As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 168 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

E aí aninho-me.

 

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DIÁRIO

 

A primeira impressão que colho de Lisboa quando, vinda de Almada e atravessado o Tejo, chego ao cais de pedra alta trabalhada pela água e pelo limo manso, tem sobre os meus nervos um efeito profundo. Apaziguamento dos sentimentos que habitualmente me tomam, emprestando-me uma inesperada e maravilhosa segurança.

Entendo então as saudades de Portugal que me roíam a alma.

O forte embalo do rio sempre me atordoa, alterando um pouco a minha percepção das cousas e das ruas por onde a minha sege avança. Respiro fundo a frescura do ar, sentindo nos lábios os pequenos estilhaços de cristal da sua transparência. No entanto as dúvidas que me atormentam continuam a martelar-me o pensamento: serei eu capaz de resolver os problemas provocados pelas impensadas e levianas atitudes de Carlos Augusto que ultimamente me têm envenenado a vida?

Lisboa, Dezembro de 1787

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Gosto de imaginar que a redenção é possível.

O medo que o pensamento da morte inevitavelmente transporta consigo toma-me muitas vezes em relação aos entes queridos.

Maria partiu.

Dela não guardei o perfume e começo a perder-lhe a face. No entanto recordo-a todos os dias, embora da sua vida não tenha ficado em mim rasto visível. Sento-me ao lado do túmulo da minha irmã e encosto a minha cara ao mármore onde leio o seu nome escrito em letras simples entalhadas na pedra fria.

Ah! Como aqui tudo me parece gelado.

«Sinto nos ombros o hálito das Parcas a rondar-me, minha irmã desaparecida! Não estive suficientemente atenta a ti para saber escutar nas tuas cartas o que nelas pretendias dizer-me, nem sequer percebi as tuas encobertas palavras de medo – talvez porque submersas pelas minhas, de deslumbramento – sob a transparência do que ias contando, já solta a caminho do voo radioso que te levaria. Delas jamais esquecerei as últimas que me dirigiste, e que na altura apenas me pareceram belas e equívocas:

“É certo que eu me lembro, ainda que mal, de alguns passos cintilantes que se sucederam neste tempo. Mas estou com uma tal confusão no entendimento, por causa do enorme luzeiro que então avistei, que não sei deliberar em discurso algum.”

Li-te com estranheza, rasurando o alumbramento que te marcava o discurso. Não consegui entender-te, mana, e imaginei-te confusa, tal como hoje me recuso a ir mais longe no relembrar-te, no aproximar-me perigosamente de onde estarás agora minha irmã e outro lado de mim.»

Leonor levanta-se, a saia do vestido de fazenda inglesa suja de poeiras e folhas húmidas tombadas das árvores a apodrecerem desde o outono. Na terra ensopada está o braçado de rosas brancas junto de duas camélias sanguíneas. Uma tristeza pesada ensombra-lhe o pensamento, confunde-lhe as ideias, torna árido o que nela é sempre acidentado e fértil. De repente, nada mais parece fazer qualquer sentido.

Começara entretanto a cair uma chuva miúda e persistente, mas Leonor ainda se demora tentando rebuscar na memória o que teima em fugir-lhe; ela não aceita o olvido, o inesperado branco onde cousa alguma mora.

O ouvido rasgando a solidão na procura.

«Quem sabe se em busca do som do teu riso, Maria, do sopro do teu suspiro.»

Leonor cobre a cabeça com o capuz quente e macio da capa, e quando se encaminha de regresso ao carro vê nitidamente a folhagem densa mexer-se num arrepio.

Pára assustada.

A ciência que tanto a fascina e na qual se revê ensina-lhe a acreditar apenas naquilo que tem uma explicação lógica e plausível; mas o sibilar do vento nos ciprestes fá-la erguer os olhos no momento exacto em que um relâmpago ilumina o crepúsculo; e ela corre para a sege, onde chega encharcada e a tremer…

De que medo? – perguntar-se-á mais tarde,

enquanto enxuga com uma toalha o cabelo solto, corpo despido embrulhado na coberta arrancada da cama e traçada no peito. Mas o entorpecimento que a vai tomando leva-a a deitar-se na moleza do leito, lençóis de linho e travesseira de penas a induzirem-na ao sono, ao momentâneo esquecimento.

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Mal lhe contam do regresso de Leonor de Almeida, Joana Isabel Forjaz deixa o retiro da Quinta das Picoas, manda que lhe tragam a carruagem e corre a procurar a amiga na casa da Rua da Boa Morte, onde agora moram Pedro e Henriqueta e ela guarda os seus aposentos para quando troca Almada por Lisboa, o que acontece na maior parte do tempo.

