As Luzes de Leonor
Diário
Também pode acontecer Leonor dar primazia a obras de ciência: tratados de botânica, de física, de matemática ou de geografia. Pára fascinada diante de Conversações Sobre a Pluralidade dos Mundos, de Fontenelle, e compra o Systema Naturae de Lineu.
Algumas vezes a condessa de Lumiares também aparece, com jeito de sonsa, sempre alegre e trocista com o seu ar de menina, vestido de cassa lavrada cor de cereja aberta, solto na cintura, chapeuzinho de palha enfeitado com amores-perfeitos nos caracóis macios dos cabelos castanho-claros, talhe requebrado levando a que todos a olhem. Distraída, percorre com os dedos afuselados as lombadas dos volumes no alinhamento das prateleiras altas das estantes corridas, preferindo, no entanto, ir vistoriando os livros dispostos em pilhas nas mesas empoeiradas.
A procurar poesia.
Presa dos enredos dos mares, dos portos, dos continentes, das areias das praias, Leonor não parece escutar o que elas vão falando, prisioneira já da Geografia desfolhada com avidez, querendo poder fugir para longe.
Nessa fuga supondo-se livre.
Sensação de independência e desafogo que sempre lhe empresta a aventura e o risco contidos em cada novo país desconhecido à sua espera.
Sentindo-se uma mulher diferente em cada viagem.
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DIÁRIO
Atemorizados com a minha presença, os ministros continuam a evitar-me, recusando-se a receber-me. Provincianos e cobardes, receiam escutar aquilo que já comuniquei a Sua Alteza Real e terem de agir em conformidade, o que na verdade «significa falta de engenho e falta de ciência do estado político da Europa».
Há quem me considere perigosa e também quem me diga visionária por querer salvar a Pátria portuguesa, mas há igualmente quem se ria nas minhas costas, querendo colar-me a imagem daquela a quem não se pode dar crédito, devendo por isso ser afastada.
As sombras adensam-se em torno da minha casa da Rua da Boa Morte. Assustada, vejo-me a esbracejar em vão, sem poder deixar de lutar por aquilo em que acredito, tentando encontrar o caminho mais hábil para combater o despotismo que sempre sufocou as nações.
Só a poesia me dá algum alento, pois mesmo com as minhas amigas e meu irmão brigo, desconcertando-me comigo própria. E apesar de muitos serem os motivos desencorajadores, todos os dias persisto: saio de casa cedo e fico esquecida, esperando inutilmente nas antecâmaras dos ministérios, sentindo-me transparente aos olhos de quem se recusa a receber-me.
Sabendo-me considerada uma ameaça.
Afinal, em nada do que pretendo se acoita o perigo.
O problema são as oscilações do Príncipe Regente. Umas vezes concorda com a minha partida pela Europa, munida de passaporte diplomático e credenciais assinadas por ele ou pelos seus ministros, autorizando-me a poder tratar, em nome da Coroa portuguesa, do que haja a fazer frente ao perigo que Napoleão Bonaparte representa; outras vezes, timorato, D. João recua, adiando o que já parecia estar resolvido.
Lisboa, 10 de Setembro de 1802
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Cansados da corrida a galope de Lisboa a Almeirim, com breves paragens nas postas para a muda de cavalos, Pedro e Leonor chegam pelas ave-marias à quinta dos Nabais, chamados à pressa por Henriqueta que estava a cuidar do sogro.
Ao ouvir a carruagem, ela aparece a correr para abraçar o marido, tentando evitar os olhos dele e os da cunhada, sem saber como lhes dar a notícia do estado, sem nenhuma esperança de salvação, do marquês de Alorna.
– Está desenganado pelos médicos –, acaba confessando, ao ver Pedro tirar a capa da farda coberta do pó da estrada e Leonor começar a dirigir-se para o quarto do pai, o rosto crispado e extremamente pálido. – Ele morreu? – pergunta, e a voz dela é um sopro, de tão fraca.
– Não, mas está agonizante. E não se pode fazer nada.
Leonor senta-se na cadeira mais próxima, incapaz de dar um passo, lábios de súbito secos e boca sem saliva, respiração áspera e revolvida, opressa. E quando, lívido, Pedro lhe pede companhia para ir ver o pai, limita-se a cobrir a cara com ambas as mãos em leque, uma a par da outra, recusando a claridade do mundo.
Dizendo de um modo estranhamente claro e rígido:
– Vá andando o mano, que eu já o apanho.
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Morrestes sozinho, não vos fechei os olhos.
