As Luzes de Leonor
Diário
Apesar da acintosa perseguição de Pina Manique, nem sequer me imagino a desistir de levar até ao fim o projecto a que me proponho, no que diz respeito ao destino de Portugal.
Usando da maior astúcia.
Assim, em vez de me limitar a servir a Princesa Carlota Joaquina enquanto sua dama de honor, utilizo a minha presença na Corte, privilégio do cargo que desempenho, para me aproximar do Príncipe Regente, a expor-lhe as ideias que tenho em relação a França e a Napoleão Bonaparte. Alertando-o para o perigo que este representa para a Europa, especialmente no que se refere à nossa Pátria.
Lisboa, 1 de Março de 1802
†
O Príncipe Regente amarfanha a carta acabada de ler, assinada pela condessa de Oeynhausen. E num gesto impaciente da mão pesada, deixa-a cair: uma bola de papel, onde os ideais, as ousadias e os sonhos dela são lançados fora, enrodilhados.
Depois de olhar em torno, desconfiando, não vá haver algum dos espiões de Pina Manique à espreita pelas frinchas das portas, o Cardeal Patriarca apanha furtivamente o papel amarrotado do tapete de Arraiolos onde tombara, quase no centro de um grande losango desenhado pela lã. Enrola-se-lhe o hábito em redor dos joelhos e, quando volta a endireitar-se, ergue o rosto de uma palidez doentia, olhar entornado a esgueirar-se até D. João, que percorre exaltado a Sala dos Embaixadores do Palácio de Queluz onde se encontram.
– Estou rodeado de loucos! – ouve-o exclamar acirrado, para logo tentar controlar-se. Pois como muitas vezes lhe acontece, o Príncipe julga aperceber na própria voz o tom descontrolado de sua mãe a Rainha durante as piores crises, cada vez mais consciente das melancolias e tristezas, dos ensimesmamentos insondáveis, a sugerirem-lhe a hereditariedade, a contaminação dos sangues, que ele teme em segredo.
– A condessa de Oeynhausen é uma mulher perigosa! – desabafa, já mais calmo, apoiado à escrivaninha de charão com embutidos, de onde pega outra carta dela recebida nessa mesma tarde. E voltando-se para D. José Francisco Mendonça, como que pergunta:
– O que vou eu fazer com tamanho…
D. João hesita, vindo-lhe apenas ao pensamento a palavra fulgor que, por lhe parecer inusitada, se recusa a pronunciar, acabando por substituí-la por outra mais apropriada: despropósito.
Na verdade, a inteligência de Leonor de Almeida assusta-o; ela confunde-o e atemoriza-o com a sua determinação e ambição política.
– A mulher deve ser naturalmente tímida! – lamenta-se com desânimo, a lembrar-se de Carlota Joaquina, sem saber se receia mais os seus destemperos e crises de ira se os seus silêncios repletos de ameaças.
Resignado, torna a examinar as cartas enviadas pela condessa, intrigando contra França, pretendendo que Portugal se lhe oponha com firmeza, oferecendo-se para ir pelas Cortes da Europa com vista a promover uma união capaz de derrubar Napoleão Bonaparte. E o Príncipe Real estremece ao lembrar-se de Lannes, o arrogante embaixador francês acabado de chegar a Portugal. O seu olhar gelado e arguto, modos desabridos e insolentes, palavra acre e ríspida horrorizam-no.
E o Príncipe D. João, exaurido, acaba por se sentar num dos cadeirões dourados que encimam o salão, fecha os olhos que lhe ardem, desejando poder esquecer os problemas que teimam em cair-lhe nos braços.
Perto dele mantém-se a presença hirta e silenciosa de D. José Francisco Mendonça: de pé, costas voltadas para uma das janelas que dão para o terraço, por onde passa a fria e áspera aragem do final da tarde.
A olhar, estupefacto, o Príncipe Regente adormecido.
†
«Senhor:
A bondade e o honroso acolhimento com que Vossa Alteza Real tem recebido as minhas cartas e as representações que me inspirou o vivo zelo do seu serviço e da sua glória, imprimem no meu ânimo uma gratidão eterna e uma paixão sublime pela sua paz e felicidade. Possuída toda destes sentimentos, julgue Vossa Alteza Real mesmo com que alegria não participarei destes momentos de paz, e não desejarei, prostrada aos pés de Vossa Alteza Real, dar-lhe parabéns! Receba-os, pois, Senhor, extraídos da minha alma e cheios da mais viva ânsia de que o motivo tenha a consistência com que o Céu pode premiar as virtudes de Vossa Alteza Real e o seu desejo de tranquilidade pública.
