As Luzes de Leonor
Caderno
Dezoito anos já passaram desde que as três ali foram trancadas. Meses, dias e horas de tal modo enredados uns nos outros que elas imaginam ser por demais difícil encontrar-lhes a ponta solta, a partir da qual tentariam desembaraçar o novelo. Mas sabendo Leonor demasiado quanto vacila a sorte, fica atenta a esta prelada, que desde a sua chegada porfia em aproximar-se da sua companhia, mostrando curiosidade e agrado pela casa dos livros feita por ela. Contudo, a vida tem-na levado a ser desconfiada, com tendência para afastar-se de quase todas as freiras, a arredar-se do convívio conventual e freirático, acabando por apartar-se também de quem não deve.
A actual prelada parece querer mostrar-se como uma espécie de anjo amável, tendo «sozinha, mais tino que todas as freiras e todos os frades». No entanto teme que a sua delicadeza e candura a possam impedir de impor as necessárias regras. Como explica a Maria: sem conseguir «estabelecer a ordem e a justiça de que necessitamos».
Vendo as duas irmãs isoladas, D. Teresa pergunta-lhes com um leve sorriso, depois das vésperas:
– Vossas Excelências há muito que não frequentam o coro. Passa-se nele alguma cousa que vos desagrade?
Maria baixa os olhos, contrita, mas Leonor encara-a com frontalidade, sem no entanto lhe falar da rede de intrigas por lá tecida, nem enumerar as freiras e as pensionistas ociosas, todo o tempo a segredarem umas com as outras sobre o que não vêem nem sabem, espiolhando, espreitando a vida alheia, sem cuidarem de dar o exemplo com as próprias.
Pensando na situação indefinida em que ainda se encontram diante da nova madre-prioresa, Leonor tem a prudência de guardar silêncio.
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CADERNO
Cópia de parte da carta enviada hoje ao senhor meu Pai, dando conta das novas que nos chegaram sobre os males ultimamente agravados do Rei D. José:
«Dizem que o Marquês tem guardas dobrados depois da função, e que não fala a ninguém à noite; quando sai vão os soldados com as espingardas carregadas com balas; o homem não anda em si e verifica-se nele o retrato que faz Mr. Fénelon de Pigmaleão.»
Chelas, 29 de Outubro de 1776
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A rainha D. Mariana Vitória assume a regência de Portugal no dia 29 de Novembro do ano de 1776.
Depois de assinar os documentos necessários, sumptuosamente paramentada, dirige-se aos aposentos do Rei, onde entra sem fazer ruído. E com um gesto firme manda sair todos aqueles que rodeiam o leito real, incluindo os médicos, os ministros, os padres, os camareiros.
E só então se curva sobre a cama onde o marido morre devorado pelas dores, das várias apoplexias que o têm paralisado. Sente-lhe o cheiro nauseabundo das chagas, do suor retardado, da urina e das fezes que já não contém. Mesmo assim aproxima mais o seu do rosto devastado de D. José, que a fita com os olhos inundados do medo de se saber condenado.
Não lhe dá uma palavra. Não faz um gesto de consolo.
Não lhe toca. Não o afaga.
Com o olhar perdido na queixa muda da sua expressão convulsa, fica a recordar-se de como ele a colhera, tomara ainda quase menina e a possuíra mesmo antes de estarem casados, cedo demais para a idade dela, sem cuidado ou ternura, e de como apesar de tudo se apaixonara nesse instante. E ele, indiferente aos seus sentimentos, ao longo dos anos a fora deixando abandonada do seu amor e corpo, trocando-a por outras, clandestinas e desejáveis, enquanto ela, impotente, se consumia de ciúmes.
Sobretudo da marquesa nova, Teresa de Távora!