E quando dei conta da farpa da minha dor, foi para me confrontar com recônditos e emaranhados sentimentos, reconhecendo neles o travo do veneno da taça que tantas vezes me chegastes aos lábios. Sopro da vossa aspereza, meu Pai, da vossa frieza, do vosso lume extinto. A contaminarem-me com uma secura e um desapego tão gelados que me faziam tiritar de frio. A precipitar-me na tempestade que me arrasava-arrastava consigo. Memórias a trazerem-me de volta questionamentos, dúvidas, friagens desencadeadas pela vossa severidade.
O rigor absoluto: penhasco no meio do oceano do vosso peito.
Morrestes sozinho, não vos fechei os olhos.
Mas nesse relembrar ou retorno ao início, confronto-me com os dilemas postos pelo meu amor de filha, todo ele feito por vossas imposições e minhas faltas de obediência cega e escrava, ou ainda revolta da penitente que jamais fui. De filha que não acata mesmo se empurrada. Aturdida diante da vossa morte, porque para sempre vos perco, vendo meu Pai afastar-se sem expiação nem arrependimento de cousa alguma. Remoendo ainda negrumes e ressentimentos azedos e amargos, que mesmo na hora do vosso passamento me neguei a escutar.
Nunca fui Orfeu e sim Eurídice.
Morrestes sozinho, não vos fechei os olhos.
Sem agarrar vossas mãos nas minhas.
Rememoro-vos a teima de me comandardes a vida, mudando-me numa correnteza de rio; recusei-me às juras de docilidade que jamais pretendi cumprir, sem sequer simular reconhecer-vos o direito e a autoridade para me determinardes a existência no sentido contrário ao por mim pretendido. Destino de submissão a que fui escapando, negando-me à vossa autoridade: filha insubmissa e desobediente, conduzindo o relâmpago que alumia as escurezas das cavernas e grutas de vosso peito e sentir.
Ainda não perdoei ao Pai prepotente que fostes.
Morrestes sozinho, não vos fechei os olhos.
Sem inclinação de ternura em relação a quem sempre me foi astuciosamente manipulador ou ostensivamente hostil. Arrasto comigo a mágoa dos nossos desafectos e desertos onde não existem oásis. Para quem guardastes o sorriso amável? Depressa aprendi a encobrir diante de vós os melhores anseios, afastando-me, cautelosa, dos vossos silêncios, que aprendi a interpretar como sinais de tempestade. Morrestes como vivestes: agreste, cruel e duro.
Conheci o lobo da tua escuridade.
Morrestes sozinho, não vos fechei os olhos.
Pai de quem me defendi, nó cego dado no sítio do meu coração a rebelar-se. Desconhecestes a filha que tínheis, imaginando-me fraca quando era forte, e titubeante sendo determinada. A fingir desamar-vos ao apunhalarem-me vossos agravos e desapegos, nunca tentando encobrir a vossa falta de carinho. Por isso eu sou uma especialista no entendimento dos espinhos, das garras, dos cardos, das farpas. Sendo sempre demasiado tarde para nos reconciliarmos Pai, pois mesmo hoje, ao não aceitar o meu luto, estou a amotinar-me com acinte.
Desafiando-vos. Desentendendo-me.
Morrestes sozinho, não vos fechei os olhos.
Afastado de mim, com ofensa de tudo o que da minha pessoa partia. Sem jamais me terdes relevado
a Poesia e as Luzes.
Morrestes meu Pai sem ser possível fazermos as pazes.
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Quando tem presságios ruins, Lilias Fraser vai até ao portão da casa de Leonor, querendo vê-la, e mesmo de longe tranquilizar-se a seu respeito. Desde que se conheceram na copa da cozinha do convento das Inglesinhas, ela não mais lhe saiu da ideia. E mesmo sabendo-a trancada no convento de Chelas, rondara por perto, necessitada de voltar à sua presença.
Como se ela a completasse?
Não consegue explicar. Mas sempre que se aproxima de Leonor sente-se mais inteira, indivisa, completa.
Intacta.
Quando naquela manhã se apercebe da pele macerada da sua tez pálida e da pressa angustiada com que entra no carro, acompanhada pelo irmão, Lilias estremece diante da sua perturbação, sabendo de imediato para onde a carruagem se dirige. E quando, por sua vez, chega à Quinta dos Nabais, numa madrugada de neblinas e sussurros, encontra já o ar limpo do peso do luto, das agonias e das aflições que estilhaçam a alma das pessoas.
