As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 287 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

Várias vezes Henri Forestier corre o risco de se ver descoberto e apanhado pelos espiões de Bonaparte, que desde Lisboa vêm teimosamente em seu encalço, conseguindo ele esgueirar-se sempre no último segundo. Mas ao ver-se cercado pelos esbirros de Fouché, teme ser preso, e sem esperar por Charles Céris que, contrariado, continua a atrasar o passo,

disfarça-se sob outra identidade, e vê-se obrigado a esconder-se sem saber por quanto tempo. Serão semanas que lhe parecem uma eternidade. E não estando seguro de que Leonor continue em Madrid, vive dias de pesadelo e noites mal dormidas.

Julgando tê-la perdido para sempre.

 

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DIÁRIO

 

Continuando a ser invisível para os funcionários da embaixada de Portugal em Madrid, acabei por entrar em contacto com o embaixador de Inglaterra, um homem cortês e interessado em escutar o muito que tinha para lhe dizer. Ouviu em silêncio os meus relatos, seguiu com atenção os meus planos, tal como a minha análise acerca do que está a acontecer na Europa, particularmente em França.

E tendo referido a certa altura os meios precários com que eu e João Ulrico sobrevivemos, apresentou-me ao banqueiro Diego Carrera, que me surprendeu pela correcção e delicadeza do seu trato, desacostumada que ando de civilidade. Vi-o afligir-se com o meu estado, acabando por prometer socorrer-me.

Madrid, 16 de Maio de 1803

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Tinham-se conhecido quando anos atrás Leonor passara em Madrid a caminho de Portugal, vinda de França. Maria Agustina de Carvajal, duquesa de Granada, que nunca se esquecera da sua cintilação nem dos seus versos, quando sabe do seu exílio em Madrid, manda perguntar na Embaixada Portuguesa o endereço dela e, levada pela grata recordação da conivência gerada entre ambas, procura-a.

Leonor recebe-a com vergonha nas modestas instalações onde está acomodada, mas a duquesa espanhola, embora impressionada com o lugar onde descobrira a amiga, agarra-lhe nas mãos enquanto conversam, como se tentassem recuperar o tempo perdido durante os anos em que não se viram.

Leonor, com um vestido de seda verde-esmeralda, está linda, e Maria Agustina, encantada de novo com a sua beleza e o seu espírito, apercebendo-se de como se encontra isolada, convida-a para o seu salão. Agradada, Leonor acede, e na noite seguinte acaba por chamar sobre si a atenção de todos.

Com a sua cultura e inteligência.

Pela sagacidade e entusiasmo com que fala de política.

Mal ela chegara, a duquesa de Granada apresenta-a a Louis Justin Marie, marquês de Talaru, com quem Leonor se encontrará nas próximas semanas, no começo de uma amizade leal que a irá socorrer no futuro em situações-limite pelas quais passará naqueles conturbados tempos em Espanha. E quando Louis Justin Marie lhe propõe mudar-se com o filho para uma das suas casas vagas no centro de Madrid,

Leonor aceita sem hesitar.

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Para ela é tempo de ressurgir da sombra como flor-de-lis,

num roseiral de sol.

Sua natureza de luz: raiz, rizoma e laço ou liame de atadura ao passado, em nós entrelaçados como atilhos de sangues e identidade, caule subterrâneo das plantas vivazes.

Longa mão a estender-se até à sua anca, rosto em contraluz sempre indefinível, pois no indecifrável Leonor nunca encontra a própria medida, nem nenhum traço que lhe faça o retrato. Nem lábios possíveis que lhe desenhem a boca, nem palavras indefiníveis capazes de repetirem os seus versos.

Mas o que é a poesia senão asa? Senão ir até à impossibilidade de si mesma?

Porque não existe medida para o resplendor e para o êxtase.

Coração escarlate no desconcerto do peito.

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O embaixador português teme-a.

Receia-lhe a ousadia, a inteligência, o destempero.

O esplendor.

Preferia-a longe da turbulência de Madrid, afastada dos centros do poder e da política, instalada numa medíocre hospedaria onde ninguém a visitava. Esquiva-se a abrir-lhe as portas da Corte espanhola, recusa-se a escutar-lhe as reclamações.

Desesperada, Leonor acaba por voltar a escrever ao Príncipe Regente. Espera que a madrugada desça com o seu calamento, para começar a carta que tem vindo a adiar dia após dia:

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«Senhor

Salvar Vossa Alteza Real dos riscos e dos desastres de que o via ameaçado, cumprir à risca as ordens que me deu e nunca revogou, dar conta da minha conduta ao mundo, que mil calúnias poderão ter iludido, eram os negócios mais importantes que puderam decidir a minha viagem, pretextada como Vossa Alteza Real sabe e consentiu que fosse. Se a confusão dos últimos tempos lhe fizeram perder de vista quanto me ordenou, nada mo poderia fazer esquecer a mim, vendo crescer os perigos da minha Pátria e de Vossa Alteza Real.»

