As Luzes de Leonor
Angelus
†
Invadem-me penumbrosos momentos de silêncio.
Tento afastar-me teimando nos teus versos,
minha única de estrelas e poemas.
Conheço uma por uma as pedras que te são atiradas, os escolhos com que pretendem impedir-te os sonhos, as rimas, as ambições demedidas.
Tu
de ternura recolhida, a tentares ignorar as calúnias, mas insensata exigindo determinar o teu próprio futuro, dando a ver a medida extremada do teu excesso:
Proserpina, na cerração das trevas, onde o bago de uma romã é já a tentação do sol.
A enredares sentimentos e emoções num eriçado baraço de pressentimentos e presságios; rugosas claridades esvaindo-se diante do meu incongruente desejo de perder a condição alada para ir aninhar-me no regaço da vida, no lugar onde moras com equívocos vagares de malva-rosa.
Minha única de luzes ambarinas.
Claridades que ainda restam intactas, a mostrares com lucidez céptica até onde podem levar os descuidos e as cobardias de uma época sem brilho nem engenho, num reino que parece esquecido dos seus feitos passados que
Tu
estarias disposta a recuperar.
Minha única de rosa damascena.
†
Não pode perder mais tempo.
Tem de arquitectar um novo plano e fazer o que é urgente em relação a ela e a Portugal. Para isso, terá de cumprir o que há a cumprir, com determinação e pertinácia. Questionando-se, sem entender o que leva os outros a não verem o que está a acontecer na Europa.
Então todos os pretextos são bons para procurar convencer o Príncipe Regente do perigo que Napoleão Bonaparte representa para a Coroa portuguesa. Na teima ainda de encarar os ministros e fazer frente ao Intendente-Geral da Polícia, a ignorar as ameaças cada vez mais próximas.
A cavarem um vazio ainda maior à sua volta.
Só a Princesa Carlota Joaquina parece entender sem estranheza as suas pretensões políticas, embora tema por ela, ao vê-la agir destemida e sem sentido da realidade, fingindo ignorar estar a ser observada e como dela se fala pelas costas e se desconfia. Mas Leonor recusa-se a negar os seus sonhos, a desistir das suas convicções e dos seus ideais. E como não desperta compaixão nem simpatia ridicularizam-na, caluniam-na, inventam-lhe pensamentos, comportamentos ínvios, raciocínios delirantes.
Hostilizam-na.
Naqueles dias de deserto absoluto, até o amor parece querer ludibriá-la. Pois se há meses em que lhe chegam duas e três cartas de Henri Forestier, noutros só existe o silêncio, o vazio e a perda.
O abandono.
No entanto Leonor não se arrepende das suas escolhas.
†
Perplexa, a Princesa Carlota Joaquina tenta inutilmente chamar a sua primeira dama à razão, senso de que na altura esta parece estar totalmente desprovida, entregue à fantasia de que anda tomada, certa de acabar por convencer o Príncipe Regente e os ministros de um projecto desde o início considerado por eles como sendo fruto de desvario, delírio da sua imaginação prodigiosa.
O próprio duque de Lafões ousa aconselhá-la:
– A senhora Condessa tem o dom raro da escrita. Possui o maravilhoso encantamento dos poemas. O vosso universo é o das Luzes, o do conhecimento e não o da política. Descanse Vossa Excelência nos versos.
Leonor limita-se a fitá-lo com o seu olhar de sol. E o duque baixa a cabeça.
Mas a Princesa Real não desiste, empenhada em abrir-lhe os olhos no respeitante aos governantes que intrigam contra ela, tentando derrubá-la pelas costas, apoiados no consentimento de D. João. No entanto a condessa continua arguindo no sentido de uma possibilidade de mudança por parte de todos eles. Na crença de conseguir do Regente um renovado apoio explícito.
Dona Carlota Joaquina acaba comentando, sem encontrar mais argumentos:
– Que cegueira a vossa, D. Leonor!
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Há muitas noites em que não descansa, madrugadas de vigília durante as quais Henri lhe aparece com a sua perturbadora e arrebatada virilidade de jovem Aquiles tentando derrubar Tróia. Amante e amado que, durante as insónias, ela só deixa partir quando se encontra demasiado exausta para continuar em tamanha exaltação desatada da realidade.
No dia seguinte, porém, abandona sonhos e pesadelos no seu quarto e torna às salas de espera dos gabinetes dos ministros do Reino; ou levada pela mão da Princesa Carlota Joaquina, ganha acesso aos aposentos de D. João, caso ele se escuse a recebê-la denegando o seu pedido de audiência.