Encontra-a mais bela ainda, penteado e vestido parisienses, como se os anos entretanto passados a tivessem tornado mais jovem, apesar dos seis filhos e das olheiras que lhe marcam as faces.

Olham-se antes de se abraçarem, presas de uma inesperada timidez e cerimónia, como se tivessem esquecido a amizade antiga, algumas vezes conflituada. E só quando finalmente entrelaçam as mãos é que percebem

a falta que tinham sentido uma da outra.

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Aborrece-se, enfastia-se, impacienta-se.

Carlota Joaquina exaspera-se com a apatia, a abulia dos dias na Corte portuguesa feita de austeridade, de regras e protocolos, de missas e rezas, santinhos e rosários desfiados com desatenção; escapulários, horas canónicas e velas votivas a darem-lhe volta ao estômago com o seu nauseante cheiro a sebo.

A rebeldia e a desobediência fazem parte da natureza da Princesa espanhola, que sempre consegue esgueirar-se, fugir da penumbra empoeirada dos salões, como uma borboleta em busca da luz. Pronta para correr nos jardins e nas matas, escondendo-se das fidalgas e das aias que a procuram pelas áleas do Palácio de Queluz, sem saberem do gosto dela pelo ensolarado Pavilhão Chinês onde se demora sonolenta.

Ignorando os gritos alvoroçados da açafata D. Emília O’Dempsy, seguidos pelo resmungar rancoroso de D. Anna Miquelina, acabando as duas por se afastarem já pelos caminhos que levam à Matinha, para onde ela muitas vezes vai a pedir asilo às árvores espessas de copa baixa, na sombra das quais se esconde, ocultando-se do olhar de quem a pretende arrastar de volta às penumbras assombradas do Palácio.

Da terra seca onde está estendida Carlota Joaquina abarca o céu, de um azul tão intenso que os olhos se lhe enchem de lágrimas. Imensidão onde paira vagarosa uma imponente águia real, a esquivar-se com mestria e elegância às correntes do vento.

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Pedro vai à Corte saber quando a irmã poderá comparecer no beija-mão da Rainha. D. Maria faz-lhe saber que na melhor ocasião mandará chamá-la.

Leonor fica perplexa e magoada mas habituada a suplantar os reveses da sorte, que lhe têm ensinado a não aceitar sem luta o que a vida na maior parte das vezes lhe envia, mete-se na sege com Teresa, que desde a sua vinda para Lisboa a acompanha para todo o lado, e parte para o Palácio de Queluz a informar-se da saúde de Sua Majestade.

Quando o arcebispo de Tessalónica a vê chegar corre ao seu encontro, como sempre desajeitado e brusco, veste branca subida pelo andar estugado, enquanto esbraceja e grita:

– Bem-vinda Senhora Condessa de Oeynhausen, bons olhos vejam Vossa Excelência!

Leonor e Teresa riem em surdina pelo estardalhaço que faz parar alguns fidalgos, admirados com o inusitado entusiasmo de frei Inácio de São Caetano que, mal entram no Palácio, puxa Leonor para um canto da Sala da Música e, depois de se inteirar de como lhe decorrera a viagem, confidencia:

– A Rainha está abalada pela morte do marido, e envenenada pelas intrigas! Finja a Senhora Condessa não dar por nada mas esteja alerta, e por motivo algum deixe de frequentar o Paço. As infantas e as princesas gostam de Vossa Excelência. Para já é quanto basta.

Do outro lado da sala, Martinho de Melo e Castro, que os olha com hostilidade, cumprimenta-os, enquanto Pina Manique não os larga de vista. Leonor fica por momentos indecisa, parecendo contrafeita, mas Teresa acorre em seu auxílio e, tomando-a pelo braço, fita, interrogativa, o arcebispo que se afasta resmungando e de cara amarrada ao ver chegar D. Maria Ana Josefa com a sua beleza morena e olhar derramado, a quem Leonor agradece a amizade leal tão contrária às habituais relações da Corte. Mas logo D. Mariana de Arriaga aparece, vinda dos aposentos de D. Maria, propositadamente para matar saudades da amiga.

Discreta, Maria Ana Josefa distancia-se, a procurar um lugar de penumbra de onde possa observar como as três se deixam ficar muito tempo na companhia umas das outras; e quando julgam já não haver ninguém para dar conta da ausência delas, a camareira da Rainha leva Leonor até à Princesa do Brasil, D. Maria Francisca Benedita.

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No canto oposto da sala àquele onde se dissimula na penumbra Maria Ana Josefa, Pina Manique não desprende, tal como ela, o olhar de D. Leonor de Almeida e de D. Mariana de Arriaga, que sentadas a conversar parecem ter-se esquecido do tempo. Intrigado e desconfiado como sempre, tenta perceber através do movimento dos lábios o que as duas tanto conversam uma com a outra.