As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 241 de 289

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As Luzes de Leonor

Angelus

À sua volta fica um rasto de perfume pérfido, odor de pântano estagnado e morto: morno e adocicado, com um veio de impureza que a faz estremecer e recuar encolhida nos lençóis de linho alvo. Um cheiro a bafio, aleivoso, tredo, a fluidos do corpo e a algas apodrecidas. Insidioso e persistente, de cousa corrompida cedendo.

Joana Isabel levanta-se a cambalear, estonteada no mais completo escuro, pois as lamparinas de azeite dantes sempre acesas diante das imagens das virgens e das santas mártires do oratório do quarto começaram a aparecer apagadas, como se as janelas se tivessem escancarado durante a noite e uma aragem oculta entrasse, furtiva, e circulasse solta a fazer mover ao de leve as cortinas diáfanas e os cortinados, brisa que ela sente na pele nua como se fosse um bafo: árido e vicioso, simultaneamente entorpecedor e conspurcado.

Vacilante, Joana Isabel acaba por sair do quarto como se conseguisse soltar-se a custo dos braços de alguém que ela desejasse muito. Pálida como uma defunta e o corpo gélido, embora coberto por suores incandescentes que a fazem sentir-se arder num fogo maligno e árduo. Sabendo que em seguida irá encontrar, inevitavelmente, a condessa de Soure, camisa de dormir a rojar no chão, parecendo deslizar descalça pelo corredor comprido, levando nos dedos anelados um castiçal de prata com uma vela marfinada meia consumida, pequena chama trémula que mal lhe ilumina a equívoca face lindíssima; e Joana Isabel lembra-se do que Leonor de Almeida lhe costuma contar sobre Teresa de Ávila e os seus êxtases…

Num pacto entre anjos e paixões em que nenhuma delas acredita.

 

†

ANGELUS

Sigo-a até ao Jardim Botânico da Ajuda, para onde ultimamente ela tem ido passear aos fins de tarde.

Primeiro desce as escadas de pedra áspera, e sem pressa dirige-se para os dois tanques logo adiante, onde nadam vagarosamente alguns peixes que ela observa como se os invejasse. A seguir, encontra a fonte das quarenta bicas, a partir da qual foram delineadas as áleas geométricas ladeadas pelas acácias-do-japão, as palmeiras anãs e os pitósporos-da-china.

Mas é junto aos arbustos aromáticos que Leonor mais se demora e inclina, em busca das camélias de turvidade e das rosas vermelho-sanguíneas, a tentarem amparar-se nas hastes dos lírios de uma brancura lânguida e dócil. Vejo-a tactear a tessitura do cálice de todas, a dar conta da especial maciez das pétalas sedosas das rosas damascenas, como se tentasse capturar-lhes a doçura matizada dos tons, a fundura dos caules que aflora com a ponta das unhas ovais, reparando no pólen que tomba dos estames entreabertos quando um ligeiríssimo toque mal as abala.

De longe olho-a, parada no cimo da escadaria em leque de pedra, parapeito estreito de onde nos podemos debruçar sobre a parte mais baixa do jardim, ao qual ela se dirige, descendo tão devagar que quase parece imóvel, expectante, sombrinha ainda fechada onde ligeiramente se apoia, a mão comprida e fina em torno do trabalhado marfim do cabo.

Deixo que o meu olhar a siga, lhe contorne a silhueta delgada, detendo-me na sua cintura quebradiça, a dar conta do modo sinuoso e leve como se move, vestido de linho-da-índia cor de ferrugem, sapatos de cetim bordado em linha de seda, salto alto, a pisar firme e desenvolta as lajes lisas, atrevendo-se já na terra batida, que o sol implacável seca, abrindo finas rachaduras por onde entram os insectos mínimos, a insinuarem-se no escuro.

Inquieta, ela olha em torno, a sombrinha de seda lilás agora aberta, a abrigá-la na sua sombra ambarina, adoçando-lhe o mel aceso dos cabelos ondeados, temperando-lhe o olhar de brasa incandescente.

