As Luzes de Leonor
Monólogo de Leonor de Lorena
Mas logo me calei ao dar conta do desprezo com que Leonor me fitava adivinhando a mentira, mas desconhecendo a beleza que a imagem materna apesar de tudo ganhara nos meus sonhos de criança mais do que órfã, sem embalo nem âncora ou amparo onde me firmasse, crescido demasiado depressa na ânsia vertiginosa de sobreviver pelos interstícios do afecto, a provocar esta recusa ao carinho; manas minhas tão impacientes, que da minha alma não vos direi mais nada.
Nem quando pareço confessar, nem quando calo.
Nem do que me culpo com embaraço, por dever aquilo que hoje sou a Sebastião José de Carvalho e Melo, inimigo cruel da nossa família. Desde que por sua ordem prenderam meu Pai na Junqueira e minha Mãe em Chelas, ele fez questão de se tornar meu protector, cuidando-me, pondo até algum afecto na solidão de abandono em que me encontrava, velando com rigor pela minha educação.
Em todas as circunstâncias do nosso relacionamento lembro-me de me ter sentido dividido. No entanto, foi a partir do dia em que me autorizaram a visitar meu Pai no Forte da Junqueira que passei a ver nas suas mãos o sangue derramado dos meus avós.
Mas o que sei eu de vós três para vos confessar tudo isto?
Desconhecedoras dos meus medos e ambições.
Diante de mim hesitantes,
entre o afecto, a indiferença e o rejeite.
†
MONÓLOGO DE LEONOR DE LORENA
Vieste, Pedro, visitar-nos à grade com autorização de El-Rei e de Sebastião José; depois de um interminável tempo de desespero pude finamente ver-te, filho, sem no entanto me ser possível apertar-te nos braços, rosto o teu de menino ainda, com corpo de homem, como o testemunha a espada que usas posta na ilharga magra.
Mas é o teu olhar ensimesmado que me assusta, a tua tristeza; ou, quem sabe, se por haver sonhado com este nosso encontro durante tantos anos, eu não consiga agora voltar a ajustar-me à realidade. Afinal, tu não te lembras de mim, tua mãe,
Pedro,
ou das tuas irmãs, nem sequer de Leonor a quem em menino seguias por todo o lado. E ali ficámos, filho, a tropeçar na sombra dos sentimentos uns dos outros. Mãos trémulas e frias, demais as minhas para tomar as tuas, vista turva mas apegada a ti, de quem falhei o crescimento e disso me culpou por carta o teu pai, meu marido. Agora que de novo não estás aqui comigo, posso confessar-te seres, de todos os meus filhos, aquele em quem melhor me revia no entendimento do amor materno.
De um momento para o outro varrido da minha vida.
Foi com desassossego que escutei a tua voz insegura, de quem não consegue deslaçar os nós do coração; desatento a todas nós para ti desconhecidas, a encarar-nos como se encaram os estranhos. Sei teres até desejado amar-nos como se tivesses sido criado nos meus braços, desconcertado pela frieza distanciada em que ficou o teu coração, pois vi mal controlares a vertigem que em ti precipitava a nossa presença, assim como a náusea provocada pelo limoso cheiro a rio e a incenso deste lugar de pedra escura onde nos fecharam.
Quisera poder ter-te dado instruções luzentes contra o amargor da alma, mas obstinadamente tu distanciaste-te, absorto e desatento diante do mapa dos sentimentos,
Pedro,
das linhas da rosa da feminilidade, longitude e pétalas incendiadas de maciez rugosa. Com elas assinalo a maternidade dorida e os nossos destinos em desconstrução, filho, nesta selva de abandono onde nem sequer se pode fingir a bonança. Hoje és tu quem aprende com desprazer a disciplina e a rigidez que te são ensinadas no Colégio dos Nobres, onde estás pela mão do déspota que deu cabo da família que éramos, enquanto passados estes anos eu inutilmente tento adoçar-me, sem ignorar os remorsos pela minha rispidez amarga.
