As Luzes de Leonor
1784-1785
†
Carlos Augusto olha para Leonor imóvel a meio do jardim que ladeia a casa, como se na hora de partir hesitasse, acabando no entanto por transpor o portão e, sem olhar para trás, entrar na carruagem que a espera.
Do lugar onde está, ele apercebe-se do movimento determinado dos seus dedos a descer a cortina de veludo da janela exígua; e entende que ela apenas se defende, a tapar dos outros a secura vazia dos seus olhos sem lágrimas. Mas acabará por ser ele que a surpreende ao entrar de rompante no carro, a tomá-la nos braços; perturbada, ela entrega-se, para logo o afastar sem uma única palavra ou sequer um fugaz sorriso.
Rosto fechado.
Olhos de claridade áspera.
Volta a aceitá-lo, beija-o com desconcertante avidez, a língua dançando por dentro dos seus lábios, para de novo fria o empurrar de si e ordenar-lhe que saia.
– Escreve –, pede-lhe ele numa voz que a Leonor já parece distante; e Carlos Augusto vê-a aceder em silêncio com um breve sinal de adeus, a cabeça ainda liberta do chapéu em tons de ocre, longo véu de rede para defender do pó das estradas.
No primeiro degrau da escada de mármore que vai dar à porta de casa, está sentada Frederica encolhida sobre si mesma, olhar de secura e ódio retardado, enquanto Juliana dentro de casa dorme tranquila no berço. Encostado ao portão de ferro forjado, Carlos Augusto chama a filha para junto de si, mão direita a apertar-lhe o ombrinho que treme sob a cassa branca do vestido abotoado nas costas, cintura apertada por um largo laço de cetim escarlate. E Leonor finalmente parte, sem um sorriso ou um aceno, o perfil impreciso a perder-se na obscuridade da carruagem. Indecisa diante de si mesma,