As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 216 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

Uma por uma.

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Leonor sobressalta-se quando a carruagem, subindo da Basílica da Estrela, faz a curva que leva até à Rua da Boa Morte, na direcção da casa onde voltara a morar quando vem a Lisboa, e que o pai tem vindo a ceder ora a um ora a outro dos filhos. Entretanto vendera a sua na Rua de Santa Isabel, onde nos últimos anos vivera com Carlos Augusto, a fim de pagar algumas das muitas dívidas que este deixara.

Mais uma vez – sabe – terá de partilhar a casa da Boa Morte com Henriqueta, que abandonara Évora para aguardar em Lisboa o regresso de Pedro, ainda na campanha do Roussillon. Leonor exaspera-se sempre com a atitude passiva mas dissimulada da cunhada.

Infeliz e sumida no próprio silêncio.

 

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DIÁRIO

 

A companhia de Catarina amenizou a viagem até Lisboa, onde cheguei ansiosa por ficar. Trouxe comigo as crianças, pois os dias que por aqui irei permanecer tanto podem ser poucos como em demasia. Dependendo, e muito, do que entre mim e Teresa demorar a ser confessado e dito.

No parlatório gelado, aliás, o tempo não existe.

Enquanto neste verão ardente, nas ladeiras, ruelas e becos se asfixia, nos conventos de Lisboa por onde perpassam as correntes de ar e as humidades geladas das águas limosas, a nossa pele sempre se arrepia.

O reconhecimento dos cheiros, das penumbras pesadas, dos ruídos ínfimos que aos outros escapam, do som metálico do sino a chamar para as horas canónicas, continua a despertar a minha angústia. Desta vez, porém, o pior será encontrar Teresa vestida com o sombrio hábito das Bernardas.

Ou será a consciência de quanto ela me decepciona?

Lisboa, 30 de Junho de 1794

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Sempre que chega a Lisboa começa por visitar a Rainha, que a maior parte das vezes se encontra recolhida, devorada pela depressão, abrigada nas obscuridades frias dos aposentos reais, para onde as árvores, os arbustos altos, os maciços de flores e os juncos dos jardins estendem a sua asa de sombra, através das janelas onde dobam a luz coada e matizada pelo pesado odor dos lilases e das acácias, e o mais doce dos ananases, a entorpecerem o aroma ácido das laranjeiras e dos limoeiros.

É Mariana de Arriaga que a leva até junto de D. Maria, que a manda sentar à sua beira; e durante largo tempo Leonor, muito direita na cadeira, tenta amenizar o silêncio e o vazio que o olhar da Soberana guarda.

Mas que tempestade perpassa de súbito na fundura avelã das suas pupilas dilatadas? Que incêndio de imediato extinto? Que rasgão recôndito? Ou que temor vê esgueirar-se no olhar de morbidez triste da Rainha? Susto ou negrume ou afundamento de si mesma, sintomas nos quais muitos adivinham a demência, conveniente para quem nunca a quis como Rainha.

– Estou a queimar no Inferno! – imagina ouvi-la murmurar, e tenta escapar às aias e açafatas que a impedem de sair da câmara real, levando-a de volta ao seu cadeirão, a reclinarem-na nas almofadas de penas de ganso bordadas a ouro, pernas cobertas com as mantas de veludo, de novo aquietada e exausta, parecendo afundar-se numa lenta modorra.

Leonor, que durante a crise de D. Maria se afastara, torna a aproximar-se, medindo o próprio deslizar dos passos na penumbra, mas ao debruçar-se, encontra-lhe os olhos abertos e fitos no seu rosto. Desconcertada, sorri, e a Soberana estendendo a sua mão macia puxa-a para perto de si. E embora ultimamente se recuse a manter demorados contactos com as damas fidalgas que a rodeiam, interessa-se em saber da vida e da poesia da sua valida, que jamais deixara de proteger.

Admiradora da inteligência fina e culta da Rainha, mas perturbando-se diante dos desmandos da mente, Leonor impressiona-se com a tristeza mortal que lhe descortina na expressão do rosto envelhecido.

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Ao receber o recado enviado pela filha a dar-lhe conta da sua chegada a Lisboa, o marquês de Alorna, sem grande ansiedade nem saudade de estilhaçar o coração, que não seja da neta criada por ele e pela mulher, espera pelo dia em que as águas do Tejo estejam tranquilas para efectuar em segurança a «passagem de mar» e apertar ao peito Leonor Benedita.

Custa-lhe sair da quinta de Almada onde, descrente da Corte e do mundo, se isola; sobretudo agora, que acaba de instalar no mirante da casa um binóculo encomendado em França para olhar as funduras do céu que tanto lhe faltou durante os dezoito anos de prisão no forte da Junqueira, a sentir-se uma toupeira rastejando nas humidades fétidas do subsolo; cela imunda junto de um cano por onde eram despejadas as imundícies, enquanto as águas insalubres escorriam pelas paredes consumidas pelo tempo.