Apesar das constantes desconsiderações, Leonor teima em esperar pela ordem Real para que lhe seja entregue o passaporte oficial, juntamente com os documentos e as cartas que a acreditarão junto das cortes estrangeiras.
Certa ainda do apoio da Coroa.
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O ministro Rodrigo de Sousa Coutinho assina os últimos processos com a mão nervosa, tremendo um pouco quando a leva ao tinteiro de porcelana para molhar a pena na tinta negra. Sinete pessoal e lacre a fechar o ofício que o secretário atento lhe colocara à frente.
– A senhora condessa de Oeynhausen continua à espera? – pergunta, ríspido, enquanto escreve o seu nome.
E logo Henrique de Sousa lhe dá conta com pormenores da impassível e silenciosa permanência dela na antecâmara, livro entreaberto no colo, chapéu de laços pequenos tirado e colocado com jeito a seu lado no assento de palhinha do canapé de nogueira.
Prouvera a ambos que houvesse uma porta falsa dando acesso à rua, como aquela que no seu gabinete mandara abrir o Intendente-Geral da Polícia, escondendo-a sob uma falsa estante; e o ministro suspira mais uma vez, sentindo-se encurralado. Levado pela impaciência levanta-se, empurrando para trás a cadeira de braços e espaldar trabalhado a ferro quente, passos abafados pelo tapete persa, como se medisse de um lado ao outro a sala onde não sabe quanto tempo mais terá de continuar fechado.
A persistência insolente daquela fidalga irrita-o.
Cada vez está mais convicto da necessidade de se autorizar o que tanto Lannes como Pina Manique há muito pretendem por motivos diversos: afastá-la de Portugal.
Antes disso, porém, vai ter de obter o apoio dos outros ministros, a fim de convencerem o Regente a autorizar a sua expulsão. Pois o Príncipe, sempre indeciso diante de cada dilema, inseguro frente a cada decisão, tem desta vez acrescentados motivos pessoais para hesitar,
seguro de que o exílio de D. Leonor de Almeida irá desencadear a fúria da Princesa Carlota Joaquina.
†
Donaire de donzela, olhar de cinza ardente, lábios rosados recusando o carmim, tez muito pálida a desfalecer junto ao espesso ouro dos cabelos em cachos ondulados tocando os ombros descobertos, por onde o olhar desliza, descendo já pela fundura sigilosa do decote; cintura estreita disfarçada pelo vestido solto, e desse modo melhor a revelando no chamamento dos dedos que a fizessem rodar; chapeuzinho de palha marfinada enfeitado com pequeníssimas plumas ocre, spencer de veludo ou xaile de lã, conforme a tepidez ou a friagem do dia.
Mal chega, os lacaios e os secretários disfarçam a custo a atenção posta nela, inquieta, suportando no entanto a interminável demora, tardes inteiras aguardando nas salas de espera e nas antecâmaras dos gabinetes dos ministros.
A maior parte das vezes lê.
Livros encadernados que retira da bolsa de moiré com aplicação de missangas e lantejoulas pousada a seu lado no assento de palhinha do canapé, exemplares dos quais poderia decorar os versos, poemas inteiros caso quisesse, tantas são as longuíssimas horas que ali passa.
Por vezes o olhar torna-se-lhe vago, cabeça ligeiramente inclinada para trás, o pequeno volume de poesia aberto no regaço enrodilhado pelos dedos nervosos. Logo depois, porém, firma no tapete um dos pés a mostrar a meia de seda branca e o tornozelo estreito, como se tacteasse o passo antes de se levantar e, num andar impaciente, ir até à varanda larga de pedra lisa, balaustrada de mármore com um leve veio estriado que mal se distingue. Parapeito no qual fica apoiada espraiando a vista pelas ruas de Lisboa que levam ao Terreiro do Paço, e em seguida ao Tejo calmoso onde navegam faluas, gabarras e algumas fragatas com as suas flâmulas brilhando ao sol da tarde.
E quando os ministros, informados dos seus movimentos, começam a ganhar alento na esperança de que ela desista, regressa à sala numa lentidão estudada e torna a sentar-se, impassível.
Retomando a imobilidade e o silêncio.
Pressentindo o embaraço tecido em seu redor e entendendo, pelo declínio do sol no horizonte, que outra longa tarde inútil está prestes a chegar ao fim, Leonor alisa o cetim enrugado da saia do fato ocre, com esparsas abelhas bordadas a ponto deitado. Ajusta com disfarce as mangas debruadas a fio de pérolas negras, e ergue-se sem urgência, começando a vestir o spencer de cetim verde-menta, abotoando cheia de vagares os botões de passamanaria de tom idêntico.