As Luzes de Leonor
Diário
Mas tu desconfias, sei que desconfias, das minhas mansas torpezas, dos meus vícios, das baixezas que na Corte de Portugal se levantam, sem eu saber como escapar de novo às cabeças da Hidra a fim de levar a bom termo o enredo desta minha história contigo. Necessitando de ti para não me afundar no mar de palha onde me afogo.
Mas eu sou água, meu amor, e tu és chama.
Por isso, se de ti me abeiro, de mim me afasto.»
†
DIÁRIO
Vejo Carlos Augusto a afastar-se sem remédio,
preferindo iludir a verdade a encontrá-la no fundo do meu olhar, no âmago das minhas palavras. Decepcionando-me mais a cada dia, com as suas pequenas fraquezas, a sua apatia e os encantamentos por amantes fáceis que não o merecem.
E há também as dívidas de jogo.
Até que ponto será ele irreparavelmente fraco?
Dúvida que acoberto, encobrindo-a e encobrindo-o. Na tarefa impossível de ocultar dos outros os seus ínvios desacatos, tentando ajudá-lo a recuperar o respeito perdido. Para mim, amar implica admirar esse alguém que me enleva.
Sinto-me tão desiludida que nem a poesia me salva.
Viena, 10 de Julho de 1782
†
Se Carlos Augusto muito é afrontado pelas intrigas e as invejas que contra ele se movem na Corte portuguesa, também bastante se diverte na capital austríaca. Leonor não tem conhecimento onde ele passa o tempo que em Viena lhe sobeja.
Ela sabe que o marido voltou às mesas de jogo e encontrou novos encantos, depois de Todi ter partido a caminho da Rússia. Aturdida, mas consciente de estar a afundar-se num desconcerto que a assombra, sente-se atingida pelo venenoso aguilhão da dúvida.
Sempre desconfiando, a perturbar-se inquieta, dá-se conta de um sentimento até então seu desconhecido, a trazer à tona uma inesperada faceta do seu carácter, que a incomoda e tenta esconder dos outros.
Acaba por ser Carlos Augusto a desmascará-la com regozijo:
– Tu és ciumenta!
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O bilhete que ele esconde à pressa no estreito bolso do colete de veludo preto é o recibo da dívida do jogo da véspera, que acaba de pagar. Sem poder provar ainda o que intui, Leonor tenta encontrar o olhar fugidio do marido, a querer confirmar, de uma vez por todas, aquilo que na realidade já sabe:
– Voltaste a jogar!
Carlos Augusto, aparentando severidade e surpresa mas na verdade inquieto, finge indignar-se com essas suspeitas que garante não serem mais do que delírios da sua mente desequilibrada pela gravidez.
A partir desse dia Leonor sente o sangue envenenado, o amargor da saliva grossa, a agonia funda, o vómito ácido retido a custo. Da poesia que escreve aproveita uns poucos versos, e nem esses guarda, sem entender o que se passa consigo. Os nervos esgarçados, as lágrimas à flor dos olhos, o soluço do choro a soltar-se do nó que o prende. O desespero assalta-lhe o peito opresso, e de tal modo lhe faz morada no coração, que este dispara num tropel revolto.
Quantos planos de glória traçados para quando lhe abrissem as portas do convento, e ei-la agora debatendo-se com amarguras e tristezas, sofrendo com mesquinharias que a envergonham.
Não será ela capaz de traçar o próprio destino?
Inconformada com o pouco que a vida lhe tem dado, sabendo do muito que para si deseja, lembra-se da confissão de Goethe: «Nunca pensei que alguma coisa tivesse de ser alcançada, sempre pensei que já a tinha.»
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A gravidez adiantada aprisiona-a:
embaraça-a, impede-a de ordenar o pensamento, de mover-se livre como gosta. Nunca foi tão pouco dona do corpo que lhe foge, nem da vontade entretanto perdida por entre dúvidas e incertezas.
Como uma nova clausura, encarregada de lhe apagar os sonhos.
Chegara a acreditar ter conseguido tomar nas mãos as rédeas da sua vida. Mas desse anseio, o que permanece afinal intacto?
Da poetisa dos sonhos, dos voos e da desmesura nada resta. No seu lugar encontra-se uma mulher céptica e amargurada.
†
Leonor sente-se arrependida de não ter ido à ópera com Carlos Augusto; a música faz-lhe falta. Não lhe basta tocar saltério todas as manhãs fechada no seu gabinete, onde pilhas de livros em desequilíbrio cobrem as mesas, sobejam dos armários e das estantes que forram as paredes, à excepção daquela à qual está encostada a sua cadeira de leitura, encimada por um belíssimo quadro de Sequeira.
A pintura aquieta-a mais do que a poesia. Talvez por isso pinte tanto desde que está em Viena: fizera de memória os retratos de Maria e de Maria Regina; captara em várias telas a magia dos tons misturados das águas do Danúbio; fizera um auto-retrato para mandar ao pai, tentando suavizá-lo, e outro da avó Leonor de Távora que escondera de todos, tal como um esboço do rosto de Gonçala, de quem tem saudades. Sobre a escrivaninha preferira no entanto pendurar duas aguarelas de flores de Maria Wilhelmine.