As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 266 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

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Muito belo o embaixador Jean Lannes.

Mas com aquela arrogância e altivez de quem se supõe dono do mundo; especialmente amo das mulheres.

Tem um olhar de gelo azul.

Boca de dureza e sensualidade. E um sorriso irónico, que lhe desfeia o rosto de arcanjo cruel e nocturno.

Sem nenhuma piedade.

Lisboa, 2 de Abril de 1802

 

†

ANGELUS

 

Pareces-me mais nervosa e ardente a cada dia que passa.

Mais chama.

Aproximando-te do fundo da cratera.

Mais lava.

E mal finges atardares-te numa certa acalmia de imediato recusada, logo te desacertas na ousadia do passo.

Mudada em teimosia.

A olvidares o teu imaginário.

Ao negar-me a sair da tua sombra recolhida, estou a recusar o avesso da luz – das Luzes, demorando-me por gosto no duplo papel de teu perseguidor e prisioneiro. Deixando-me inundar por ti, à beira escorregadia do teu rutilante abismo.

Mulher que não se limita a desdobrar, a desbravar e trabalhar as palavras, na múltipla iluminação da poesia. Mas também política, prevendo para Portugal tempestades, cataclismos, em que ninguém acredita. E tal como Cassandra, tens o futuro armadilhado.

Apesar de tudo continuas intacta, pois mesmo sendo de cristal e vidro, nunca te estilhaças.

Quem sabe…

De bom grado me entregaria ao teu perigo, a permitir-te enredamentos e filtros imaginários. Aceitando ir por terrenos de espinhos e cardos e farpas; pântanos ou escarpas de mim desconhecidos, devido à minha condição de voo.

Mediador como os poetas, teço a teia entre ti e a lua.

Eu sou aquele que anuncia.

Ecce Ancilla Domini!

Tal como Gabriel, entregando-te um lírio que nos cinde e afasta. Da natureza da espada deitada entre Isolda e Tristão, enregelando-os com o seu fio de prata.

Toco ao de leve a cor da tua aura.

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Luís Pinto de Sousa Coutinho culpa-a secretamente

de exercer má influência junto de sua mulher, ao alimentar em Catarina os sonhos literários, ao mesmo tempo semeando nela os desmandos da insubordinação.

Aliás, quem não acusa Leonor de Almeida seja do que for?

A única excepção no Paço são as princesas, que a mantêm resguardada na Corte, tanto quanto ela permite, defendendo-a Carlota Joaquina do iminente perigo que reconhece ameaçá-la:

– A senhora Condessa anda bem necessitada do meu apoio! – ouve-a dizer Luís Pinto nos jardins do palácio da Bemposta, do outro lado da sebe alta que o encobre à escuta da sigilosa conversa das duas, durante a qual a Princesa Regente tenta em vão fazê-la recuar e desistir dos seus propósitos, alertando-a em relação aos perigos que à sua volta se adensam. Mas aos seus conselhos a condessa responde firme, numa voz sem alarde:

– Vossa Alteza vai-me desculpar, mas eu considero que vale a pena correr riscos por causas justas. Sobretudo se for para salvar a nossa Pátria.

Tendo escutado o suficiente e temendo ver-se descoberto, o visconde de Balsemão desliza sem ruído pelo interior da sombra onde se abriga, a caminho do Paço.

†

Chegara tarde ao baile no Palácio de Queluz, atrasado pelos informadores que o demoraram na Intendência a dar-lhe conta dos passos do embaixador francês Lannes. Agora é Pina Manique quem o segue com olhar de lince, observando de longe como a sua rudeza habitual parece extinguir-se junto da condessa de Oeynhausen.

Cercando-a com a sua atenção.

O Intendente, que nesse dia ostenta no peito a Cruz de Cristo, considera por bem prevenir o Príncipe Regente, indo descobri-lo refugiado na Sala de Caça. Sentado a uma mesa, segura com inesperada delicadeza um frágil cálice de cristal da Boémia toldado pelo tom sanguíneo do vinho do Porto, que bebe devagar enquanto assiste enfastiado às momices desastradas e grosseiras das anãs da Corte.

– Vossa Alteza vai perdoar-me o incómodo, mas aquilo a que acabo de assistir faz-me crer na urgência de vos manter informado…

Ao dizer isto, o Intendente espera ter conseguido despertar suficientemente a curiosidade de D. João para que este o mande sentar à sua beira, o que acaba por acontecer a contragosto do Príncipe, relutante. E alisando o trajo negro sobre os joelhos, vai explicando com voz de mistério:

– Pela primeira vez que eu visse, Lannes tirou a sua inseparável farda para envergar as belas vestes de embaixador. Com o fito, desconfio, de agradar a uma perigosa fidalga defensora das ideias jacobinas. Por demais conhecida pelos seus desmandos e versos, dama de honor da Princesa D. Carlota Joaquina. Vossa Alteza Real poderá observar com os próprios olhos como o lobo simula mal ter-se transformado em cordeiro.