As Luzes de Leonor
Belladona
Perco-me nas noites de insónia, minadas de estrelas e constelações, cometas suicidas atravessando os céus a precipitarem-se no escuro.
Scorpion
Orion
Pegasus
Láudano,
tomo láudano numa colher sonâmbula. Mas como desenredar o que não quer ser desenredado? Como desembaraçar o que pretende encontrar lugar dentro do próprio enredo e embaraço?
Mercúrio
Sirius
Cruzeiro do Sul
numa mistura que o láudano torna oscilante, numa espécie de nebulosa ou de vagueza insondável, enigmática.
Estrelas variáveis.
Lembro
e percorro o jardim de olhos levantados, como quando em pequena ia pela mão forte do meu pai a perder-me na contemplação da abóbada celeste, desejando voar na fundura nocturna de véu de viúva.
Tento agora recordar-me dos nomes mágicos com os quais, então, me maravilhava:
Virginis
Sagitarius
Três Marias.
Mais tarde, na clausura do convento, haveria de ir acrescentando outros, que decifrava com a ajuda do estudo e dos livros; olhar perdido nas trevas, através da janela gradeada da minha cela, ou da cerca com as suas árvores estéreis.
Escrevendo nos meus cadernos novas designações:
Constelação do Cisne
Aurora Boreal
Andrómeda.
E também minha asa de voo.
Quem sabe, perto de Uriel com as suas brumosas asas da poesia; desejo alado, descoberto por mim, distraída das demoradas horas canónicas, por dentro dos versos que ia criando à mistura com as rezas.
Evadindo-me assim.
Voando… com os anjos astrónomos?
«Este é o lugar, onde os anjos que coabitam com as mulheres serão aprisionados», determinou o arcanjo discriminador,
ignorando Lilith,
que à sua maneira de desobediência cintilante nos vem recordar o interdito fruto do conhecimento, no Éden por ela repudiado: «Entre as outras árvores está a árvore do entendimento.»
Alpha Draconis
Estrela do Sul
Cassiopeia.
Sorrio no escuro enquanto tacteio os arbustos, os troncos das árvores, as hastes suspeitosas, tentando de memória evitar os espinhos quando os passos me levam até ao roseiral, a agasalhar o peito com o xaile onde me embrulho ao sentar-me no banco de pedra gelada debaixo do caramanchão. Prendendo os olhos nas constelações, continuo a aguardar o sono abandonatório…
Atropa Belladonna,
pequeníssima gota trémula, luzente e doce, tirada da baga negra, a cair na água do copo: veneno e cristal.
Conium maculatum.
Uma gota preguiçosa
e devagar alucino, embora cuidando para não passar demasiado perto da morte; mas sentindo o bater descompassado do coração na morada do peito, a secura da garganta, a rapidez do pulso, as pupilas dilatadas e a turvação do olhar, não me deixando já distinguir as estrelas no negrume dos céus.
Hyoscyamus niger
Belladonna.
Erva envenenada – diz-se – de raiz crescida por entre a derrocada das colunas, das paredes das casas, do amontoado das pedras soltas das ruínas e dos escombros, dos sangues secos e das lágrimas estagnadas, como água das minas.
Planta daninha para atrair a tragédia;
Planta rosada e mágica.
Atropas: uma das três parcas que controlam o nosso destino – a responsável pelo corte do fio da vida.
Estramónio
Meimendro
Solanales.
Sem a auréola idealizada da cicuta.
E de súbito tudo começa a rodar vertiginosamente, pondo fim à lucidez e ao pensamento, começando o meu corpo a ceder ao sono antes da minha cabeça; e dirijo-me a casa a confundir cometas e asteróides, planetas e estrelas fugazes e venenos e galáxias, num rodar incessante. Oscilo molemente.
Via Láctea.