Escondida entre as árvores que ladeiam a casa, senta-se na caruma áspera do chão amaciado pelo musgo e pelas folhas caídas e, tranquila, espera com as mãos de fuso a descansarem no colo tépido. Mas ao ver os filhos dos marqueses de Alorna saírem para o jardim seguidos pela mãe, Lilias Fraser, de feições crispadas, levanta-se com precipitação e recua, desviando os olhos, sem querer tornar a distinguir o maligno animal da morte espalhando a sua imensa mancha de pez, a sufocar a vida dos meninos. Mas logo a porta principal se abre e Leonor começa a descer sem pressa os degraus largos de pedra grossa, demorando o olhar na vastidão dos campos de Almeirim.
Ainda reticente Lilias Fraser pára, e com cautela retorna, vendo-a erguer a cara para o céu muito azul, a receber a claridade difusa do dia.
Como se quisesse libertar-se dos sentimentos de sombra.
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Bem vi como D. Henriqueta, marquesa de Alorna, ficou branca feita cal quando a preveni de haver quem deite mau olhado aos meninos seus filhos, de beleza enluarada, a quem ela não obriga a cousa alguma, nem ensina a dar a salvação a quem passa. Nariz empinado, olhar sobranceiro e de esguelha sobre os nossos pés descalços à mistura com a terra, maltratados pela rudeza da vida, cortados pela lâmina dos cacos e das pedras que os rasgam, a curarem-se sozinhos das feridas que ardem e fedem apesar de os lavarmos. Se não formos limpas nunca chegamos a criadas da quinta dos fidalgos, há que merecer para lhes fazer a cama, tratarmos com primor das suas roupas de fausto: lavá-las, enxaguá-las, escová-las, passá-las a ferro. Finuras de casa e de corpo, sujas apenas de suores perfumados e carmim, de pomadas e cremes.
Bem lhe percebi as lágrimas sustidas, mãos entrançadas na reza diante da Virgem no altar da capela, onde mandou acender mais velas do que as muitas que já lá havia misturadas com as flores brancas: lírios, rosas, begónias, goivos, açucenas. Na esperança de esconjurar o medo que nela acordei por motivo da zanga que em mim é muita e da raiva que nunca me basta, cismada que ando por aquilo que vejo e comparo: minhas unhas fendidas e grossas, minha pele curtida crestada de pano áspero, e as das fidalgas tão pálidas e transparentes, com a brandura da seda e da baunilha. Mas até no lustro dos olhos se pode adivinhar a diferença entre o nascimento das mulheres, apesar de termos sido paridas do mesmo modo; cor do meu olhar alagado e baço, tingido pelo castanho das bandas de Portugal, sem funduras nem brilho. E os delas em azuis, verdes e cinza, cingidos e fiados com cintilações de estrelas ou desvarios de lua.
Bem lhes distingo o ouro dos cabelos, como diz D. Henriqueta, que dá às sobrinhas nomes de pedras preciosas, minhas pérolas chama-lhes, palavra bonita a nascer na curvatura da língua, indo esta bater na serra afiada dos dentes. Cunhadas uma da outra, a fazerem-se companhia no desamparo que as toma, contando com reserva pensamentos e desgostos em fiapos de palavras difíceis para mim, que não as entendo por mais que as ouça quando estou por perto, limpando, escutando, espiando; e as duas bebem chá de erva-cidreira e tília em chávenas finas, debicando as bolachas feitas pela doceira, bolinhos de manteiga, de amêndoas e de ovos, mas também biscoitos de gengibre ou tortas de chila e pudins de abóbora-menina.
Bem lhes adivinho o bocejo, quando a ambas me dirijo desabafando sobre a minha vida, e o escárnio delas me magoa pois desde rapariga fiquei junto das mágoas e lágrimas da família, como aconteceu com o finamento do marquês velho. E por vezes, não me contendo, desabafo: há quanto tempo vos sirvo senhora condessa D. Leonor? Ela nem sequer me responde, em distracção de enredo no luto em que anda. Para todos não passo de uma sombra em que não se repara, encandeados pelas claridades que iludem e cegam. Mas por vezes já são elas que me gritam o nome, na turvação da dúvida: «Josefa! Josefa!» E eu corro, tropeçando nas mesas e nas cadeiras, nas banquetas, nas tinas e nas tripeças. Restando mais dorida na alma do que nas partes do corpo, ao ver-lhes a troça a chegar-lhes aos sorrisos das bocas cor-de-rosa.
