As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 258 de 289

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As Luzes de Leonor

Caderno

Carlota Joaquina vê-a por fim erguer o olhar de prata, lábios entreabertos num meio sorriso, expressão interdita no rosto um tudo-nada crispado, de quem está dividida entre o júbilo e a desconfiança. De alguém que se sente diante da satisfação, mas igualmente encurralada.

 

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CADERNO

 

Estou certa de que Bonaparte não vai ratificar a paz, como eu aliás já dissera: «nem até agora a ratificou; é certo que os franceses não esperam senão por uma estação menos cálida, para entrarem em Portugal. Tudo isto parece evidente a quem observa, a quem medita, a quem ama a Pátria e o seu Soberano».

«Sei com toda a certeza que Bonaparte, cercado de terrores e desconfiança, fez prender e deportar todos os jacobinos. Barras foi degredado para Bruxelas. Não satisfeito com este acto arbitrário e fruto do medo, caiu sobre todos os realistas; estão de novo as prisões cheias de vítimas da sua suspeita. Não lhe bastou isto: fez fortificar a casa que habita, mandando fazer à roda dela um fosso de trinta pés de largo, cheio de água. Um imperante que desconfia e treme está meio vencido, e tanto a sua própria fraqueza como o descontentamento geral são armas contra ele.»

Lisboa, 29 de Novembro de 1801

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«Minha Leonor do meu coração

Tendo feito todos estes dias vento norte, não me chegou à mão a tua carta senão hoje à noite e por deferência bondosa do padre António Vasques que ma trouxe em mão, pois por aqui me tem feito companhia.

Apresso-me a responder-te pois quero que amanhã de manhã o mesmo portador te leve de volta notícias minhas. Nestes termos apenas te posso dizer quanto tenho sentido o peso da imensa idade que levam já os meus dias, acrescido com o fundo melancólico de um temperamento que apenas eu conheço bem.

Seja como for, a verdade é já não poder andar a décima parte de antes, custando-me também bastante passear a cavalo, coisa de que sempre gostei infinito e me fazia benefício à saúde. Nesta solidão, além dos livros, era o único entretimento capaz de minorar-me as mágoas.

Entre mim e tua mãe quer-me parecer não haver grande diferença no que diz respeito à estrada por onde ela foi para o outro mundo, estou já nas vésperas dessa viagem e creio que nem o marquês de Fronteira, o velho D. José, está mais perto de se meter a caminho. Sinto muitas aflições, muitas intercadências de pulso, muitos esquecimentos. Enfim, daqui a ficar pateta não vai nada.»

No tocante a meu filho e teu irmão, posso afirmar não existir homem mais honrado nem mais firme em palavras e acções, mostrando ter-me como exemplo. Quisesses tu fazer outro tanto!

Por uma vez Leonor segue os meus conselhos, deixa de lado os sonhos e afasta-te das intrigas da Corte sempre tão daninhas, põe-te antes no lugar de dama da tua estirpe e de mãe que és: «O exercício da política pertence a quem por nascimento viril cabe. As mulheres empreendem voos mais baixos, mas não menos dignos. Temo que se tenham formado na tua imaginação muitas quimeras. Acredito teres lido demais e sem critério, faltando-te um pulso de ferro capaz de te orientar os dias. Mas sem embargo daquilo que nos separa continuas a ser minha filha.

Deito-te a minha bênção assim como a cada um dos teus filhos. Deus os faça a todos uns santos.» Do teu pai que muito te ama

João

Almada, 20 de Dezembro de 1801

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Henri Forestier não se cansa de olhá-la.

Nunca uma mulher o fascinara tanto, nem de nenhuma outra se sentira tão prisioneiro, tão encarcerado pelos próprios sentimentos desgovernados e incontroláveis.

Talvez seja isso que em Leonor lhe mete medo. Teme-lhe o poder que tem de o possuir e de em seguida o manter agarrado.

A torná-lo fraco.

Ameaçado como afinal sempre estivera Aquiles?

Desvia os olhos da sua nudez de nardo, para logo voltar a tocar-lhe, num atropelo de odores, de cores, de dores, que o afastamento dela lhe causa.

Consciente do perigo que para si ela representa.

Por desgoverná-lo ou porque o desacerta, o distrai e afasta do seu ideal mantido enquanto promessa de honra e vida. Sair de Portugal passa a ser para Henri Forestier uma obrigação, tentando encontrar firmeza para conseguir despedir-se dela, tão depressa quase tímida e tranquila deitada a seu lado, como amante fulva e possessiva, tomando para si o mel de toda a colmeia onde só ela é rainha.

Conquistadora da própria conquista.

E quando ele lhe vai anunciar que parte em breve,

acaba sempre por lhe rogar: «Fica mais esta noite comigo!»