Ciente das asperezas e das «princesices» que ele julga reconhecer em Leonor, escreve a dar-lhe os motivos por que não se apressa a atravessar para a banda de Lisboa: a nortada do equinócio de verão feita de vento contrário e muito álgido, as névoas e as neblinas que da Barra se levantam na teima de taparem as águas turbulentas. «Talvez isso mesmo ainda faça embaraço amanhã», e mesmo, quem sabe, no dia seguinte. «Não fiques tu a tirar conclusões precipitadas, julgando haver em relação a vocês menos constância na minha maneira de sentir.»

Aliviado por ter airosamente adiado o encontro com Leonor, que continua a fazer-lhe frente, D. João lacra com cuidado a carta que seguirá por falua assim que amaine a tempestade.

Por seu lado, ficará aquietado no vazio das salas sem conforto. E se nessa noite amainar a borrasca, irá como sempre sondar a abóbada celeste na busca das estrelas e dos cometas suicidas.

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– Encheste-me o coração de sombra. Decepcionaste-me.

Teresa estremece ao ouvi-la, inclina-se um tudo-nada para ela e encobre o rosto com as mãos delicadas, nuas e finas.

– Deus sabe que sempre quis passar-te o cintilar da luz – responde com voz trémula, cautelosa e entristecida.

– Mas que claridade pensas tu ser possível ganhar-se dentro de um convento? – pergunta-lhe Leonor num tom agudo e áspero. E erguendo-se do banco onde está sentada, vira-se e afasta-se das grades que a separam da amiga, mal a reconhecendo naquela mulher macilenta vestida com um desbotado hábito de monja, a fazer-lhe lembrar outras freiras entretanto esquecidas, ou de quem desejaria não ter nenhuma memória.

De Teresa quereria guardar a imagem dos tempos de rapariga, quando eram unidas apesar da distância imposta pelo parlatório do convento de Chelas, num relacionamento agora impossível. Amargurada, recusa voltar-se para Teresa, tal como neste momento a vê: menosprezada por si própria, cabelos que adivinha escortanhados a fio de tesoura romba rente ao couro cabeludo, tapados pelo véu escuro que com o decorrer do tempo acabará por lhe vincar para sempre a testa alta.

Convento de Santos em Lisboa ou de São Félix em Chelas, qual é afinal a diferença?

– Todos eles mutiladores, amesquinhadores da vontade e da mente! Castradores da imaginação, Teresa, como tu bem sabes!

E Leonor sente o desgosto mudar-se em punhal no interior do peito, lâmina de aço cuja ponta afiada não consegue arrancar da ferida, ficando a envenenar o sangue da amizade.

Ambas silenciosas.

Palavras a embrulharem-lhes as vozes, as línguas, as falas, na pressa de calarem, de silenciarem aquilo que sentem.

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A Princesa Carlota Joaquina, ao dar conta da presença de Leonor na câmara da sogra, manda que a levem à sua presença. Desta vez, porém, tem especial empenho em falar-lhe, e enquanto espera bate impaciente com o pé calçado de cetim e brilhantes no tapete persa, considerando excessivo o tempo que ela demora a atender ao seu chamado. E ao vê-la chegar em passo lento, domina a custo o azedume que a invade, agarra-a pelo braço nu e, sem nenhuma explicação, arrasta-a consigo pelas alamedas das faias, das laranjeiras e dos limoeiros doces, fazendo-a ladear em seguida, quase correndo, o canal revestido de azulejos azuis e brancos.

Já na ponte sobre a ribeira do Jamor, Leonor tenta parar a ganhar fôlego, mas a Princesa do Brasil puxa-a pelo pulso enquanto diz: «Vamos, senhora Condessa, vamos depressa!», a empurrá-a à sua frente até à Casa Chinesa onde chegam ofegantes e suadas.

Na penumbra que as tolhe à entrada, Leonor queda-se interdita sem lhe seguir os passos mas, percebendo o tom agreste com que ela a chama pelo nome, entra cega de luz na sombra das salas, tacteando à volta a tentar acompanhar-lhe o fio da voz, mesmo assim a embater nas esquinas agudas dos móveis dos quais só distingue os vultos, até deparar com a Sala Vaga já inundada de sol que entra a jorros pela janela entretanto escancarada. Encontrando-a vazia, continua no encalce do português arrevesado, mesclado de espanhol, da Princesa, passa pela Sala do Café e por fim chega à Sala dos Livros, onde descobre D. Carlota Joaquina debruçada sobre a comprida mesa da biblioteca, na qual estão espalhados papéis, cadernos entreabertos. Sem entender cousa alguma Leonor pára, mantendo um calamento prudente que a Princesa do Brasil quebra, alvoroçada: