As Luzes de Leonor
Memória
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Foram as acácias do fundo do jardim que escutaram o meu emudecido lamento de orgulho revoltado, debaixo das folhas dos seus ramos cobertos de flores douradas, brilhando à luz temperada pelo sol.
Encostei-me a um dos troncos delicados e, fechando os olhos, esforcei-me por guardar na memória, uma por uma, as minhas fragrâncias preferidas: o odor húmido e lavrado do chorão sob o qual sempre gostei de me refugiar a ler nas horas de descanso, o ácido aroma dos limoeiros a misturar-se com a intensa doçura marfinada das rosas-chá a entorpecerem-se no perfume encrespado das tílias e das glicínias. E havia ainda o cheiro seco a resina dos pinheiros, diluído pela curta lonjura do pinhal que ficava para além do portão, onde os guardas de Pina Manique começavam a demonstrar alguma impaciência.
Mantenho hoje uma angustiante memória dos últimos instantes antes de me levarem a caminho de Espanha, dividida entre a esperança de tudo fazer parte de um ardiloso plano do Príncipe D. João iludindo Bonaparte, e a hipótese de estar a ser atraiçoada, vítima de predadores implacáveis.
Ironicamente temendo aquilo por que tanto ansiara.
Sem entender que nesse momento já me perdia.
Dos primeiros tempos de exílio que passei em Madrid mantenho uma recordação de luz intensa a contrastar com a minha sombra, que no entanto se ia entreabrindo aos poucos, formando a corola, as pétalas de uma flor rutilante que ao desdobrar-se em si mesma me intrigava com o seu enigma.
Conturbada que andava na minha turvação,
cega por um luzeiro implacável, sentia-me errante na maior solidão, abandonada e sozinha comigo mesma.
Foram dias de febre e de queda, até à chegada de Henri Forestier.
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