As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 234 de 289

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As Luzes de Leonor

Capítulo 1798

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Quando a angústia o invade ou um problema maior de Estado o aflige, o Príncipe do Brasil D. João procura a sua mãe e Rainha, em busca de conselho e verdadeiro afecto, sem ter de encobrir a melancolia e o desânimo que transporta consigo

desembainhados à flor da pele.

Certo de que dessas longas conversas sempre lhe advém um grande alívio e maior conhecimento da vida, passando a ser mais fácil para ele discernir e desatar o nó da aflição que o apoquenta, por entre as tantas dúvidas e hesitações de um homem timorato e muitas vezes assustado com a avidez pelo trono que tomara de assalto.

O Príncipe, portanto, ora procura D. Maria enquanto filho, ora na qualidade daquele que manda no Reino por ter assumido para si o poder em nome da mãe, a tomar decisões e a assinar com o seu nome documentos, decretos e despachos. Evitando o seu olhar, por temer ler nele a censura ou a reprovação ressentida. Consciente de que ela tanto pode adoptar a altivez de Rainha destronada, deposta e espoliada do seu mando, como tomar para si o amor natural de uma mãe diante do único filho que lhe resta.

«Deixa, João Maria! Eu vou relevando o agravo do que me continuas a fazer. Aliás, já nem da minha melancolia sei mais do que os físicos, ao teimarem em lhe chamar loucura…»

O Príncipe, envergonhado, limita-se em silêncio a encostar a cabeça no seu ombro à espera do afago, que entre a realeza não se usa. Mas D. Maria aperta-o ao peito, como sempre fez aos filhos. É nesses momentos que o Príncipe sente mais vontade de lhe dar conta da imensidade da sua solidão e do desencanto que o acomete e ele tenta esconder de todos.

Sobretudo, queria poder falar-lhe da desmesura do sentimento que nutre pela neta dos marqueses de Marialva, Eugénia de Meneses, aia da Princesa Carlota Joaquina, sua mulher tão áspera quanto ardilosa, venenosa e inteligente; e, embora não o confesse, a causar-lhe medo com a ambição de que anda minada.

Mas D. João está consciente do seu impróprio sentimento por Eugénia, que mantém em segredo no poço do peito.

Resguardando-o também de sua mãe, a Rainha.

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As cartas enviadas por Sophie de Condorcet despertam em Leonor recordações do tempo passado entre Paris e Versailles, no início da revolução francesa.

E mais uma vez fecha os olhos, a tentar reencontrar o rosto de La Fayette: olhar alagado, dúplice e distanciado, sorriso domado e discreto. E se as suas feições começam por escapar-lhe, envoltas numa espécie de neblina ténue, esta acaba por dissipar-se a pouco e pouco, deixando-a ver os seus olhos de genciana azul, a boca correcta e muito bela. Nele sobressaindo sobretudo a esbelteza do corpo magro, delgado e ágil, os quadris estreitos e nervosos, onde roçava a espada embainhada, a provocar desacato junto das mulheres. Penacho vermelho da cor do cravo no chapéu negro, a contrastar com o louro-dourado dos seus rebeldes cabelos lisos.

Esplêndido.

Por contraste, Leonor recorda-se de Robespierre, atarracado e duro, olhar ázimo e implacável, boca cruel jamais temperada pelo sorriso. Estivera a seu lado algumas vezes, e sempre que os olhares de ambos se cruzavam logo se opunham e desuniam, a afastarem-se numa espécie de voo apressado: um pelo avesso do pensamento do outro.

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