Neste momento, Senhor, tomara poder desviar toda a ideia das complicações políticas e não ver senão o que deve ser e que desejo, mas a condição das cousas humanas faz que quem pensa e quem calcula, ainda ache com que magoar a imaginação e prevenir o futuro. Tenho conferido largamente com meu irmão, e um e outro não temos nunca diante dos olhos senão Vossa Alteza Real e a sua segurança; tenho lido com atenção as notícias públicas e particulares; tenho meditado profundamente sobre o carácter dos gabinetes contratantes; tenho voltado os olhos para as negociações passadas, para as circunstâncias actuais, e de toda esta massa de ideias resultantes, colho uma lição que me levanta alguma cousa o véu que me encobre o futuro e concluo com soçobro as minhas meditações. Meu irmão, que me comunica os seus pensamentos, ainda me deixa menos lugar ao sossego, que em vão procuro; as suas ideias honradas e vastas, o seu ânimo sempre preso ao bem e vantagem do seu Príncipe, que ama ternamente, move o seu engenho rápido e lhe faz alcançar verdades, que ainda não avistam aqueles a quem não é concedida uma igual extensão de Luzes e tão constante ardor, como aquele que o anima pelo bem e serviço do Trono.
Por aqui verá Vossa Alteza Real que não me é dado vacilar nas ideias que adoptei sobre os únicos e verdadeiros meios de defesa. E, assim como a paz nos deixa lugar a disciplinar o nosso exército, a reabilitar a nossa marinha, a acumular os nossos fundos, ela nos ensina também a dirigir mais habilmente ainda as negociações, os meios tácticos de defesa que tínhamos adoptado. É pois na paz que mais seguramente e com mais vagar se podem cativar os ânimos, que tanto nos importa ganhar; e quando chegar o instante da nova ruptura, já deve estar formada a coalizão do Ocidente, para frustrar o invariável projecto da destruição dos Tronos.
Por aqui vê Vossa Alteza Real que mais que nunca seria a propósito a medida que lhe pareceu conveniente, na última vez que tive a honra de falar-lhe: conviria que estivesse em Madrid, na altura do Congresso de Amiens, quem observasse todos os efeitos graduais que forem produzindo as negociações sobre os ânimos das pessoas que regem os negócios. Precisam-se dias para pura observação, para merecer confiança, para encobrir projectos e desorientar os observadores malévolos de que estão rodeados nesta época todos os gabinetes e negociadores – e para tudo isto importa não desperdiçar momentos.
Tudo isto pesará Vossa Alteza Real na sua alta meditação; eu cumpro em dizer-lho e em estar pronta à mais sagrada das minhas obrigações; e desejando muito que Vossa Alteza Real leia no meu coração os princípios que me dirigem, com o mais profundo respeito.
Beijo a mão de Vossa Alteza Real,
a condessa de Oeynhausen»
Lisboa, Março de 1802
†
Cruzam-se pela primeira vez em Queluz, num serenim do Paço. Lannes, recém-chegado a Portugal para onde Bonaparte o enviara como embaixador extraordinário; Leonor, no seu lugar de destaque por ser a primeira dama de honor da Princesa Regente.
Quando os seus olhares se encontram, ele vacila julgando por segundos sentir o coração parar, tomado de surpresa. E quando lhe confirmam o seu nome, tenta em vão lembrar-se e levar em conta o que a propósito dela lhe contara Fouché, dando-lhe a ver uma cópia do seu retrato pintado em Viena, enquanto o alertava contra aquela que garantia ser uma mulher perigosa, com uma desmesurada ambição política.
Surpreendido pelo seu porte altivo e simultaneamente suave, agrada-lhe o tom de mel dos seus cabelos ondulados e soltos tombando nos ombros nacarados. Os olhos claros, que ela tem rasgados e de uma estranha cor indecisa, parecem-lhe alagados de água, e os lábios de uma sensualidade delicada entreabrem-se num ligeiríssimo sorriso apenas domado pela perplexidade.
Os dedos longos e magros, a segurarem a folha que lê, não tremem uma única vez, e mesmo mal percebendo o que ela diz, pela toada musical que empresta às palavras, entende estar a declamar poesia, numa voz tranquila e suave, tendo no entanto um veio interior de aspereza crispada que o enche de curiosidade, atento ao seu talhe fino, às suas pernas altas.
Por precaução Lannes resguarda-se da luz das muitas velas dos lustres de cristal de Veneza da Sala da Música do Palácio de Queluz. E meio dissimulado pelos cortinados lavrados de seda da Índia, o embaixador francês espreita-lhe o donaire, a expressão intensa e inteligente, mas igualmente a cintura estreita a contrariar o amadurecimento do rosto longo e macio. Atento ao ligeiro encrespar dos seus ombros que o decote do vestido de veludo rosa-forte descobre.
Há nela uma exaltação contida que o excita, e um sobressalto mal domado, denunciado apenas pelo súbito arrepio que de súbito lhe faz estremecer o corpo como se adivinhasse a sua acesa e encoberta curiosidade. E quando o duque de Lafões se aproxima no seu leve passo de dança, rosto empoado, casaca de seda verde, sapatos com fivelas de diamantes reluzindo,
pede-lhe que o leve até ela e lha apresente.