As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 225 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

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Vinda dos anos passados em Almeirim a cumprir o luto por Carlos Augusto, embora céptica e sem dinheiro para manter a casa e a família, sinto-me disposta a recomeçar a vida, pela primeira vez sem ter de dar satisfações a ninguém.

Deixou-me a sua morte coberta de dívidas e sem recursos para as honrar, mesmo estando disposta a vender quadros e jóias, como já fiz algumas vezes.

Dependo, pois, das ajudas do meu pai, que não perde a ocasião para me pregar sermões sobre comportamentos e ideias, a querer passar-me como sendo boas apenas as suas razões e vontades.

Cada vez mais distantes ficam os empolgantes dias vividos por mim em Paris, por entre os primeiros vendavais da liberdade.

Lisboa, 18 de Março de 1795

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Tal como João Ulrico e as filhas pequenas, Leonor ressente-se das penumbras fechadas e dos espaços estreitos onde parecem querer entranhar-se os cheiros de pestilência que atravessam a cidade e cercam a casa da Rua da Boa Morte, na qual voltaram a morar. A dar conta dos miasmas que se esgueiram por entre as cercas e as grades do portão de ferro trabalhado, indo refugiar-se na penumbra dos corredores, nas salas e nas alcovas, depressa ganhando a copa e a cozinha; para logo partirem na direcção do oratório fechado por cortinados de veludo sanguíneo e franjas douradas, e já lá dentro a aconchegarem-se nas roupagens ricas dos santos, embaciando os adornos macerados pela luz das velas e das lamparinas de azeite de pavio chamuscado.

Todas as tardes as criadas acendem defumadores e braseiros, onde queimam alfazema ou alecrim para perfumarem os quartos e as salas. Entreabrem as gavetas das cómodas e as arcas a confirmarem o rosmaninho seco guardado no seu fundo. Escancaram também as portas dos armários dos mantéis e da roupa branca, a arejarem os lençóis de cama de linho bordado a cheio, bainhas abertas feitas com linha de seda, adormecidos há muito nas prateleiras forradas.

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Tentando fugir à apatia, aos silêncios cortados pelos atropelos dos filhos mais pequenos, ao esquivamento ressentido de Leonor Benedita, ao olhar curioso e irónico de Frederica, assim como ao silêncio de Henriqueta e ao riso nervoso de Juliana, Leonor passa muito tempo na Corte, apesar de esta continuar um marasmo, onde pouco ou nada mudara.

A Rainha D. Maria esconde a depressão e os pesadelos fechada nos aposentos reais, a Princesa Maria Francisca Benedita tenta ultrapassar a dor pela morte do Príncipe D. José seu marido, com a protecção à cultura e a construção do Hospital Real dos Inválidos Militares de Runa, a Princesa Carlota Joaquina diverge e conflitua com o Príncipe D. João que, desejando furtar-se ao seu convívio, passa os dias ora em Mafra, caçando na tapada e ouvindo canto gregoriano, ora embrenhando-se no interior mosqueado do palácio de Queluz, conhecedor da preferência da mulher pela ardente rutilação dos jardins, na companhia turbulenta das suas damas espanholas, das infantas bizarras e melancólicas, das fidalgas desconfiadas, que temem ciladas, intrigas e até desatinos.

Em dias de maior calor, a Princesa do Brasil refresca-se com os jogos ensolarados da água dos lagos, das cascatas ou dos repuxos das fontes, cabelos negros soltos em caracóis crespos e indóceis tombando ao longo da pele morena das costas nuas. Vestidos com decotes generosos, deixando adivinhar os bicos breves dos seus seios altos, ancas secas e febris no requebro dos boleros que ela torna sedentos; mãos nervosas a erguerem as saias, permitindo antever os tornozelos delgados.

Durante os crepúsculos mais demorados reclina-se com languidez em almofadas de seda e de shantung, envolta em xailes e echarpes cor de fogo ou de rubi, a condizerem com as pulseiras de topázios e granadas,

rolando ao longo dos seus braços.

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A convite dos velhos marqueses de Marialva, Leonor vai tomar chá ao Palácio do Bom Sucesso em Belém, onde conhece William Beckford, um belo homem inteligente e excêntrico com quem mantém um diálogo tão agradável quanto inusitado. Fascinando-a por isso, mas também por alguns mistérios que dele lhe foram contados, pelo seu bom gosto e vasta cultura, veneração pela música de Haydn, que admira mais do que Mozart, certamente por este ter sido seu mestre de piano.