Procura ou espera ela alguém? – temo – sentindo o coração desfalecer no peito, que aperto com o punho fechado. Mas ei-la que segue num passo agora impaciente até ao banco meio encoberto sob a folhagem de uma das magnólias junto à moita de lilases e dos canteiros estreitos onde foram semeados bolbos de narcisos. E eu entendo mais do que distingo como ela semicerra as pálpebras sedosas, e estremeço, tamanha é a paixão que este seu delicado sinal de desânimo ou de fadiga desperta em mim.

Ao longo do tanto tempo que a sigo, quantas vezes imaginei fazê-la minha?

Inventando-a somente ou avidamente possuindo-a.

E como cada vez mais me tem vindo a acontecer, tudo se confunde na minha cabeça entontecida: a realidade e o imaginário, a verdade e a mentira, numa espécie de jogo de espelhos onde se reflecte sempre a sua imagem, multiplicando-a obsessivamente tanto nos meus sonhos como nos meus dias. Não será por estar agora viúva que a sinto mais minha do que antes, fidelidade jurada diante do altar da capela onde a vi casar, invocando princípios de constância e entrega de si própria, que nem em pensamento cumprira.

Distrai-me a luz intensa que me magoa a vista e, por entre a ligeira poalha luminosa que a tarde levanta a partir dos lugares onde o calor mais se acoita, reparo num vulto escuro e alto que defronte dela se curva, boca aflorando-lhe o pulso alvo que a manga desabotoada no punho mostra da sua nudez esquiva.

Adivinho-a, arrepiando-me.

Intuo o interior dos seus lábios nacarados. Modo e gosto do perfume acidulado dos cravos cor-de-laranja a entrelaçar-se com a sua saliva, numa espécie de trança de aromas ardentes das flores solitárias e venenosas…

adonis vernalis, ésula, caládio.

Curvo-me um tudo-nada tomado pela vertigem.

Na figura alta e elegante julgo reconhecer o inglês William Beckford, que diante de Leonor torna a inclinar-se. Ou será o atropelo dos sentidos que me confunde, me alucina, me entontece? De imediato me impede de segui-los ao afastarem-se conversando, acabando por subirem os altos degraus que conduzem ao patamar superior do Jardim Botânico, onde se misturam as alfarrobeiras, as piteiras, as acácias-do-japão, por entre as quais os dois passeiam já com vagares de anseio, ilhargas dissimuladamente a tocarem-se, a roçarem-se, a fugirem na entrega. Mas é na alameda dos jacarandás que eles mais se demoram sob a minha vigilância, murmurando-lhe ele palavras ao ouvido, desviando-se ela, esquivando-se sorrateira, para de imediato lhe permitir que se reaproxime.

Rente às paredes envidraçadas das estufas chego-me perto. O suficiente para, sem divisar o seu rosto, ouvi-lo a sussurrar-lhe trémulo o nome breve, testemunho de uma intimidade que me confunde e perturba. E no instante em que desaparecem ambos na funda penumbra resinosa criada pelas folhas carnudas do dragoeiro, por entre a multiplicidade de ramos que pendem, se entrecruzam e se enredam entre si, senti mais do que pensei:

– Perdi-a!

Como se alguma vez a tivesse tido.

†

Pedro de Alorna volta a Lisboa para falar com Luís Pinto de Sousa Coutinho, secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra. Antes, porém, encontra-se com o pai, que como sempre o vê por demais arrebatado, indo à frente do próprio passo, a querer saber e cuidar daquilo que de modo algum lhe diz directamente respeito.

– Vejo que continuas imprudente! Não sendo ministro nem político, o que tens a ver com o facto de a França querer impor-nos a quebra da nossa aliança com a Inglaterra?

– O meu Pai pode até ter razão, mas pertencendo eu ao exército português já me diz respeito o facto de os ingleses terem começado a enviar militares para o comando das nossas fortalezas!

O marquês de Alorna abana a cabeça preocupado, e com a mão ainda forte segura o ombro do filho como se o quisesse deter, já que não consegue temperar com a razão o seu carácter arrebatado. Mas Leonor, que os escutara em silêncio, mete-se de permeio no debate, tomando o partido do irmão:

– Vossa Excelência vai desculpar-me, mas eu penso que o mano está certo no seu raciocínio. Além do mais, deve ser ele a decidir pela própria cabeça o partido a tomar.