Largo para trás a cerração da madrugada, esqueço as coordenadas celestes, as estrelas de navegação, e sozinha e sem norte tropeço no tapete da entrada da porta da rua, que não fecho, nos degraus das escadas, no corredor, sem dar com a maçaneta de faiança branca da porta do meu quarto. Levo os olhos fechados.
Durmo já.
†
Vê-o levar as mãos ao peito, cambalear, tombar a seus pés e ficar imóvel, enrodilhado sobre si mesmo, o rosto escondido entre os braços que instintivamente erguera a defender a cabeça.
O grito sobe desgarrado na garganta de Leonor, que no entanto consegue sustê-lo rente aos lábios, logo fechados com uma determinação que pode ser confundida com secura e desprendimento.
Mas há quem se curve já sobre Carlos Augusto,
mexem-lhe, viram-no, a descobrirem-lhe os olhos escancarados, presos de grande tormento, peito convulso onde o ar húmido e subitamente espesso parece não conseguir entrar.
Vencendo o pânico que a imobiliza, afasta os criados, manda o cocheiro ir buscar o médico e ajoelha-se junto do marido inerte no chão de terra batida, pedras soltas e afastadas, entre as quais se formaram pequenos charcos da chuva caída durante a noite e a madrugada. E vendo que ele quase não respira, inclina-se até à sua boca descorada e tenta dar-lhe o próprio sopro, passar-lhe a sua vida.
A pouco e pouco Carlos Agusto reanima-se.
Entreabre-lhe o casaco da farda, encosta o ouvido no seu peito, a tentar escutar-lhe o coração perdido na própria falha. Esfrega-lhe os pulsos com os dedos insistentes e, ao vê-lo mais desperto e lúcido, manda transportá-lo para dentro de casa, subindo em seguida para os seus aposentos, a aconchegá-lo ela mesma na cama comprida.
†
Quando o doutor Tamagnini finalmente chega, a lareira está acesa e Carlos Augusto tem uma manta a cobrir-lhe o corpo branco e glabro de alemão. Faz sinal a Leonor para que saia e ela afasta-se, ressentida, indo para o escritório, onde a procura Leonor Benedita, magrinha e assustada, a encostar-se à soleira da porta entreaberta num silêncio de disfarce, até que Juliana e Frederica, vindo a correr, a empurram, lançando-se em prantos nos braços da mãe que as afasta com brusquidão desavinda, para logo arrependida as puxar a si, ficando as duas sentadas a seu lado no canapé inglês.
Não suportando mais a impaciência, o sobressalto, deixa-as para ir saber de Carlos Augusto, entrando no seu quarto de rompante, estacando ao vê-lo semidespido no emaranhado dos lençóis afastados, magro e longo, a pele lisa do tom da cera, o nariz direito parecendo mais afilado, as olheiras fundas a devorarem-lhe o rosto. Desacordado: os cabelos louros, muito lisos e finos molhados de suor, e os olhos de anil semifechados.
Inconsciente – apercebe-se ela, sobressaltada.
Aflita avança e, julgando que ele morre, volta-se a esconder as lágrimas que lhe descem pela face. Mas logo Tamagnini a chama, para lhe pedir o auxílio que em pequena já ela lhe prestara, quando no convento tantas vezes sangrara a sua mãe: corte fino e preciso conseguido com um estilete e a habilidade a que leva a prática. Tonta, Leonor cambaleia ao ver o sangue correr em fio para a taça de vidro que segura com as mãos pouco firmes.
Antes de partir, Tamagnini aconselha-a a preparar-se para o pior, advertência que prefere não escutar, apesar de a ouvir. E quando ele sai, senta-se à cabeceira do marido – «o lume tem de estar vivo, para expulsar o ar da primavera fria e a morte a rondar por perto» – lembrar-se-á mais tarde de pensar para si mesma, e de se ter dado conta da camisa de seda com renda no peitilho, amachucada na cadeira de vestir, botões de madrepérola arrancados na pressa de lha despirem, meias e calças manchadas e duras da lama que entretanto secara.
