As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 175 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

– Acusas-me de ser árida, de ser ríspida contigo, mas és incapaz de reconhecer seres tu que te excedes, te entusiasmas na defesa de ideias e princípios que não te merecem.

Calam-se a tentarem acalmar os corações.

À volta delas, entretanto, parece ter-se instalado a harmonia: a gatinha branca dorme enroscada no regaço de Teresa, no de Leonor está entreaberto Scivias, de Hildegarda de Bingen, e em cima da mesa de pedra encontra-se um volume de sonetos de Petrarca, do qual a ligeira aragem entretanto levantada pelo lado do Tejo vai desfolhando devagar as páginas. À medida que o silêncio se rendilha com o cintilante frescor do ruído das águas correndo ali perto, com o arrulhar das rolas e o canto das cigarras, que parecem ajudar a entorpecer a tarde.

Leonor e Teresa escutam ainda o adejante perpassar das asas de um pássaro ou, quem sabe, de um anjo a erguer-se em voo de junto delas, enquanto as pétalas das rosas sanguíneas vão entreabrindo aos poucos, espalhando em seu redor um odor pesado e doce, revolvido pelo insolente perfume dos gerânios azul-pálidos.

 

†

DIÁRIO

 

Muitos são os dias em que me arrependo de ter vindo de tão longe para não conseguir resolver a minha vida. Estar perto dos lugares onde eu e Maria vivemos tão unidas, torna ainda mais lancinante a sua morte.

Na Corte sinto um clima de desconfiança e de hostilidade que muito me pesa, não sabendo onde encontrar o antídoto certo para os venenos com que me dilaceram a alma, nem como manter afastados os punhais de lâminas assestadas ao meu peito.

Movimentando-me pelo meio de entraves de toda a ordem.

Martinho de Melo continua sem responder às minha cartas, nem me receber quando vou procurá-lo no seu gabinete. E mesmo diante da Rainha, tolerante mas também iludida e desconfiada com as muitas coisas que lhe dizem de mal a meu respeito, não consigo dar-lhe a ver as intrigas, mostrar-lhe as armadilhas, desatar os nós dos fios com os quais me enredam os inimigos.

Se não fosse o algum apoio dos Príncipes do Brasil, de Mariana de Arriaga e do arcebispo de Tessalónica, a protecção do visconde de Vila Nova de Cerveira pretendendo agradar a meu Pai, nem valeria a pena teimar no sentido do meu bem. Por vezes dou comigo a encorajar-me com os únicos argumentos que me restam, baseados na determinação e na força de vontade.

A tentar ganhar alento para este novo ano.

Lisboa, 10 de Janeiro de 1788

†

Quando a levam contrariada para casa da mãe, com ligação ao casarão dos avós por uma álea de rosas púrpura, e à noite se vê obrigada a dormir no seu quarto, Leonor Benedita permanece de olhos abertos no escuro matizado pela fina luz raiada da lamparina dos santos, tomada por um medo intransponível, que não sabe de onde parte mas dentro de si vai encontrando acolhimento. Encolhe-se ao senti-lo aproximar-se com vagares de animal selvagem, deslizando de barriga colada às ervas daninhas da alma, gatinhando até ao seu coração de criança acrisolada.

Com os dedos a subirem acautelados até à dobra bordada do lençol, cobre a cabeça tentando não respirar fundo, a impedir-se de tomar gosto ao perfume de nardo que a vê usar e dela se solta e exala, quando apenas com uma longa camisa de dormir de cetim se deita na larga cama ao lado da qual fora colocada a sua.

Temendo a presença opressiva e obsessiva daquela estrangeira, usurpadora do lugar da sua mãe sonhada, Leonor Benedita reabre devagar as pálpebras de pétala, a certificar-se do seu sono. Porém, ao descansar, ela faz lembrar de uma forma insurrecta e perfeita

a açucena

com a qual sonhara… E a menina soçobra apavorada. Aproveitando-se da sua fraqueza, o medo solta-se e avança, apesar de tropeçar nos soluços ainda presos na sua garganta que se fecha e aperta, como se fosse um torno em redor de si mesma. Leonor Benedita sente perder-se aflita, ansiosa, sem saber como escapar ao perigo que a diversidade daquela mãe representa, em tudo diferente da que até então imaginara: uma estranha a dormir ou a fingir que dorme à espera de que ela ceda, não querendo deixá-la escapar ao seu controle,

ao seu capricho, às suas ordens.

Leonor Benedita tenta ainda subjugar o pavor que nela se espraia numa maré crescente, a avolumar-se e a enredar-se-lhe nas pernas e nos pés tão leves, que facilmente trepariam, subiriam os degraus do mal do qual a avó tanto fala, alarmando-a com a grande ameaça de negrumes e queda,

num inferno de labaredas e horrores.

