As Luzes de Leonor
Caderno
†
Reconheço em Goethe a minha essência revolvida.
Na sua escrita atrai-me tanto o rigor como o radical desafio da modernidade. Não sei, no entanto, se conseguirei chegar tão longe quanto ele.
Como mulher,
para ser tão ousada, teria de ir ainda bastante mais além,
descer, usando o fio de Ariane, até muito mais fundo.
Aqueles que me rodeiam pretendem sempre que me aquiete; e eu, tentando fazer-lhes a vontade, começo por não pisar o terreno movediço das ousadias.
Mas como fugir às paixões sem me recusar à vida?
Avignon, 12 de Janeiro de 1786
†
O conde da Ribeira Grande vê Maria esconder à pressa, no punho folhado a tule da manga esquerda do vestido, o papel que estava a ler quando ele chegara pela calada, e se fora aproximando do caramanchão dos lilases, a deslizar sem nenhum ruído, como fazem os ladrões pelos corredores das casas que assaltam. E quando ela por fim se apercebe da sua presença furtiva, vê-a ficar lívida, palpitando assustada como um pássaro, mãos trémulas a quererem emendar, dissimular o gesto inacabado, papel amarfanhado pelos dedos, na pressa de o impedir de perceber tratar-se ou de uma nova carta da irmã, de quem ele não gosta, ou de um poema feito às escondidas, porque a proibira de escrever poesia.
A luz da tarde coada pelo cachos pendentes de um roxo-azulado, a amansar os raios de sol, tempera-lhe o cabelo castanho-avelã, caracóis mal dominados pelos pregos de brilhantes e as travessinhas de prata, emoldurando-lhe o rosto macerado e sem cor, onde apenas brilham os olhos de um verde-musgo ponteado de ouro.
Prendendo-a pelo pulso magro, o conde da Ribeira Grande arrasta-a pela álea do roseiral, até ficarem longe dos olhares indiscretos. Então esbofetei-a primeiro e em seguida abre-lhe à força os dedos cerrados, unhas cravadas na palma macia, até lhe conseguir arrancar o papel, que desdobra, alisa, para descobrir, frustrado e enfurecido, estar em branco.
Com um ligeiro suspiro
Maria tomba desmaiada aos seus pés.
†
A influência do duque de Lafões e do arcebispo de Tessalónica protege Carlos Augusto das intrigas e das ciladas que lhe estavam preparadas na Corte pelos seus inimigos, mas não lhe dá acesso à Rainha, que recusa todas as audiências particulares solicitadas pelo conde, evitando qualquer encontro com ele nos salões e corredores do Palácio de Queluz.
Agindo desse modo, ela tanto quer calar a boca dos ministros e dos conselheiros que consideram as mulheres seres fracos e impressionáveis, prontas a ceder às chantagens sentimentais, frágeis demais para comandar os destinos do Reino, como evita escutar do conde argumentos que teme poderem amolecer-lhe o coração e abalarem-lhe a vontade.
D. Maria é conhecedora daquilo que se diz à boca pequena, por ter entregado ao conde de Oeynhausen o lugar de embaixador em Viena. Não quer pois arriscar mais nada, e o único modo que encontra para contornar o assunto é mostrar-se firme e distanciada.
Quando o genro do marquês de Alorna se rende à evidência de que a Monarca nunca o irá receber, procura Martinho de Melo e Castro que, depois de o deixar horas à espera na antecâmara do seu gabinete, não o atende.
Humilhado, Carlos Augusto volta-se para Aires de Sá e Melo, ganhando uma alma nova quando este o recebe, sem no entanto lhe querer escutar as explicações, nem atender os seus pedidos, aconselhando-o simplesmente a escrever uma carta onde enumere tudo aquilo que afinal pretende.
Engole de novo o orgulho e leva a noite a redigir um longo texto, que não irá surtir o efeito pretendido por Leonor quando o convencera a viajar para Portugal, a fim de esclarecer os equívocos, aclarar a turvação das águas, pedir ao erário público uma espécie de esmola para ele e a sua família viverem, e ainda dinheiro que o ajude a pagar as dívidas contraídas na Áustria.
†
Maria Ana Josefa
veste-se para ir nessa noite a um serenim no Paço de Queluz, mal deixando que a aia cruze e aperte os atilhos do espartilho, enquanto retém a respiração. Depois veste as saias de sombra e os saiotes de goma, a enfunarem a saia do vestido de seda rubra.
Por fim semeia de pequenos brilhantes e rubis o negro cabelo cacheado a tombar-lhe nos ombros nus, numa mistura de caracóis e canudos, decorando-lhe o oval do rosto. Num dos braços faz deslizar sete escravas de ouro, no outro a larga pulseira de esmeraldas. Nas pequenas orelhas põe os brincos de ónix com ametistas rosadas.
Enquanto ao espelho escurece com o lápis de carvão o sinal natural que tem junto aos lábios carnudos, avivados pelo carmim, rememora o plano arquitectado com a Princesa do Brasil, a fim de beneficiarem D. Leonor de Almeida. Fazendo com que o seu elegante e melancólico marido consiga chegar à fala com Sua Majestade, que com inesperada frieza se tem recusado a recebê-lo.