Na conversa que corre veloz há o tom de um certo despique entre ambos que cala todos à sua volta, atordoados pela vivacidade, para eles invulgar, que os mantém afastados. A dada altura Beckford convida-a para o ir visitar à Quinta de Monserrate, em Sintra, onde se sabe ter construído um verdadeiro paraíso de beleza, exotismos e requintes.

Fantasiados por ela.

Leonor está em crer que, ao colocá-la diante da escandalosa ousadia que em Portugal um tal convite representa, ele a desafia. Aceita porém o repto sem hesitar, em vez de, por mero decoro, declinar a proposta. Atitude que ocasiona discretos sorrisos maldosos em redor da mesa e o olhar escandalizado da velha marquesa de Marialva, enrodilhando no regaço o terço de pérolas e topázios que traz sempre enrolado no pulso.

Mas Beckford logo encontra maneira e tema para desviar dela a atenção das fidalgas e fidalgos presentes, impedindo que Leonor seja por mais tempo o centro das suas mentes retrógradas, enquanto o chá vai arrefecendo nas chávenas esquecidas sobre a toalha bordada a ponto de cruz posta na mesa do largo terraço debruçado sobre o Tejo.

Encantados, Leonor e Beckford ficam a gozar a aragem tépida, por entre conversas entrecortadas de silêncios, enquanto admiram o sol incendiado a pôr-se no horizonte por trás da Torre de Belém, onde as águas misturadas do rio e do mar se entretecem numa aparente placidez. As barcaças, as faluas e as galeotas passam muito perto, num ruído golpeado de água que se fende.

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O abade Correia da Serra, que já não vê Leonor há meses mas não esquecera o grato relacionamento de ambos durante a longa viagem de Marselha até Portugal pouco tempo antes da revolução francesa, sente grande satisfação quando a partir da primavera ela volta a frequentar com assiduidade a Academia Real das Ciências, de que é secretário-geral.

Depois ou antes das sessões retomam o hábito das longas conversas e discussões amenas, onde tão depressa divergem nas ideias e no gosto literário, como convergem nos princípios, no amor às letras e às ciências. A unirem-se, também, na repulsa pelos carrascos e tiranos, ambos odiando Pombal. Falam ainda da França revolucionária que, embora de maneira diversa, os marcara para sempre.

– Nunca mais voltei a ser a mesma – acaba Leonor por confessar, expondo-lhe algumas das suas dúvidas, dos seus medos, das suas ambiguidades em relação ao que vira e vivera naquela altura. Ele escuta-a com admiração, respeitando-a pela franqueza, e a partir de então ficam mais amigos, mais unidos.

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Procura com assiduidade a amenidade de Teresa, indo visitá-la à grade do Convento de Santos, a tentar enganar a falta da sua companhia. Saudades que, afinal, não consegue mitigar na dormência e no apagamento do parlatório, que parece ter o dom de retirar a vivacidade às conversas das duas.

No entanto, tempo já houve em que a situação fora oposta: ela do lado de dentro das grades e Teresa no lugar de fora delas, sem que alguma vez lhes tivesse faltado o alvoroço ou o entendimento mútuo e único.

Agora é na companhia de Catarina que Leonor amaina as angústias, expõe as dúvidas e, discutindo, reacende a criatividade. Em tardes demoradas com a amiga na pequena sala de trabalho tépida da casa desta na Luz, enquanto bebem licores ou chá de rosas-da-china, tocam saltério e recitam versos, a escutarem as confidências uma da outra, histórias contadas entre risos e palavras segredadas que lhes põem um brilho incendiado nos olhares. Leonor fala-lhe dos medos e dos sonhos entrelaçados, atados uns aos outros pelo mesmo laço de faltas, ausências e perplexidades, que num acinte lhe invadem as noites em claro.

Ambas aninhadas numa languidez sussurrada e melancólica, enquanto Catarina fuma cigarros furtivos que faz com cuidado, a envolver, rolando e enrolando, o tabaco nas mortalhas quase transparentes. Às vezes passa-os a Leonor, que se os aceita, a quebrar hábitos e ditames da sua educação, logo se arrepende; não por ter infringido as regras ditadas pelo marquês de Alorna seu pai, mas porque os cigarros lhe deixam a saliva grossa, e na boca um gosto toldado, um sabor a tédio e a equívoco que até então desconhecera.

