As Luzes de Leonor
Raízes
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Encaro a natureza que recusa o alvorecer do dia treze do mês de Janeiro de mil setecentos e cinquenta e nove enquanto sinal de luto, ou modo de Nossa Senhora mostrar a todos o seu desacordo diante dos actos discricionários e abomináveis que estão a abater-se sobre o meu marido e os meus filhos. Madrugada presa pelo temporal, entregando-se à noite de onde a lua se alheia, toldada pela franja espessa de negrume encharcado de chuva.
E até o Tejo parece revoltar-se à vista de tanta inocência calcada a seus pés de água: cadafalso mandado erguer perto da areia, no largo do Cais Grande, no lugar de Belém, em traves de madeira verde levantadas durante a borrasca, a escorrer sem se deter nas feridas ou fendas ou rugas dos madeiros mal curtidos. Zunindo a ventania por entre o granizo nas velas das faluas que passam e quase se viram, mal aguentando o insustentável peso das águas revoltas e das fortes rajadas.
Minha estrela da sorte a ser executada, a morte já a tomar-me aos poucos, ainda que a última chama pareça tentar brilhar, fingindo eu no mesmo passo não temer esta aparente indiferença ou ausência de Deus; hora daninha que a alvorada tece às ave-marias, na bainha do uivo da tempestade. Alinhavo de pranto e prata no quebranto dos olhos que até ao fim não quererei fechar em busca de mais luz, de maior conhecimento das asas que ouço voar-me em torno, recusando o equívoco. Frio da lâmina e travo de sal da água onde o oceano se confunde já com o Tejo e o fio das lágrimas recolhidas.
Querem negar-me o amor pátrio, a portugalidade, a compostura e o respeito que me são devidos, através do pregão oficial que até à morte me acompanhará com assinatura régia. A coisa alguma me poupando as suas gravosas mentiras que me apresentam como mulher «desnaturalizada e condenada, por se ter feito monstro da sociedade civil», abominável, molesta e sacrílega, quem sabe se até feiticeira e dama de pé-de-cabra. Sentimentos truncados na recusa da temperança que ao meu sexo se exige, desconhecendo o trato com a misericórdia e a compaixão pelo tanto que ouso.
Finitude.
Como não imaginar o momento em que vão degolar-me, sem nada deixar de mim? Pois não haverá nenhum lugar que reste como minha última morada senão as ondas, mas nelas não existe a laje lisa que me tape as cinzas afundadas, nem palavras escritas na lápide a marcarem o sítio dos meus restos mortais.
A nomearem-me.
Sabendo-me perdida, entrego-me à Mãe Santíssima e ao Senhor Crucificado, de ambos a esperar obter perdão pelos meus pecados, embora em mim permaneça maior o desejo de vingança. Lábios crestados do seu amargor, fel e fogo ardido; espécie de chaga a alastrar na trave do peito, envenenando-me os derradeiros pensamentos.
Praga sôfrega que deixo tombar sobre a cabeça dos meus inimigos vitoriosos, como última vontade revolvida, a puxar o cordão da desgraça:
fazendo cair sobre eles o gume da maldição.
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