As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 196 de 289

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As Luzes de Leonor

Raízes

†

 

 

Fulminada, Leonor de Távora olha o juiz nos olhos pardos.

– Se bem entendi, Vossa Excelência vem comunicar-me ter Sua Alteza Real decidido aceitar os pedidos de clemência feitos em relação à minha pessoa pela Rainha e a Princesa D. Maria, mediante a minha confissão de arrependimento por um crime que não cometi.

A voz dela guarda a lâmina azulada do gelo intacto, de um orgulho herdado e usado desde nascença. Tom burilado pela rispidez e pela aspereza prestes a resvalar no grito. O magistrado, que fora até ela a contragosto, por ordem expressa do Rei D. José, não entendendo o sarcasmo e julgando-a até jubilosa, debita o que lhe fora encomendado:

– Sua Alteza Real, na sua grande generosidade, depois de escutar os argumentos da Rainha e da Princesa do Brasil, dispõe-se a considerar o pedido de clemência em relação a Vossa Excelência, mediante a vossa confissão e arrependimento. Nesse caso, Sua Majestade considera aceder a comutar a vossa sentença de morte, mudando-a em prisão perpétua.

Não estando habituado às mudas iras de Leonor de Távora, o dr. Eusébio Tavares de Carvalho assusta-se quando, branca como a cal, ela se levanta de rompante, atirando para trás a cadeira onde estivera sentada, varre da secretária da madre prioresa os papéis que deveria assinar e fica a olhá-lo, silenciosa e ameaçadora na sua fúria, punhos fechados erguidos ao rosto lívido.

Perplexo, o desembargador recua até à porta à qual fica colado enquanto comenta em tom agreste e ressentido:

– O que levou El-Rei a supor ser a marquesa de Távora capaz de descer tão baixo?

Espantado por tanta sobranceria, ele nem se atreve a argumentar, sentindo nos ossos a mordedura do frio e da humidade nevoenta do mosteiro, onde a chuva entra zunindo empurrada pelo vento agreste que, encolhendo-se, passa pelas frinchas das janelas com portadas de madeira lascada.

Embrulha-se mais o juiz na capa de fazenda inglesa preta, desse modo alargando a sua sombra projectada na cal da parede. Vulto estremecido pela chama fraca das velas de duas palmatórias de cobre que, a mando da madre prioresa, as freiras das Grilas haviam deixado sobre a mesa.

E em disfarce apertado no gesto, sentindo-se ali retido mais pelo acanhamento do que pela vontade, vai ele roçando os dedos hirtos e nervosos na fechadura, a garantir a saída.

Por seu lado, Leonor de Távora continua a fitá-lo, imóvel e retraída no vestido emprestado de seda puída cor de cinza, dentro do qual o seu corpo fica a nadar em desamparo. Envergonhado com a própria cobardia, o magistrado observa em tom grave e baixo como se segredasse, ou como se suspeitasse poderem estar a ser escutados.

– Saiba a senhora marquesa que, caso Vossa Excelência não proceda segundo a vontade de El-Rei, a pena será aplicada na próxima alvorada, antes mesmo da execução do marquês vosso marido e de vossos dois filhos!

Sem fraquejar, Leonor de Távora concede-se uma pequena trégua no duelo em que se transfomara a conversa de ambos, e que a cada nova tentativa de entendimento logo entra num outro impasse, a soçobrar naquele diálogo de enganos. E só quando Eusébio Tavares de Carvalho faz correr com estrondo a tranca de ferro, lhe dá, com fimeza, a sua resposta:

– Pode o meretíssimo juiz comunicar da minha parte ao Rei de Portugal, que a marquesa de Távora não pede perdão por aquilo que não fez, nem roga por clemência porque se encontra inocente.

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