Tenta amenizar a náusea, trincando amêndoas e chocolates, que tira dos pratos de cristal dispostos nas mesinhas de pau-santo, ao lado das taças por onde bebem o espumante. Às vezes lêem poemas em voz alta, ou dormitam um tudo-nada.

Muito ao de leve, como fazem os pássaros.

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Em cada mês que passa, Henriqueta de Alorna teme encontrar a decepção no olhar de Pedro; quisera ela poder negar a chegada das regras, das nódoas sanguíneas no lençol, das manchas nas saias, do mênstruo a sujar-lhe as coxas onde se amparam os panos ensopados. Porque o cheiro a verdete do sangue, esse ela trava, tapa, dissimula, limpa com a água de rosas com a qual se lava em segredo, e em seguida ainda ilude com perfume de nardo, a imitar a cunhada tão livre no seu pensamento, comportamento de viúva despegada dos usos e costumes portugueses que só servem para oprimir a vida das mulheres.

Supersticiosa, Henriqueta de Alorna faz tudo o que lhe dizem ser indicado para ganhar barriga: usa alecrim queimado à hora de se deitar, a defumar-lhe os cabelos soltos nas horas de sono, põe raízes angélicas debaixo do travesseiro e pluma lívida de asa de cisne em cima dos seios.

E sem conseguir entender o que pode levar Deus a condenar uma mulher à secura do ventre, roja-se de borco nas humidades do chão da capela, manda dizer missas, faz promessas, reza terços de opalas com águas-marinhas e ave-marias por cada uma das horas canónicas; usa mezinhas e unguentos, acende velas votivas com o seu próprio tamanho, ao longo do qual correm grossas lágrimas de cera.

Ao verificar que nada surte efeito, Henriqueta de Alorna resolve, às escondidas de Pedro, procurar Lilias Fraser, estranha vidente que, temendo adivinhar a morte de quem olha, não fita ninguém na fundura dos olhos. Mas deita cartas, sabe ler nas folhas de chá e na palma da mão onde as linhas cruzadas ditam o destino.

Na penumbra da sua casa à beira da floresta, Lilias Fraser desliza os seus dedos no ventre liso da condessa de Alorna, faz-lhe cruzes com o seu cuspo: na testa, nos lábios ressequidos e ao longo do osso púbico; ferve ervas daninhas juntamente com pétalas de rosa, dá-lhe poções em frascos opacos, elixires mágicos em garrafas de vidro.

Ensina-lhe a fazer desabrochar o corpo.

A partir dessa data, Henriqueta de Alorna dá por si a desoras da noite, meia despida e descalça, envolta nas penumbras do corredor, deslizando furtiva até ao quarto do marido a procurá-lo na cama revolvida onde deita a sua nudez febril, num despudor que instiga e excita Pedro, a ouvi-la gemer com languidez de desmaio, sôfrega de desejo que, seduzido, ele tenta aumentar, penetrando assombrado o seu sexo escaldante. Ela sente entrar no seu corpo o pénis erecto e, como nunca antes o fizera, entrega-se de olhos fechados para fugir à impiedade da expressão do rosto dele, a ignorar-lhe o olhar de quem não ama.

Mesmo assim Henriqueta de Alorna não se importa e deixa-se ir no gosto, no gozo, na fruição enlouquecida, com um gemido rouco que se torna clamor durante os longos orgasmos em que os dois se vêm. Unhas de loba a marcarem as costas, os ombros e o pescoço de Pedro; ou garras de animal alado, rumorejando em surdina para não assustar a presa. O grito e o uivo recolhidos mas deslizando já nos recantos da boca voraz com que o beija, a lâmina dos dentes rasando, demorando-se na garganta muito pálida, vulnerável, e depois na comissura dos lábios.

Língua a matar a sede com a sua saliva.

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Ilustríssima Senhora

Condessa de Oeynhausen

Sinto-me neste momento incapaz de maior feito que o de escrever a V.

Ex.a em vez de procurar-vos, embora as saudade e a ânsia de avistar-vos sejam muitas, já que há anos não vos olho nem chego à vossa fala.

