As Luzes de Leonor
Diário
Nasceu um outro filho aos príncipes reais.
D. Carlota Joaquina não tira dele o olhar meditativo. E D. João cerca-o, ainda desconfiado diante da robustez do menino.
A Corte toda rejubila.
Mas é de partir o coração ver a tristeza e o ar de abandono do pequeno e delicado Príncipe Francisco António Pio, esquecido de todos, a perder-se pelos recantos dos salões e nas penumbras dos corredores do palácio, magrinho e cada dia mais pálido, os olhos enormes em busca de alguém que o acolha e acarinhe.
Lisboa, 14 de Outubro de 1798
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Utilizando as suas influências de ministro do Reino, José Seabra da Silva conseguiu fazer com que as pesadas portas do Hospício da Misericórdia se abrissem para Bocage sair em liberdade no último dia do ano de mil setecentos e noventa e oito.
Logo no começo da manhã manda chamar o Intendente-Geral da Polícia, que sabendo tudo o que se passa em Lisboa, não estranha a ordem inusual, mas pelo sim pelo não compõe no peito a comenda, alisa a renda branca dos punhos, e antes de sair do gabinete tem o cuidado de ajeitar o espadim e verificar se leva consigo o relógio de esmalte. E enquanto caminha sem pressa até à rua, vai comentando com o irmão António Joaquim, por ele colocado na Intendência da Polícia como seu homem de confiança:
– O ministro do Reino conseguiu que libertassem Bocage. Aliás, deve ser para me comunicar esse facto que me mandou chamar tão cedo.
Enervado, Pina Manique torna a ajeitar o espadim, antes de passar ao irmão as ordens mais urgentes:
– À espera do poeta arruaceiro devem estar os amigos habituais, e entre eles a condessa de Oeynhausen. Seja como for, quero ficar a saber os nomes de todos, sem faltar nenhum. Manda imediatamente os agentes para as cercanias do Hospício da Misericórdia; assim, quando o ministro me der ordem para que não os siga, já será tarde.
O Intendente ri ainda ao sentar-se na penumbra encobridora do coche, partindo em seguida a caminho do Terreiro do Paço, a atender ao chamado de José Seabra da Silva, que no seu gabinete tenta em vão concentrar-se no trabalho, consciente de como irá ser desagradável o encontro com o Intendente-Geral da Polícia.
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No regresso do Porto onde fora visitar os pais, Catarina encontra Leonor mais magra e mais pálida, o olhar a fugir para longe, como se quisesse ir atrás dele sem ela mesma saber até onde.
Tenta animá-la, levá-la a sair de casa, e lembrada que está de já a ter visto ceder ao desânimo e à melancolia, escolhe os próprios argumentos da amiga, invocando a razão. Enumerando os tantos motivos que até a deveriam encher de ânimo, desde o reconhecimento do seu talento e inteligência, o êxito que colhem os seus versos quer na Corte quer nos salões mais cultos, e o interesse crescente pelas suas assembleias que entretanto se haviam tornado das mais concorridas de Lisboa.
– E o empenho que a Princesa Real demonstra por ti e pela tua companhia… Já pensaste quanto isso te pode ser útil? – pergunta-lhe a certa altura, embora ciente de como este seu argumento é pouco para a ambição de Leonor, que continua a perseguir o seu sonho de liberdade absoluta.
Anseio e princípios que lhe vêm das Luzes, com eles traçando uma espécie de mapa composto de continentes, oceanos, marés e vagas de idealização do mundo, na construção de uma nova sociedade que nada tem a ver com a realidade mesquinha do presente. Decepcionada com a vida que leva e consciente de estar a ficar muito aquém
da sua verdadeira medida.
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Bocage começa a juntar os versos escritos sempre que as circunstâncias por que passara no ano anterior o permitiram; situações todas elas adversas à poesia. Poema após poema, avança devagar na construção do livro que gostaria de ver editado, num volume de rimas dedicadas à amizade.
Na verdade quem o anima e encaminha nesse sentido é o ministro José Seabra da Silva, a quem deve a liberdade; e pela primeira vez Bocage experimenta um sentimento de gratidão que de certa maneira apazigua nele a descrença na humanidade, disfarçando ou toldando em si a lâmina da mordacidade e da ironia.
Embora muitos dos que se afirmaram seus amigos tenham deixado de o procurar ou, ao cruzarem-se consigo na rua, finjam não o conhecer. Para além de Leonor de Almeida e de Catarina de Lencastre, raros são aqueles que lhe restam. Bingre está quase sempre fora de Lisboa, Tolentino de Mendonça parece-lhe arredio, e tudo leva a crer que João Bressane Leite também se mantém propositadamente afastado…
Depois das páginas organizadas, Bocage começa a reler os versos, deitando fora alguns e emendando outros, sem pressa, consciente da impossibilidade de conseguir juntar a quantia suficiente para mandar compor um novo livro. Desde a libertação do Hospício da Misericórdia o poeta sobrevive à custa das esmolas de alguns admiradores e amigos.
Ao ser posto a par desta situação, o ministro Seabra da Silva ordena a Pina Manique que sejam entregues a Manoel Maria Barbosa du Bocage «34 † 150 réis, sete côvados de baetão azeitonado, um calção de meia, preto, feitio e aviamento de um capote, casaco e véstia, um côvado de lemiste. E ainda sapatos, lenço, chapéu e fivela». Mas deste acto de humanidade e justiça a poesia ficara de fora, esquecida como cousa de somenos importância. Ou seja, por motivos económicos o tomo II das rimas de Bocage não poderá ser publicado.
Inconformada com o facto, Leonor, durante uma das assembleias dos Freire de Andrade, depois de recitar alguns dos últimos poemas de Manoel Maria, lança a ideia de uma subscrição para que a edição deste seu novo livro se torne possível.
Documento logo ali redigido e assinado por ela mesma, por Catarina de Lencastre, João Bressane Leite, o duque de Lafões, o conde de Ega. Início apenas de uma longa lista, onde aparecerão os nomes dos ministros José Seabra da Silva e Luís Pinto de Sousa Coutinho.
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Acaba por ser em casa de Henriqueta de Meneses e do duque de Lafões que se dá o reencontro de Leonor com William Beckford. Ele olha-a com curiosidade, achando-a mais bela e mais inquieta do que se lembrava, ela a fitá-lo com firmeza mas desconfiando tanto do seu olhar trocista como da sua boca sensual, da sua cultura vasta e do seu carácter obstinadamente fugidio. Nele há qualquer coisa que lhe desagrada, mas que simultaneamente a atrai e desafia.
Contamina-a?
Contamina-a, é isso. Sentindo no entanto um imenso prazer com a sua companhia, tão requintada e aprazível, quanto enganosa e provocadora.
Perigosamente devastadora?
Leonor não pretende saber. Desde que por desafio aceitara o seu convite, acabando por ir até à sua quinta em Monserrate, que o mantém a uma certa distância prudente.
Prudente, julga ela.
Por seu lado, Beckford acha-a diferente de todas as portuguesas que conhece: tão culta quanto ousada, tão firme quanto vulnerável, com um talento poético inesperado numa mulher em terra lusa. Quando a ouve defender a razão, menosprezando a paixão e empurrando para o limbo os sentimentos, ele reconhece nela o oposto de tudo isso.
Julgando usar o ferro hirto da frieza a cauterizar as veias do coração, ela abre brechas expondo de si o lado frágil, sem sequer dar conta disso.