As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 207 de 289

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As Luzes de Leonor

Memória

†

 

«Prefiro manter-me discreta;

tão secreta quanto me seja possível, ou esquiva, furtiva como os pequenos diamantes rosados nas minhas orelhas, que o ouro dos cabelos ondeando ora descobre ora tapa, no seu estremecimento oscilante junto à pele onde o estio se entorpece, arraçado pelo perfume de nardo que espalho nos lóbulos das orelhas, na obscuridade da nuca e na estreiteza dos pulsos.»

Com este texto inacabado termina o primeiro dos diários do tempo da minha viuvez, nos quais tentei reflectir sobre as emoções ambíguas, assustadoras, que escapando ao meu controle se revolviam e me turvavam, multiplicando em mim dúvidas e questionamentos.

Movida pela razão, fazia por esquecer os sentimentos.

Lembro-me ainda de quando tudo começara a ser difícil, até ficar inultrapassável: o pensamento a espessar-se enredando-me o raciocínio, como se eu me embrenhasse numa mata de escuridade ou na teia de uma aranha ávida a envolver-me com a sua saliva.

Indecisa e expectante,

posta entre a infelicidade e a expectativa, indagava-me sem saber como conviver com a liberdade de que finalmente dispunha, com as emoções ou com os desertos da alma que, por serem tão inesperados, súbitos e subidos ao coração, me deixavam indecisa.

Mas será que eu podia ou quereria julgar-me diante da verdade, a fazer reflectir na sua lâmina a imagem difusa da minha imposta fragilidade pelo facto de ter nascido mulher?

Avaliei então as emoções, pesei os prós e os contras do que me dizia respeito; e estando mais habituada a ocultar-me do que a entender-me, quedei-me perplexa. E parecendo-me o mundo demasiado implacável para as poucas forças que sabia possuir na altura, dei a mim mesma um prazo de repouso, um espaço de afastamento, onde pudesse encontrar o distanciamento necessário, antes de continuar a viver: a pesar as diferenças, a avaliar as dúvidas, a entender os indícios, a detectar o ferrete, a discernir as causas das feridas e a marca das cicatrizes.

A perceber a dissonância do meu desassossego.

Ao refugiar-me em Almeirim, na Quinta do Vale dos Nabais, imaginara pôr-me a salvo, acreditara ter largado para trás as intrigas, as maquinações, os alçapões que na Corte se multiplicavam, se abriam debaixo dos meus passos. Não podia, no entanto, estar mais enganada, pois ao isolar-me abri brechas inesperadas nas minhas defesas, dando a ver as minhas maiores fraquezas, tornando-me, afinal, mais vulnerável.

Supunha então ter chegado a um estado de grande maturidade e conhecimento da vida, e só agora, tantos anos depois, me apercebo de quanto era abismal a minha imaturidade: vacilando diante das tormentas, titubeando frente aos reveses, tremendo perante as dúvidas constantes.

No inverno de mil setecentos e noventa e três, quando aprendia a viver por mim mesma, imaginava-me livre. A querer esquecer cada recordação nociva que, enfastiada, rasgava e deitava fora como se fossem cartas de um amante tornado inoportuno.

A verdadeira memória carrego-a eu agora,

e não quando estava em Almeirim, depois da morte de Carlos Augusto. Então, embora ainda o não soubesse, empenhava-me em ganhar forças a fim de voltar a sair de Portugal, à redescoberta do mundo e do meu destino. Mergulhada em pleno equívoco,

crente de que o futuro me pertencia.

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