As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 79 de 289

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As Luzes de Leonor

Soneto

Como única resposta, a Soberana estende para a sua camarista, num gesto simples, as mãos delicadas, compridas e quase transparentes. Um silêncio fundo cava-se no enorme aposento forrado de cetim, onde chega amordaçado o som do vento a embater nas vidraças, fazendo abanar os batentes de madeira das janelas, por trás dos grossos reposteiros cuidadosamente corridos.

Regressada nessa mesma tarde de Almeirim, Leonor deixa-se ficar onde no toucador a penumbra se adensa e a claridade entorpecida e trémula das velas dos candelabros mal chega. Apercebendo-se do abatimento da Rainha, aperta ao peito o documento que necessita da assinatura régia, a fim de dispensar a cláusula que o marquês de Alorna impôs no contrato do seu casamento, que a impede de sair de Portugal.

Na verdade, Leonor teme mais «a impertinência da contenda que as forças dela, porque visto querer o Arcebispo de Tessalónica que ela parta está certa que a Rainha a há-de mandar». E sem dizer uma palavra, guarda o papel dobrado no fundo da bolsinha de cetim deixada esquecida em cima do regaço.

 

†

 

SONETO

À senhora minha Mãe

Natureza! quais leis dificultosas

Ao brando coração meu impuseste!

A quais devo seguir, com quais quiseste

Subjugar as paixões imperiosas?

Quando escuto da Mãe vozes queixosas,

Que me pedem a filha que me deste,

Arranco-a do meu peito a que a prendeste,

Sem ver deste as feridas sanguinosas.

Mas apenas cedi, mais alto bradas,

E do materno amor golpe violento

As entranhas me deixa laceradas.

Se a não largo, qual é o meu tormento!

Se lha dou, quantas horas desgraçadas!

Bárbara lei, difícil vencimento!

†

Querida mana muito da minha alma

e do meu coração

Maria

«Estou já em tal lida com as minhas despedidas que não posso escrever-te quase nada. O meu coração vai adiante dos meus passos», pois não tendo ainda saído de Portugal é como se já estivesse a caminho da Áustria.

E embora a alegria me preencha por inteiro, levo comigo a mágoa de deixar para trás uma filha que tão cedo não saberá como é meu rosto, e um Pai que cortou relações comigo. Como já deves saber, passei pela Quinta dos Nabais para o demover da sua teimosia, mas nem me quis ouvir.

Regressei desolada ao Porto a fim de preparar a nossa partida. Apesar de tudo ainda escrevi a nosso Pai, expondo a justeza das minhas razões e invocando a minha felicidade. Não sei que resposta me dará, se der alguma… «Mas se ele levar o seu enfado por diante, o conde certamente não quererá estar em Almeirim e isso é um grande desconsolo para mim e também me dá cuidado.» Não gostaria de deixar para trás rancores nem amores remoídos, e menos ainda pretendo levar comigo sentimentos de culpa mal resolvidos, a estragar-me o prazer da viagem. Bastam-me «as desconfianças do meu homem, sempre tão fundas, a inquietarem-me o coração».

Depois do meu denodado esforço para lhe conseguir o cargo em Viena, desconsolam-me os seus excessivos cuidados em relação à raiva daqueles que na Corte nos vêem partir com inveja. Grandes são no entanto as esperanças e as expectativas com que deixo Portugal a caminho do mundo.

Pelo menos tu entendes as minhas razões em preferir as Luzes às trevas. Sabes, Maria, como a mediania me enerva e me apoquenta a futilidade e a ignorância testemunhadas no Paço. Anseio por outra largueza de espírito e profundidade, por um novo entendimento da vida e da razão. Quero escutar a música que está a ser composta, anseio por conhecer poetas e com eles descobrir uma outra poesia.

Exijo ser surpreendida, mana!

Por enquanto continuo em Portugal, tropeçando nos desafectos e em tudo o mais que há para pôr em ordem, antecipando assim o prazer da partida. Organiza, Maria, a tua vida, de modo a estarmos ainda uma com a outra «para que venhamos a recordar mais estes dias que passaremos juntas».

Recebe um beijo e um abraço dos mais ternos.

A tua irmã que muito te ama.

L.

Porto, 3 de Abril de 1780

†

Ainda do Porto, onde se encontra com Carlos Augusto a vigiar a mudança e o emalar de tudo o que vão levar consigo para a Áustria, Leonor escreve a Pedro para o Regimento da Cavalaria do Cais em Lisboa.

Confia no irmão como único mediador possível entre ela e o Pai, que cortara relações com ela desde que a Rainha anulara a cláusula do contrato de casamento que a amarrava a Portugal.

E quando ela e Pedro se encontram poucos dias antes de partir, chama-lhe como dantes «menino dos meus olhos», faz-lhe carinhos, garante-lhe a pertinácia no sentir em relação aos seus e na fidelidade à língua portuguesa. Fá-lo prometer que tentará adoçar o carácter dos pais, secará as lágrimas da mãe, e velará pela educação de Leonor Benedita.

Leonor não quer levar nenhum peso na consciência.

†

O marquês de Alorna não comparece à despedida de Leonor quando esta parte para Viena.

– Filha minha obedece-me em tudo. Se não o fizer, perde-me. Está como morta para mim! – dissera-lhe num tom seco, sem lhe estender sequer a mão para que ela a beijasse. Leonor recuara, como se ele lhe tivesse ordenado: «Submete-te a mim!»

Virara-se devagar e saíra, fechando atrás de si sem ruído

a porta da biblioteca dele.

†

Os olhos cor de avelã de Teresa de Mello Breyner estão cheios de pena. Conhece bem Leonor e os seus precipícios, as suas incendiadas luzes sem sumiço de nada. Por isso poucas são as trevas que habitam a amiga.

– Por ti mesma partes, meu veneno, e eu sem ti em Portugal envenenada fico.

Sobe-lhe a mão aos cabelos de mel velado. Afago que a outra sente como se fosse o movimento esquivo pertencente à insubmissão do voo ou a uma simples aragem de estio fechada na sua vagem.

– Difícil coisa de imaginar me dizes, Teresa. Sempre foste tu meu sossego, meu esteio e meu porto de abrigo. Tudo o resto esqueço e quebro, por isso, embora parta, continuo contigo.

Abraçam-se com estreiteza de corpos, a escutarem o coração uma da outra. E sem saberem quanto tempo irão ficar separadas, antecipam saudades, adivinham tristezas, imaginam-se já a escrever longas cartas.

– Sei que julgas, minha Leonor, ires ao encontro de ti própria. Mas com muitas diferenças e modos se constrói a nossa alma, sobretudo quando se desmancham os laços do afecto, e será essa a ironia. Estando tu em princípio mais livre, não irás porém sentir-te nem mais feliz nem mais solta longe de Portugal, disso estou certa.