Um suor translúcido, a fazer lembrar o orvalho, começa a cobrir-lhe o corpo franzino de menina cismada, de súbito a arder em chama alta. E Leonor Benedita, atemorizada, percebe estar a perder o autodomínio, e quando começa a revolver-se numa convulsão, o espírito e a força de vontade dela vão-se afundando, veneno a formar um todo uno na correnteza dos sangues. Dela parte um ciciar enrouquecido, logo transformado num longo gemido, rosnido de fundura abismal que se avoluma até se transformar em grito.

Leonor senta-se na cama alvoroçada.

Primeiro repara no olhar feroz da filha, que nos lençóis se revolve parecendo uma contorcionista, corpinho convulso que se dobra e arqueia, ora parecendo elevar-se como quem levita, ora a ser projectada de volta como se fosse quebrar-se. Dos seus lábios mordidos escorre um fio de sangue carmim ao longo do queixo e do pescoço liso, para ir perder-se no peitilho branco da camisa de dormir, onde toma o desenho de uma rosa mínima,

rubra e húmida.

A tornar-se viva.

†

Tal como prometera a Joana Isabel Forjaz, Leonor vai visitá-la à Quinta das Picoas, onde ela depois de enviuvar passa os seus dias. Durante as horas que estão juntas, matam as saudades que até àquela altura nem sabiam ter uma da outra, divertem-se com os ridículos de alguns fidalgos e os disparates da Corte, contam intrigas que habitualmente rejeitam mas que naquela tarde as fazem rir com vontade. Pelo meio vêm as confidências, os últimos poemas de ambas lidos alto, sob as acácias; e quando se levanta o vento áspero de Fevereiro, voltam para a saleta de Joana Isabel, juncada de rosas e gladíolos, de jacintos tombando das jarras de porcelana da fábrica do Rato.

A lareira está acesa, e nas mesinhas lacadas há pratinhos da Companhia das Índias com bolinhos de coco, de gengibre, e tacinhas de prata com amêndoas carapinhadas e rebuçados de ovos.

Leonor regressa a casa a tempo de se arranjar com a ajuda de Angélique, para ir, a convite do duque de Lafões, assistir a uma sessão pública da Real Academia das Ciências, que reúne numa antecâmara do Palácio das Necessidades, pois a Rainha, apesar dos protestos do Príncipe D. José, não vê necessidade de procurar para a Academia instalações mais dignas e adequadas.

†

Desde a sua chegada a Portugal que Leonor mostrara vontade de conhecer a Real Academia das Ciências, e Teresa de levá-la a uma das suas sessões ao final da tarde.

Portanto vão as duas: a primeira tentando moderar o andar, não querendo mostrar-se demasiado ansiosa, e a segunda ardendo por empurrar a amiga que, pela lentidão do passo, lhe parece relutante. Ambas a amarfanharem com os dedos a roda dos vestidos erguidos na pressa, bainhas presas aqui e ali na subida dos degraus altos de pedra grossa sem nenhum arrimo.

Logo à entrada Leonor surpreende-se, ao verificar que em vez da imaginada sala grandiosa, embora de esplendor severo e contido, se lhe depara um salão enorme despido de cortinados, de tapetes e de mobílias.

Em compridos bancos de madeira velha, mal cuidada, dispostos em volta das paredes áridas, já se escontram sentados os convidados desse dia: o marquês de Bombelles, embaixador de França em Portugal e sua mulher, o conde de Ega com a sua mulher visivelmente entediada, e também Madame de Travenet, que ao vê-las chegar lhes deita um olhar farto e lânguido, de quem não tardará a adormecer, embrulhada na sua capa de peles, a defender-se do frio e da humidade, que os fazem tremer a todos na sala gelada. Leonor vê ao longe o abade Correia da Serra, a quem cumprimenta com um breve aceno.

Somente o duque de Lafões, enquanto presidente, tem direito a tomar assento com outro luzimento, numa pequena cadeira de pau-santo, diante de uma mesa coberta com pano de arrás, onde alinhara a sua pena junto a um tinteiro de estanho de boca larga, colocado ao lado de livros e cadernos. É ele quem abre a sessão, com a habitual inteligência perspicaz e lúcida, a desmentir-lhe o aspecto de peralvilho.

É breve, sagaz e contundente.

E a obscuridade é tanta que ele tem de improvisar, sem luz para ler o texto que trouxera escrito. No fim da sua exposição tem de pedir mais velas, pois os oradores seguintes, menos inventivos e pouco dados ao improviso, olham-no já com desconsolo. Em seguida, os discursos desenrolam-se pesados e lentos, sem imaginação nem fibra.

Estóica, Leonor resiste às longuíssimas palestras, tecendo em voz baixa mordazes comentários que levam Teresa a mal conter o riso. Quando finalmente a sessão termina já anoitece, mas o duque de Lafões não os deixa partir sem primeiro mandar servir vinho do Porto aos homens e licor de romã ou chá de crisântemo às poucas mulheres presentes.