Pára por instantes de escrever, distraída pela brisa quente da sua primeira primavera em Madrid: mistura de perfumes e noite que, vinda do jardim da praça em frente, chega até si pela janela deixada entreaberta. Mas logo continua num esforço de vontade:

«Tudo consegui, mas cousa alguma se fará se Vossa Alteza Real, por uma carta sua, me não recomenda a Suas Majestades Católicas de um modo tal, que eu não tenha obstáculo para tratar, em nome de Vossa Alteza Real, tudo quanto lhe é preciso e pode desejar. Inglaterra sustenta a Vossa Alteza Real como necessita. Espanha concorda no plano que Vossa Alteza Real aprovou e quis que eu viesse tratar em outro tempo. Para prova desta verdade, vai este expresso que eu não teria meios de mandar-lhe, se me não apoiasse uma autoridade muito superior.»

Sorri para si mesma a imaginar a reacção do Príncipe Regente a estas suas linhas assertivas, a colocá-lo diante de uma situação que ele talvez preferisse esquecer. Ainda assim, continua no mesmo tom directo, embora respeitoso:

«Se Vossa Alteza Real ainda está pelo mesmo que me disse, se as infames calúnias não têm surpreendido a sua religião e senso, eu sou a mesma a quem Vossa Alteza Real agradeceu tantas vezes o zelo com que lhe persuadi verdades que seguram o seu trono e a sua glória. O sinal que lhe prometi e que há-de provar quanto digo, e a firmeza das alianças que necessita para livrar-se do jugo que o oprime, irá logo que Vossa Alteza Real me escrever e me recomendar a esta Corte. Mas se não quer ser servido, nesse caso fique certo que prefiro finalmente o descanso, o silêncio e o esquecimento da suma indiferença com que têm sido pagos os meus esforços.»

A dor de cabeça que a rondara todo o dia irrompe de súbito, fazendo vacilar a sua mão. Mas continua a escrever o que deve ser escrito, a dizer o que pretende dizer, sem subterfúgios:

«Amo os meus Príncipes, a minha Pátria, a minha família, a minha Nação. Fiz por eles quanto pude e quanto soube. Vossa Alteza Real mesma achará que tenho razão para calar-me, descansar e abandonar uma empresa que só serve para atrair-me dissabores. Queira Vossa Alteza Real dignar-se reflectir que esta é a última tentativa que faço a favor da sua causa, reflectir que falo assim porque venci tudo, e decidir se quer perder-se ou aproveitar-se dos meios que eu lhe ofereço.»

E num último esforço e emoção contida, Leonor termina o que tem para declarar ao Regente, a quem escreve com o intuito de o pressionar uma derradeira vez, prometendo-lhe o que ela não sabe poder dar-lhe como sendo certo:

«Digne-se Vossa Alteza Real dar-me as suas ordens, porque sem elas nada se há-de fazer. Não precisa Vossa Alteza Real fazer nenhum esforço a meu respeito, nem de dinheiro nem de palavras. Uma ou duas cartas de recomendação para El-Rei e para a Rainha, assim como para o Príncipe da Paz, são suficientes para tudo concluir. Inglaterra se obriga a defender todas as suas Colónias e a socorrê-lo com o excedente das forças e dinheiro que é preciso para a sua própria defesa. Espanha entrará com uma perfeita liga para a defesa recíproca da Península, garantindo os Estados de Vossa Alteza Real, concordando Vossa Alteza Real em contribuir do modo que sabe para a defesa geral. Veja se quer concordar nisto. Mande-me a resposta pronta, quando não perca de vista as possibilidades favoráveis que lhe seguram a existência e felicidade que tanto lhe desejo.»

Beija a mão de Vossa Alteza Real.

Condessa de Oeynhausen

Madrid, 1803

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Ao saber que lhe tinham atribuído um caso de amor ardente com Leonor de Almeida, Lannes não desmente.

Acrescenta mesmo ao boato algumas vertigens e devaneios, labaredas de paixão, arrebatamentos, pormenores de escândalo e silêncios equívocos.

– Viveram juntos! – diz-se com perfídia.

Lannes, que sem a ter conseguido alcançar, tanto imaginara possuí-la, volta atrás a revê-la, a querê-la. E na inútil tentativa de enganar o desejo, vai trocando a memória, fantasia-a nos seus braços.

Com vagares de predador, desvenda-a.

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Ao chegar a Madrid, levada com intenção maligna, a inventada história da paixão de Lannes com Leonor de Almeida levanta grande mal-estar, com laivos de algum escândalo à sua volta.

Inconformada, ela escreve para Catarina e Bocage, para Joana Isabel Forjaz e Mariana de Arriaga, bilhetes exaltados a dar conta do dano que o boato lhe causa, logo quando tinha conseguido, através da influência e protecção inglesa, começar a singrar nos meios da Corte espanhola.

«O ferrão da calúnia derrotou-me as esperanças», manda dizer a Pedro, sublinhando particularmente o facto de Godoy ter comentado ao embaixador de Inglaterra ter sabido ser a condessa de Oeynhausen,

«a primeira valida do general Lannes, com quem tinha vivido publicamente em Lisboa! Esta notícia supõe-se que lhe foi mandada por Peres de Castro ou forjada pelo conde de Talara, a quem pesava muito a consideração que eu podia adquirir nesta Corte; em consequência o mesmo Príncipe disse ao nosso Ministro que a Rainha me não podia receber, sem que as cousas se aclarassem.»

Leonor isola-se, passando a usar o desprezo e o brio

como sua defesa.