As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 122 de 289

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As Luzes de Leonor

Capítulo 1782

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Manda fazer um vestido de seda, com folhos e flores bordadas a matiz e lâminas de prata, no disfarce da nova gravidez; a cauda breve entretecida com estreitas rendas mandadas vir de Bruxelas. No entanto, Leonor não sabe se terá condições para sair nessa noite, apesar da sua imensa vontade de assistir à estreia de Ifigénia em Táurida, a nova ópera de Gluck.

O dia, agreste e sombrio com a sua farpa de gelo, impede-a de se concentrar no livro de Erasmo folheado ao acaso. Aninhada junto das chamas da lareira, torna a debruçar-se no volume aberto sobre os joelhos, tentando fixar nele a atenção relutante. Mas, ao escutar a carruagem que pára diante da casa e logo depois a voz do marido, levanta-se, atravessa rápida o estreito corredor e, numa pressa nervosa, desce o primeiro lance de escadas, dedos crispados no corrimão de madeira polida, a tempo de ver Carlos Augusto que, sem dar por ela parada no patamar, entra na biblioteca.

Os últimos degraus são galgados já a correr, para se esgueirar na penumbra da Sala dos Livros, iluminada pela fraca luz da tarde enevoada e pelo rubor dos ramos de cerejeira ardendo na lareira de mármore, a perfumar a casa. Ao deparar com Carlos Augusto junto da janela, meio encoberto pelos cortinados de brocado, a ler com atenção furtiva um carta de papel marfinado, só por milagre não derruba a mesa frágil que está no seu caminho, sendo a raiva incontrolável que a faz avançar, ainda evitando o ruído dos passos, a querer apanhá-lo de surpresa.

Mais tarde nem a si mesma saberá explicar o gesto hábil e determinado da sua mão, que num repente avança, flecha rápida a arrebatar-lhe dos dedos as folhas às quais tanta atenção ele dedica.

Como suspeitara, a carta tem a assinatura de Luiza Todi.

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D. Maria tenta a todo o custo não ouvir as intrigas.

Educada para obedecer, para acatar as ordens dadas pelos seus Soberanos Pais, sob a alçada de Sebastião José, e não para ser Rainha de Portugal, move-se com dificuldade pelos meandros dos jogos políticos construídos à base de falsidades e de hábeis mentiras.

Ao ponto de a Rainha se sentir ela própria perseguida por alguns dos fidalgos e ministros de sua confiança, que todavia parecem empenhados em fazê-la refém de si própria. Melhor dizendo, que a cercam pressionando-a, impelindo-a na maior parte das vezes no sentido contrário à sua consciência e a tudo aquilo com que sonhara um dia e agora pretende para o Reino.

Com persistência ambiciosa, eles não desistem, porém, de a demover ou de a influenciar com as suas argúcias, com os seus ardis, com a sua verborreia vazia. Como se a indecisão arredia, que ela não disfarça, a tornasse ao mesmo tempo acessível mas também imune aos argumentos utilizados. E isso exaspera-os.

Por vezes a Soberana sucumbe, insegura, sentindo-se prisioneira na teia que tecem em torno da sua vida e do seu trono. Foge de responder às ansiosas cartas com poemas que finalmente Leonor de Almeida lhe envia da Áustria, a tentar, enquanto sua protegida, esgrimir com a costumada inteligência em favor do marido. Pedindo protecção no sentido de desembaraçar o fio da meada que está a ser enredado na Corte de Portugal contra ele por Aires de Sousa e Melo, o marquês de Angeja e o visconde de Vila Nova de Cerveira.

O vento cortante de Fevereiro desliza veloz pelas alamedas dos jardins do Palácio de Queluz, a misturar em remoinho a gravilha, a terra, as sementes, os pequenos gravetos e as poucas folhas que apodrecem debaixo das árvores despidas. Encolhida na sua manta de marta branca, D. Maria escuta o seu restolhar áspero a embater de encontro aos vidros das janelas do quarto, tentando recompor-se da noite mal dormida, invadida por tormentos e pesadelos que ultimamente a castigam.