As Luzes de Leonor
Diário
Mais tarde, frei Rafael de Lorena reconhecerá para si mesmo, em segredo, ter-se perturbado ao senti-la inclinar-se junto do seu ombro a fim de pegar no neto, densa fragrância de nardo a escapar-se do decote fundo.
Inquietantemente jovem, no vestido rosa fúcsia.
Talvez por isso a voz dele tenha tremido um pouco, havendo nela um encoberto veio dissonante, quando disse em surdina:
– Eu te baptizo, José Trazimundo…
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DIÁRIO
Há quanto tempo já ele partiu?
Há quantos meses? Há quantos séculos?
Tento aparentar uma serenidade, uma tranquilidade que não sinto, continuando o sobressalto da paixão a empurrar-me para o assustador centro da sua voragem feita de vertigem. Sem conseguir mitigar as saudades de Henri, nem enganar a ferida aberta pela sua falta!
Admitir e confessar a mim mesma amá-lo é muito pouco: preciso de partir, de voar ao seu encontro, para tornar a beber o gosto da vida no odor macerado do seu hálito, no travo febril e ardente da sua boca. Pondo fim à dor que a falta do seu belo corpo voraz e sequioso me provoca.
A fazer lembrar a dependência viciosa dos fumadores de ópio…
Como se a sua paixão fosse o ar que respiro.
Lisboa, 26 de Fevereiro de 1802
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A Princesa Real Carlota Joaquina, vinda do parto da infanta Isabel Maria e da morte do príncipe Francisco António Pio, seu filho primogénito, exige a presença constante de Leonor de Almeida na sua nova qualidade de dama de honor.
Incumbe-a de fazer os estatutos da Real Ordem das Damas Nobres de Santa Isabel, com o intuito oculto – ao invés do que imaginara o Príncipe Regente ao assinar o decreto da sua criação – de com ela conseguir algum do poder que lhe é devido, dado que continua a ser-lhe negada a participação nos assuntos do Reino.
Habilidosa e matreira, a Princesa irá tentar, então, encaminhar as coisas de modo a que
a Real Ordem das Damas Nobres de Santa Isabel
acabe por lhe atribuir «um maior peso e autoridade dentro da vida da Corte», pois tendo ela como fim atribuir privilégios às melhores damas da nobreza, passará a garantir-lhe o apoio das mais ilustres fidalgas portuguesas, desejosas de serem agraciadas. Isto só irá aumentar a popularidade e fama de vivacidade e determinação da Princesa do Brasil, o que, em contraste com a apatia e o aparente desinteresse de D. João, poderá ajudá-la em relação aos seus anseios políticos.
Servindo-se também de Leonor, enquanto sua conselheira e mediadora, para a benquistar junto do marido, desbravando e abrindo caminho no sentido de amenizar as relações de ambos. Desse modo leva-a consigo para onde quer que vá, passa longos dias no Palácio de Queluz ou na Real Quinta de Caxias ou mesmo no Palácio de Mafra onde Leonor fica lendo e estudando até tarde, a querer chegar mais longe no conhecimento e entendimento do Mundo: a misturar a literatura com a geometria, a álgebra com a matemática e a poesia, numa insatisfação permanente.
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