largado há muito da sua mão levada ao peito, onde o coração parece imobilizado.
Lilias, que está ali para cuidar da sua partida, enreda-a até lhe encontrar os olhos límpidos onde mergulha os seus, a encontrar uma luz exaltada, limpa de qualquer vestígio de negrume, que a tranquiliza.
Conhecedora da paixão que a espera.
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Mal Leonor acabara de atravessar o Tejo rumo a Aldeia Galega, olhar perdido nas águas sombrias do rio, já Henri Forestier, impaciente, bate à porta da sua casa, coração em sobressalto, ansiando por apertá-la nos braços.
Olhando com cautela ao longo da Rua da Boa Morte habitualmente vazia àquela hora da tarde, está longe de imaginar o acontecido a Leonor. E tal como o seu amigo Charles de Céris, examina suspeitoso as janelas com as suas portadas de madeira cuidadosamente fechadas. Ambos sentem o peso do silêncio, cortado apenas pelo som metálico da sineta, que Henri volta a puxar, dando conta de como o sol faz brilhar as pétalas púrpura das rosas debruçadas no muro que ladeia a casa e no cimo do portão gradeado à sua frente.
Enquanto espera, endireita no peito o colete com abas, calças justas nas pernas altas, das quais sacode um pó inexistente. Em seguida tira o chapéu para passar no cabelo basto os dedos inquietos, menos alisando do que revolvendo, desatento e ansiando por se encontrarem a coberto da perseguição implacável dos agentes de Fouché.
Depois de aguardar um tempo que lhe parece interminável diante das grades do portão de ferro, por trás do qual parece defender-se a casa estranhamente vazia, a porta abre-se, Frederica aparece, e pára a fitá-lo fixamente de longe. E quando a vê descer a escada e começar a percorrer a alameda na sua direcção, Henri Forestier percebe
que algo de muito grave acontecera a Leonor.
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Frederica, que nunca gostou de Henri Forestier,
sente prazer ao vê-lo empalidecer, à medida que vai contando com todos os pormenores o exílio da mãe, misturando a realidade com a ficção, entrançando detalhes verdadeiros com outros inventados, exagerando o desgosto e a aflição, acrescentando com deleite particularidades fantasiosas da humilhação a que Leonor fora sujeita.
Narra ainda com minúcia o arrepio que a fizera estremecer ao sair de casa como se fosse sacudida pela aragem, os brincos de brilhantes reverberando ao sol da tarde, os sapatos bordados a pérolas resvalando nas arestas das pedras, os dedos fincados no tafetá anil da saia que erguera para não sujar a bainha com o pó da rua.
Demora-se por fim a descrevê-la, delicada e solitária, passo vacilante a entrar na carruagem com João Ulrico pela mão. Refere a inexplicável cintilação do ar tremeluzindo à sua passagem. Relata-lhe a partida, rodeada pela Guarda Real da Polícia, a caminho de Espanha.
Henri esconde atrás das costas as mãos que tremem.
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Segue com João Ulrico a seu lado,
atordoada e exaurida, pelas estradas portuguesas numa velha carruagem desconjuntada, cortinas de couro corridas na vontade de se alhear de tudo e nada ver, escoltados por uma força da Guarda Real da Polícia, que os vai conduzindo com malas, sacos e baús, depois de uma demorada travessia do Tejo até Aldeia Galega, seguindo pelo meio do pó que as patas dos cavalos levantam em direcção à fronteira.
E diante da insistência do filho em querer saber pormenores da viagem e do motivo da pressa que os levara a sair – mais parecendo fugir – de Lisboa, encolhe os ombros e manda-o calar, sem resposta,
no maior desamparo.
Ignorante de tudo, mesmo do próprio percurso que os espera, já que nada lhe fora permitido inquirir. Sem nenhum nome, nenhum endereço onde se dirigir, sem dinheiro. Sobretudo sem as tão ansiadas cartas de recomendação do Regente e dos seus ministros.
Sem nenhum documento oficial que a acreditasse.
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Acabada a visita de Leonor, sol púrpura a descer no horizonte, Gonçala voltara à sua cela para morrer. A cintilação maior começara já a deixá-la,
com enfraquecimentos de vela.
E enquanto tudo à sua volta parecera ganhar as brumas das sombrias profundezas, ela sentira-se ascender despojada, subindo cada vez mais leve e alto, ténue e volátil, levada pela paixão que, ao teimar abandonar-lhe o corpo deitado sobre a cama, passara a alimentar-lhe o pensamento com a sua deslumbrada luz reverberando.
«Que mude el deseo pensando» – minha Teresa de Ávila!
Ao saber da expulsão de Leonor para Espanha, Gonçala resvala no desmaio, num último esvaimento esmaecido. E ainda a amiga vai nas estradas para Madrid, quando ela perde o conhecimento num estremecer convulso, uma lágrima equívoca a descer devagar na sua face lívida, como se hesitasse entre as estrelas extintas e a mudez dos lábios.
Graça ou condenação?
Mas a chama consome-se no seu peito, sem nenhum revoar de ave perto da janela para lhe adoçar os derradeiros momentos.
Queda, mas também último arrebatamento de flor-de-lis, que se reconhece lírio mas se deseja rosa
ao abandonar a vida.
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Durante a viagem Leonor passa as noites em claro. Mal refeita das agressões de Pina Manique e da conivência dos ministros, para além de outras traições que sempre magoam mais que tudo o resto, e sem saber analisar os poucos dados contraditórios que possui, sente-se perdida.
Na verdade, entre o que combinara com D. João e o seu aparente exílio a caminho de Madrid existe um hiato que ela não consegue compreender. Por mais que tente convencer-se de que o seu desterro não passa de uma encenação imaginada pelo Regente sem a prevenir, Leonor apercebe-se da dissonância demasiado visível, do amargor da traição com o seu odor acre.
Assim, perdidas as últimas ilusões sobre a lealdade, sentindo-se traída pela política, tenta socorrer-se da poesia, a preferir transformar em versos a ambição que a levara ao convívio com a mediocridade, a deslealdade e a hipocrisia. Refugia-se na língua portuguesa enquanto a levam para longe de Portugal.
Procura a reflexão e a razão, consciente de que todos aguardam dela a desordem do espírito, esperando os seus inimigos vê-la soçobrar na construção da própria perda. Talvez de imediato lhe tenham roubado o sonho, mas não conseguem retirar-lhe a vontade de o retomar, nem a constância diante dos ideais, a tenacidade perante a utopia.
Para além da capacidade de se erguer em plena queda.
Afastam-na da pátria, sem meios de nenhuma espécie, mas não logram retirar-lhe o exercício do patriotismo. Tentam despojá-la do orgulho mas, ao contrário do que supuseram, não a privam de tentar de novo o empenho político caso dele dependa a derrota de um déspota.
Sabe que irão querer matá-la pela errância dos caminhos da liberdade; cabe-lhe evitar as armadilhas, detectar a tempo os venenos, antever o brilho lívido das lâminas das armas, antecipar-se ao zunido das balas. Sem contar com a habilidade e a argúcia
para lhes trocar os passos.