As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 75 de 289

Páginas do PDF

As Luzes de Leonor

Caderno

– Já não me posso interessar por seu marido, Senhora. Ele é um ingrato, que não quis aceitar os benefícios da Rainha e que recusou o Governo da Beira que Sua Majestade lhe mandou oferecer, declarando que precisava de uma pessoa do seu préstimo naquela província. O que de ali se havia de seguir, Vossas Excelências o veriam; mas como não quiseram, queixem-se de si».

Diante dele, Leonor leva tempo a desenredar tanta intriga.

 

†

CADERNO

 

Não gosto, não aceito, não consinto: o torpe, o mal à minha beira. A hipocrisia, a intriga e o acinte. O medíocre, o parco, o muito que escasseia.

Não aceito, não gosto, não permito: o limite, a turvação do zénite. O déspota, o carrasco, os becos sem saída. O nocivo, o medo desprendido, a luz a perder-se tendo ao fundo as trevas.

Não gosto, não aceito, não consinto: obrigar-me àquilo que me impõem, ser avesso de mim, vender a alma. Pois tudo no moldar-me não me acalma.

Não aceito, não consinto, não suporto: espartilhos, carmim, brandos feitiços. As cabeleiras, as faces mosqueadas. Cabelos e sinais postiços.

Não gosto, não consinto, não aceito: o negrume, a obediência cega. O torpor, a ignorância, o perdimento. O conivente acato onde me prenda e em seguida, só, logo me perca.

Salvaterra, 1 de Março de 1780

†

Encontrava-me nos aposentos da senhora minha Mãe quando vi entrar D. Leonor de Almeida que, sabendo-me ali, vinha contrita mas determinada no propósito firme de me pedir para o seu marido, sem frases ou palavras rebuscadas, o lugar que se encontrava vago de ministro plenipotenciário em Viena.

E embora vendo com agrado o seu desejo, que me parecia sob todos os pontos de vista benéfico para a imagem de Portugal no estrangeiro, sabendo como sei da hostilidade e desconfiança que o marquês de Angeja e o visconde de Vila Nova de Cerveira sentem em relação ao conde de Oeynhausen, preferi agir com alguma prudência dando-lhe uma resposta vaga.

A contrariar o meu confessor que, tendo sempre considerado D. Leonor demasiado ambiciosa, imodesta e culta para uma mulher, ultimamente vem a mudar de opinião, mostrando-se disposto a enfrentar aqueles que se ergam contra ela e seu marido.

Confio mais no estrelado brilho de D. Leonor do que na prudência apagada com que o conde se resguarda; pois fingindo não reparar nela, na verdade tenho estado atenta ao seu comportamento, à sua estratégia, à sua inteligência. Informada de cada um dos seus passos, vejo-a a percorrer, tiritando, as geladas alas e corredores e salões do Paço, por entre galanteios, intrigas e ciladas às quais se vai esquivando com afoiteza e habilidade.

Afoiteza essa que eu por demais prezo, tal como a cultura que exibe, os versos escritos e lidos alto, sem impostura mas também sem alarde. E é tanta a tenacidade demonstrada por ela e tão delicadas as palavras ternas a meu respeito, que mesmo a Princesa do Brasil minha irmã e o Rei D. Pedro meu marido capitularam diante da sua seriedade, da sua coragem e determinação, assumindo cada um deles com entusiasmo a defesa das ambições de D. Leonor de Almeida.

Garantem-me ter chegado entretanto o conde de Oeynhausen a Salvaterra, onde pacientemente espera para vir beijar-me a mão. Mas, mesmo que lhe venha a conceder o cargo de embaixador português em Viena, têm ambos ainda de convencer o marquês de Alorna que, caturro e teimoso, insiste em não querer ver partir a filha para o estrangeiro.

– Vossa Alteza manda mais do que o marquês de Alorna – comentou hoje com ironia o arcebispo. E D. Leonor, que ao fundo da Sala da Música ouvia uma sonata de Bach, como se adivinhasse que conversávamos sobre ela, levantou para mim o olhar arisco com que se defende dos outros.

Que lhe seja leve a Áustria!

†

A passos largos o visconde de Vila Nova de Cerveira alcança Carlos Augusto de Oeynhausen que, absorto, segue pelos corredores do Paço para ir ao encontro de Leonor, que se encontra desde as sete da manhã na antecâmara da Rainha. Àquela hora, porém, já estará no oratório a aguardá-lo impaciente.

Fazendo-o parar com brusquidão ao puxá-lo pela manga da farda, D. Tomás Xavier de Lima diz-lhe em tom de desagrado:

– Sua Majestade acaba de vos nomear ministro plenipotenciário na corte de Viena.

E vendo o conde estupefacto, acrescenta com rispidez desnecessária:

– Bem podeis ir agradecer-lhe esta graça!

†

Quando Leonor sai do Oratório procura Carlos Augusto e, não o vendo, vai andando ao acaso pelos corredores e pelos salões vazios onde o dia chuvoso adensa a penumbra: tão parca é a claridade àquela hora, que mal consegue ultrapassar o veludo pesado e poeirento dos reposteiros.