D. João, que tinha esquecido a presença da filha, impacienta-se com a sua intromissão no sentido de fortalecer o feitio alterado e apaixonado de Pedro, e antes que este tome alento com as palavras da irmã, tenta calá-la com aspereza:

– Não me parece que te devas imiscuir em matéria para ti tão alheia, pois não estamos a discutir nem poesia nem arte, e sim assuntos de política dos quais deves ficar arredada. Não estamos no terreno da utopia, onde a tua muita imaginação te leva sempre a inventar um não-sei-quê mais de quimeras!

A expressão de Leonor transfigura-se, numa mistura de exaspero e raiva, de quem se sente excluída e humilhada. Mas antes que ela responda, Pedro agarra-lhe o braço, dizendo:

– Tens razão, mana! Eu sou capaz de resolver os meus dilemas e falar pela minha própria cabeça.

†

Vai passar algumas semanas de Maio com a cunhada na quinta do Vale dos Nabais. Leva com ela os filhos, mesmo as raparigas mais velhas, resmungando por se verem obrigadas a deixar Lisboa, largando para trás os noivos exasperados com a súbita partida. Só João Ulrico e Luiza vão excitados com a perspectiva de seguirem de barco pelas águas do Tejo até Almeirim, onde passarão uns inesperados dias de férias, sem se verem obrigados a regras e a deveres escolares, seguindo gostos e apetências: Luiza a perder-se na mata zebrada por pequenas luminosidades fulvas, ou a passear pelo interior sombrio do arvoredo dos bosques, na escuta dos pássaros e dos rumores surdos dos insectos ou em busca das bagas, frutos e poças de água onde se esbatem as cores reflectidas do final das tardes; João Ulrico limita-se a ficar pelas redondezas da casa, vigiado com desvelo por Thérèse.

A cunhada segue noutro barco com os filhos que nunca larga. Meninos comedidos, delicados, olhos azuis e cabelos de trigo, a causarem o assombro das gentes da região com os seus fatinhos de montar, a cavalgarem póneis brancos com crinas e focinhos rosados, que aceitam mansos os arreios dourados, os xairéis bordados a matiz e as selas delicadas de pele macia, tendo gravado o brasão da família.

– Será bom que a senhora D. Henriqueta guarde cuidado, pois pode haver alguém que queira deitar mau-olhado aos marquesinhos… – previne-a Josefa, que serve desde rapariga na Quinta dos Nabais e tem amor à família Alorna. Ninguém melhor do que ela sabe dos poços, das quedas de água, das nascentes, das grutas e das cisternas, mas também das clareiras, dos matagais e das brenhas, sabedora de todos os segredos da flora cruel dos pântanos, dos cogumelos nascidos nos interstícios das fundações centenárias das árvores, na profundeza húmida das florestas enredadas de espinhos e silvas. Conhecedora das rosas silvestres de picos aguçados, de farpas e de folhas com serrilha, vegetação sorrateira que segundo ela pode ter serventia de cura, tal como há venenos ocultos nas corolas de flores agrestes e nas bagas mais belas, brilhantes e traiçoeiras. Ervas daninhas, malignas, que tiram a respiração e adensam os sangues, tornam a pele e a garganta secas, assombram o olhar, tornam ácido o cuspo e aceleram o pulso.

Existem ainda as mandrágoras, raízes angélicas que, persignando-se e rezando, Josefa desenterra cobertas de orvalho em noites de lua cheia, por entre as pedras das ruínas onde também nascem curtos arbustos com delicados botões rosados da atropa beladona, que dilatam as pupilas dos olhos das mulheres, fazendo-as olhar para além do ver e da cisma; planta infectada pelo poder de uma das três Parcas que nos controlam o destino.

De súbito muito pálida, Henriqueta estremece, a lembrar-se do que acabara por lhe dizer Lilias Fraser no dia de nascimento de Miguel. Benze-se então aflita e, invocando o Santíssimo, beija os escapulários e os bentinhos, aperta entre os dedos as medalhas que traz ao pescoço por baixo dos vestidos.