Bem diviso em D. Henriqueta o zimbro das olheiras cavadas no rosto assustado. Procurando-me a marquesa, de soslaio, como quem não quer a coisa, pezinhos de lã à minha beira: «Anda Josefa, conta-me a visão que tiveste, não me escondas nada!» E eu a fazer-me de desentendida escusando-me à resposta, sem lhe dar conta da feiticeira que anda a rondar a casa, benzendo-me. Vingando-me a repetir o já dito antes, a envenenar-lhe o pensamento e o sangue ao levantar o bicho do pavor, que nunca se consegue castrar e eu reconheço até pelo cheiro, rastejante, matreiro, sebento. E quando posso afasto-me para as bandas das matas onde cato e colho e arranco as ervas de curar os males e as maleitas e também os quebrantos, feitiços para se deitar nos vinhos, nos refrescos e nas sopas. Borras de café onde leio e adivinho o destino das pessoas que querem saber o futuro, embora essa ideia as amedronte.
Bem lhe decifro a suspeita a gatinhar na fronte, mão direita levada ao coração, olhar estagnado de temor buscando em volta o maligno. A imaginar em tudo o sinal do perigo que correm os filhos, ela e o marquês seu marido. Ameaça de arrastar presságios ruins, a tentar esconder-se debaixo da aparência contrária à da morte por onde se esgueira, como víbora ruim pronta a voltear ressabiada e cobarde, atacando pelas costas desprotegidas. Seta de aço cravada, a enferrujar já nos caminhos que levam aos corações das crianças. E eu mesma recuo, temendo o vil que antevejo. Mais ainda na escuta dos gemidos, dos gritos funestos das mandrágoras que, curvada e tremendo, arranco da terra fria das névoas da madrugada, escavando até às suas raízes angélicas, não obstante o risco de as arrancarmos em noites de lua cheia.
Bem farejo e deslindo a inquietude como avesso de defumação e perfume. «Acende mais velas!» – manda a marquesa D. Henriqueta, febril e ansiosa, purificando o ar quando queima rosmaninho e incenso diante da Virgem com vestes de cetim e manto bordado a prata, o dourado da bainha do fato a enegrecer já devido ao sopro do fumo das chamas das velas de sebo, dos ares brumosos, dos círios e das lamparinas que deslizam devagar na pele do azeite. Enquanto as criadas colhem nos jardins os jasmins-do-cabo e os põem nas jarras de vidro fosco, plantas que os antigos diziam terem nascido das sementes trazidas pelos descobridores de outras partes do mundo, navegando sem temerem as fúrias dos mares. Plantas para afastar dos sorvedouros e dos fados ruins, apagando o rasto do mal recolhido.
Bem desvio o olhar do crispar da sua garganta, dos passos oscilantes, dos ombros nervosos, do demo que à sua volta anda rondando e que irá mudar-lhe a vida num abismo de trevas e desgosto. Mas o que entende a marquesa D. Henriqueta da bordadura da sela em que cavalga o marido? Ou da cilada da água estagnada do lago que afoga as crianças? Ou das quedas fatídicas a matar os meninos afoitos em demasia? Fecho-me antes no silêncio, deixando-a a sofrer na dúvida, jamais melhor do que a certeza. Mesmo sendo como é a sua vida, sem nenhum préstimo para a felicidade de todos, num desencontro cabisbaixo.
Bem tento não escutar quando me amedrontam. «Josefa! Josefa!» – ralha-me, branda, D. Leonor, cansada por demais dos incêndios de atear nas almas e nos espíritos fracos, cuidando das suas próprias batalhas e fogueiras de lume reaceso com o luto pela morte do marquês seu pai, mas cuidando também do susto que tenta desprender e rasgar do peito da cunhada; dos sobressaltos do irmão no descaso de tudo, desejoso de partir para Lisboa, enquanto, indiferente aos decessos, sua mulher D. Henriqueta continua a teimar comigo, «Anda Josefa, diz-me que visão tiveste…», voz a levantar-se por surtos de inquietude, a revolver-se na chaga ainda inexistente, para logo se esvair, vencida pela minha teimosia de calamento, nada revelando acerca de nenhuma das desgraças futuras, trancando e mordendo com os dentes a língua já velha.
Bem me recuso a alimentar dúvidas e sobressaltos ao vê-los despontar nos olhares das patroas; depressa afastando-me, a agachar-me nas sombras fugindo da tentação de falar o que não devo, a ceder a sina à sorte fraca. «Ai senhoras fidalgas! Porque querem saber de amanhã aquilo que vos espera? Ah senhora marquesa de Alorna! Nada há que se possa fazer para contrariar ou mudar aquilo que foi escrito pela mão do divino no livro onde está o assento das vidas das pessoas,
no lugar onde se traça o destino de quem por cá anda…»
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