No entanto, mal entra na Sala da Música do palácio,
é abordada por D. Maria Francisca Benedita, que lhe murmura baixo, boca franzida em jeito de desagrado: «Nada feito, houve quem nos denunciasse! Minha irmã a Rainha não vai sair hoje dos seus aposentos! Cuide Vossa Excelência de negar mesmo a vosso pai, o nosso combinado…»
†
Muito amiga e amada
do meu coração
Venho dar-te novas do teu homem, que por aqui tem andado sob a minha protecção e a do nosso querido duque, num corrupio entre o Paço e os ministérios, aguardando que o recebam e o escutem, já que a Rainha, num alarde de prudência, tem preferido manter-se arredia dos assuntos respeitantes aos negócios que o teu conde aqui veio tratar. Desta vez, nem tu podes amaciar o coração de D. Maria, se ainda nem conseguiste adoçar o do teu Pai, que se recusou a apelar por vocês junto de Sua Majestade.
Mas descansa o coração aflito, pois ainda nada está perdido. Aguardemos a resposta que há-de dar o Aires de Sá e Melo a uma pormenorizada e sensata carta que, seguindo o seu conselho, lhe foi enviada pelo teu Oeynhausen. Entretanto, há outras pessoas a tomarem o vosso partido: é o caso da Princesa do Brasil e do bom arcebispo de Tessalónica, da tua fiel D. Mariana de Arriaga e… – dou-te um doce se adivinhares – da filha do visconde de Vila Nova de Cerveira, D. Maria Ana Josefa, que te conheceu na Corte de Almeirim no verão de 1778 e nunca mais te esqueceu. Todos nós muito tecemos e bordamos a teu favor.
Por isso, minha doce e alvoroçada, faz por ganhar alento. Pensa que esta terna e eterna amiga te conserva sempre no pensamento, e fará o que pode para que não sofras.
Beijo-te com todo o amor.
Constante e eternamente tua.
Teresa
Lisboa, 20 de Janeiro de 1786
†
Faz versos quando está em casa, escreve cartas.
No diário alinha confidências secretas em francês, e nos cadernos toma notas de ideias e de leituras, mistura pensamentos com metáforas e aforismos. A secretária, inundada pela luz da manhã, está colocada junto da janela que abre para o terraço debruçado sobre o canal onde correm as águas do tom verde-acetinado da folhagem dos sicómoros.
Philippe Tournier continua a nimbá-la com a aura dos seus poemas e, nos salões de Avignon, discutem, argumentam, debatem temas que vão dos sentimentos à razão pura, entregando-se Leonor ardorosamente à defesa das Luzes; mas quando torna a casa já depois de a noite ter caído sente-se invadida pela culpa, arrependida das ausências, das demoras, do tempo que não passa junto dos filhos. Insatisfeita, vive de inquietude em inquietude a tentar reencontrar-se, mas no dia seguinte volta a entregar-se ao estudo, à escrita, aos livros.
As meninas, habituadas a verem pouco a mãe, já deixaram de se queixar, mas quando ela aparece alegram-se, procuram o conforto tépido dos seus braços, e o menino, fraquinho, fica aninhado na fragrância do seu colo, a pele transparente e a respiração tão leve como um sopro de pássaro.
De noite, as insónias deixam-na exausta.
Toma láudano para não passar em branco as madrugadas: a ler e a escrever à luz das velas que, ronronando e crepitando, se vão consumindo com vagares de melancolia.
†
Sabe que não o ama,
mas precisa de encantamento, de enamoramento.
Leonor necessita da corte que Philippe Tournier lhe faz, do tapete de flores por ele estendido debaixo dos seus pés descalços.
Das rosas espalhadas na coberta da cama, ou da rama florida reunida por ele nas clareiras, debaixo das árvores, onde antes apenas existia a sombra.
Dos poemas, dos quais é única musa, paixão e desacerto de chama e trepadeira de luz. Em Philippe encontra a idealização da própria imagem, reflectida no espelho de água, de Narciso,
onde ela se debruça.
Há também a partilha dos instantes raros, quando a voz parece apenas murmurar e nunca fala.
«Sotto voce»…
†
Quando acaba de ler a longa e fastidiosa carta do conde de Oeynhausen, em vez de se regozijar como esperava, Aires de Sá e Melo sente-se perplexo com a sua exposição despojada, com a sua desvendada, óbvia e admitida fraqueza. Tem consciência de que a partir dessa altura lutar contra ele deixa de ter graça; portanto não o quer mais à porta do seu gabinete, nem ouvi-lo pedir o que não pode nem quer dar-lhe. Ou seja, humilhá-lo não faz mais sentido. Então, pega na carta do conde e remete-a a Martinho de Melo e Castro, acrescentando umas poucas palavras suas a fim de explicar a decisão do envio:
«Lisboa, 22 de Janeiro de 1786
O conde de Oeynhausen depois das representações que levei à presença de Sua Majestade e de ter vindo aqui todos os dias lamentar-se, me escreveu ontem a carta que por me compadecer, e livrar-me dele, remeto
inclusa a V. Ex.a, rogando-lhe a queira apresentar à mesma Senhora e só mencionar-me a Sua Real determinação a tempo de o conde não perder a comodidade de recolher-se ao navio que está a sair de Toulon.»
Desse modo, Aires de Sá e Melo, percebendo que o conde de Oeynhausen nunca lhe fará sombra, e que ser responsável pelo desastre do genro do marquês de Alorna, apesar das desavenças de família, está longe de lhe convir, lava as mãos como Pilatos.