Vindo da Índia onde passei um tempo largo e por demais pesado, aportei a Lisboa há poucas semanas com o pensamento em vós, D. Leonor, sonhando conseguir satisfazer em breve a minha ousada aspiração de podermos estar junto um do outro.

Tão desesperadamente vos amei e tanto admirei vossos poemas, que continuo a guardar aqueles que me destes, mantendo-os junto ao meu coração que por vós continua a sobressaltar-se. Chegámos a estar, creio, tão perto um do outro, que ainda agora estremeço com tanta loucura suposta, devido às promessas por nós trocadas… E nunca a minha memória vos traiu esquecendo-vos, senhora dos meus sonhos. Se parti, afastando-me de vós, foi contra a minha vontade.

Soube de vossa viuvez e por isso me atrevo a escrever-vos esta carta, que eu desejaria pudesse ser lida com a tolerância e com a brandura de que vos lembro capaz, entendimento aberto aos meus sentimentos e às minhas crescidas palavras de desvelo e admiração. Tenho consciência dos anos que entretanto passaram, inexoravelmente, mas não creio ter o tempo mudado o carácter de alguém que conheci disposta a escutar e a respeitar o pensamento e os sentimentos alheios.

Do convento de Chelas guardo perturbantes recordações de afectos trocados e de jogos de amor camuflados de recato e inocência, num mesmo insuspeitado abraço.

Quem conseguiria ultrapassar o talento e a argúcia de Alcipe?

Quem ousaria impedir o seu arrebatamento, aquietando-a, nervos acesos à flor da pele?

Mantive-me eu fiel a esta vossa imagem, mesmo quando longe a lembrei em verso e nada mais, porque nada mais me era permitido sequer imaginar, depois de ficar a saber do vosso casamento por uma carta amargurada enviada por Filinto Elísio.

Troçava ele do conde vosso marido, enquanto eu chorava de desgosto por vos ter definitivamente perdido. A partir dessa data apenas me restava a liberdade de continuar a lembrar-vos: olhos de cinza-azulada, cabelos de seda na ponta dos meus dedos a insinuarem-se por entre as grades até vós, esquiva, contentando-me eu com o perfume arrepiado do vosso hálito e a crispada chama de vossos pulsos ardentes; do vosso riso alto e solto, contrariando a contenção do gesto, espiado pela senhora vossa Mãe e pelas freiras por conta da madre abadessa, que por seu lado tinha de prestar contas ao arcebispo de Lacedemónia.

Temo mostrar-me por demais arrebatado para quem partiu para o Brasil há perto de vinte anos, sem na altura vos contar cousa alguma, quando na verdade já então me sentia por vós afastado com frieza distante. Não quis o destino condoer-se de mim serrando as grades do parlatório que tanto nos separaram. Mas por vontade de Pombal outras piores desgraças me esperavam… Acabei fugindo, ao aceitar o lugar de desembargador que me ofereciam na Bahia. Dez anos mais tarde mandaram-me para Goa, onde permaneci no maior desânimo durante oito anos.

Eis-me finalmente de volta a Lisboa, tentando encontrar motivos de esperança e de felicidade. Por isso vos demando, D. Leonor, permissão para tornar a encontrar-me convosco.

As rosas escarlates que junto a este bilhete transportam consigo a chama da paixão acesa daquele que vos admirará e amará para sempre.

De Vossa Excelência atenciosamente

Sebastião José Ferreira Barroco

Lisboa, 22 de Junho de 1795

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Convida-o a visitá-la em sua casa.

Quer mostrar-lhe os filhos, as pinturas e os desenhos que entretanto fizera, o amontoado dos versos entretanto escritos, a calmaria dos gestos, a biblioteca vasta, a aparente serenidade do seu escritório; assim não lhe mostrando dela somente os anos que passaram, a expressão melancólica, o sorriso desencantado, a impaciência que os ombros acusam, as rugas finas que começam a marcar-lhe a pele suave.

Leonor tenta reconstituir a imagem que a sua memória teria guardado dele: as feições, os traços, o tom de voz e dos olhos, a tonalidade da tez. Mas apenas lhe lembra as mãos longas e pálidas, as unhas amendoadas, e talvez a tristeza entornada do olhar. Para além do nome aziago, Sebastião José, pelo qual jamais o tratara.