Leonor escuta o gemido vindo da cama, e com uma pequena colher de prata vai chegando aos lábios de Carlos Augusto a infusão de folhas de dedaleira receitada pelo médico. Depois chega-se ao oratório e ajoelha-se diante da imagem de Cristo, expondo o próprio coração ensanguentado à superfície da ferida aberta no peito. E só muito mais tarde concordará em descansar um pouco, fazendo a vontade ao irmão e à cunhada entretanto chegados. Aceita também a chávena de chá de tília, que Thérèse lhe preparara.
†
Longe do olhar atento de Leonor, na penumbra trémula das chamas da lareira, Carlos Augusto volta a si, mas sem a lucidez suficiente para tomar o gosto de continuar vivo.
Retomados os atilhos e laços que o prendem
à consciência, ignora porém como já se afasta inexoravelmente dos entes queridos e da solidão onde está mergulhado, sem ninguém à cabeceira a velar-lhe os últimos momentos. A filha mais velha, que deveria fazer-lhe companhia, assustada com a sua imobilidade e lividez, saíra num clamor de saias e soluços a chamar a mãe; apenas o seu criado particular se mantém atento, sentado a um canto do corredor inóspito, à espera da chamada do amo de quem cuida há anos.
Antes de tornar a cair no torpor da inconsciência, Carlos Augusto vê passar diante dos olhos a sua relação com Leonor: afecto de espinho numa trama de amor ambíguo, de admiração impaciente, de desejo tumultuado, tentando sem jamais conseguir deixar de ser apenas sombra junto da sua cintilante claridade.
Relembra também os filhos: o bastardo, nascido da amante que o seguira até Lisboa onde ele a abandonara, e depois os legítimos, mas nem por isso menos distanciados, de quem nem sequer sabe a cor dos olhos ou a data de nascimento. Tolda-lhe os olhos a visão das mesas de jogo, onde perdera a fortuna, a honra e a dignidade, os deslaçados nós de um prazer rasteiro e sem brilho. E não entendendo a proximidade da morte, volta a tombar na inconsciência, enquanto Leonor se agita no sono sobressaltado, enroscada no sonho onde continua a escutar o som opresso da respiração aflita do marido.
†
Antes de morrer, Carlos Augusto sai do coma, entreabre os olhos e deixa-os prender em Leonor que, ao chamado da filha regressara, e agora à sua beira o aconchega nos lençóis e nas mantas da cama. Convulsamente, estende os braços para ela e pede numa voz vacilante e indistinta:
– Perdoa-me, Nelly, ter-te feito sofrer! Perdoa-me o pouco, o fraco que fui, o nada que te dei, perdoa-me as decepções, perdoa-me a fraqueza, as faltas, as deslealdades e os enganos.
Leonor curva-se a tentar soerguê-lo, cabeça loura descaindo no peito, os lábios febris e secos a tentarem aflorar a custo a pele dos seus dedos. Trespassada pelo súbito medo de o perder, debruça-se, a sentir-lhe já o cheiro estriado da morte.
O débil coração mal batendo.
– Não deixes que me levem de ti! Não me deixes ir, Nelly!
É quase num murmúrio que pronuncia o nome tão íntimo, como se tentasse reforçar o laço de os atar, enlear um no outro. Ajudando-o a manter-se vivo.
A querer cheirar-lhe pela última vez o hálito perfumado.
A querer degustar-lhe o travo dos seus lábios.
A querer roçar-lhe ao de leve a estreiteza do pulso.
A querer ouvir o estralejar da lenha no lume da lareira.
A querer captar uma derradeira imagem, imaginando agarrá-la:
Leonor nimbada por um raio de sol filtrado pelo vitral da janela, a mesclar-lhe de ouro cintilante os cabelos que, nesse dia, ela traz soltos em ondas pelas costas.
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