Desconfiada consigo mesma, nervos à flor da pele, coração descompassado, recebe-o vestida de branco com rendas que parecem de espuma, cabelos ondeando nos ombros a descoberto, pulseira de topázios e ametistas no pulso estreito. Debruçada nos livros, mais Alcipe de Filinto Elísio do que ela própria, mas sem grades por trás das quais se defender, nem sonhos por resgatar.

Ou promessas possíveis.

Não encontrando nele o que, ao vê-lo, de súbito recorda: a madeixa negra e rebelde desarrumada na testa, a expressão trocista, os dentes brilhando por entre os lábios, as olheiras fundas, o corpo esbelto que a capa negra, entreabrindo-se, permitia antever na dúbia claridade do parlatório.

Pela primeira vez sozinhos e próximos, fitam-se sem pressa, Ferreira Barroco pálido e de respiração suspensa, Leonor fingindo-se serena e desprendida, a tentar esconder a decepção sentida diante daquele homem trémulo e envelhecido, surgindo de um passado demasiado recente, como para desmentir o jovem ousado com quem chegara a sonhar, doendo-lhe a sua falta quando deixara de comparecer aos outeiros ou às conversas na grade, e em seguida partira a caminho do Brasil sem um aceno de despedimento.

No espelho do olhar dele, ela adivinha-se menos bela, menos audaz e inatingível. Mas, no espelho do olhar dela, quem está reflectido é um homem banal, franzino e grisalho.

Ambos diante da perda: da perdida idealização um do outro.

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Quando, entre as horas canónicas nocturnas, o convento parece adormecer, Gonçala sai da sua cela guiada pela claridade esvaída da lua, e vai descalça até ao antigo quarto de Leonor, que permanece vazio, para se ir deitar na estreita cama desfeita a buscar no seu colchão e na única coberta dobrada à cabeceira de ferro o perfume do corpo da amiga.

Embrulhada no xaile de lã fraca e esfiapada na bainha, ela treme da febre que de madrugada sempre a consome mas também a liberta, desobrigada pelo médico e dispensada pelo confessor dos terços, das rezas, das tarefas pesadas. Afastada da companhia das monjas, que por seu lado a evitam desde que começara a vomitar sangue, golfadas rubras a mancharem-lhe o hábito, o véu, a sujarem o chão da capela ou a toalha alva da comprida mesa do refeitório que entretanto deixara de frequentar. Desse modo pode dar-se ao luxo de se ir extinguindo devagar, sem que os outros se apercebam.

«Estou a morrer e ninguém dá por isso» – costuma pensar com alguma amargura, mas também com alívio.

Entretanto Leonor deixara de comparecer à grade.

No começo, Gonçala ainda lhe escrevera, ainda se queixara, ainda lhe pedira que a visitasse, viesse até ela a fim de a salvar ou de ajudá-la a perder-se… qual a diferença? Perdida está ela, sentenciada pela boca do físico, e isso até lhe dá – que triste! – um certo prazer mórbido onde de bom grado se afunda.

De bruços na enxerga fria, acaba por adormecer delirando, e nesse desvario julga conseguir por fim trocar o cheiro a bafio e a bolor das humidades de um inverno impiedoso, que ali parece baixar todos os rigores, pelo perfume a rosas e nardos. E quando os primeiros alvores do dia tingem o céu regressa deslizando e cambaleante à sua cela. Como uma fantasma – pensa –, lembrando-se daquela frase que Leonor mandara por carta a seu pai, e ela jamais esquecera: «A virtude é um fantasma nestes sítios.»

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Pressionada por Catarina de Lencastre, envolvida por Joana Isabel Forjaz, convencida pelos argumentos razoáveis da Princesa Maria Francisca Benedita, aconselhada por Teresa de Mello Breyner e por Pedro, mas também para fazer frente ao Pai que é contra a decisão dela, Leonor acaba por abrir a porta da sua casa às quintas-feiras, propondo-se receber os melhores nomes da ciência e das artes.

Os sábios – diz-se. Sobretudo os poetas.

Pina Manique, alertado pela desconfiança, volta a mandar os habituais esbirros seguirem-lhe os passos. E quando chega a noite da primeira assembleia, o Intendente-Geral da Polícia manda tomar nota dos nomes dos frequentadores, seus títulos de nobreza quando existam, da hora de chegada e partida de cada um. Enquanto, na sua sege, espia pela nesga entreaberta da pequena cortina de seda malva que os dedos enluvados de preto erguem um tudo-nada, com curiosidade comedida.