No calamento grado de quem pior não receia.
Mas o meu silêncio incomodou-te.
A tentares encontrar um pretexto plausível para te ergueres como quem foge, na pressa de partires sem remorsos, afastando-te aliviado do parlatório onde fica exposta de forma evidente a clausura mórbida.
O que há em nós dois de semelhante, filho?
A manipulação do sonho? Ou o lado do rigor dos afectos tão extremados, que sempre acabamos por ferir os outros?
Têm as tuas irmãs mais arte
e maior desmesura no sentir.
Não recebeste de mim até tarde o conhecimento do colo onde adormecerias no descanso dos anjos, que nunca me faltaram na bonança e na felicidade que jamais foi muita. Pudesse eu ter estado sempre perto de ti,
Pedro,
desconhecendo o medo. Pudesse de onde me encontro não temer estender-te os braços abertos, sem este desacerto em que ficamos congeminando o futuro. Nunca, porém, a clausura impediu as emoções fortes, as divagações, os vagares dos afagos, meu menino de olhos assombrados pela paixão mordida que um dia te haverá de matar – adivinho com o coração apertado, meu tão diverso e desgraçado único filho.
Varão.
Peito envenenado pela solitude.
Conheço-te desconhecendo-te, apesar de te haveres formado na tepidez do meu ventre até ao dia do teu nascimento. Por isso, quando aqui chegaste
Pedro,
soube estar certa naquilo que tanto me metia medo: reencontrar-te perdido para o meu amor por ti. Restando-me no resvalo da esperança duas alternativas: reconquistar o teu afecto, ou habituar-me a conviver com o teu desapego. A ironia, filho, está em que foi por ti que sobrevivi à separação do teu Pai, ao assassínio dos teus avós, à ingratidão da História, à falta de justiça, às febres traiçoeiras do meu corpo alquebrado, ao engrossar dos sangues, aos nervos esfacelados a fazerem-me delirar até supor ter perdido a razão. Por ti fiz jejuns e promessas, acendi velas diante dos santos nos altares da igreja, perto das jarras onde as íris amarelas desfaleciam durante as madrugadas, que apenas os sinos acordam para os ofícios das horas canónicas.
Longe de mim
Pedro,
querer obrigar-te à amável pena, à ternura triste, ao apagado sorriso da distracção. Prefiro-te mais alcião de canto plangente do que ave amestrada a vir poisar no meu punho. Até porque o afecto não se paga com nada, filho; nem em momento algum soube da sua troca por qualquer outro sentimento.
Cuida sempre, antes de te afastares das rosas tamisadas
das lágrimas,
de quem como eu apenas soube ter entendimento com a própria sombra.
Filho.
†
Evado-me através das cartas que escrevo a meu Pai.
Como se elas me fizessem sair da mediocridade deste sombrio espaço fechado onde se acumulam a falta de liberdade e a ignorância, as superstições e a mediocridade.
Lugar onde por vezes julgo sufocar de sombras e negrumes, nauseada com os cheiros das mulheres, a formarem uma meada confusa de sangues e suores, de mucos e corrimentos do corpo; exalações sovadas, emanações maceradas, fetidez de quem vive durante meses sem lavagem nenhuma, numa espécie de resistência feminina ao próprio apagamento em vida. Repulsa que sinto intensificar-se com os odores a incenso e a flores fanadas e a sebo das velas votivas, à mistura com os cheiros de gordura que chegam da cozinha, mal disfarçados sob o odor dos doces de ovos e os anises, as geleias e a marmelada a ferver nos tachos de cobre.
Evado-me através das cartas que escrevo a meu Pai.
Pois nelas distraio-me a debater ideias, a argumentar, a reflectir no que lhe devo dizer e também encobrir. Mas o estudo é a melhor maneira de fugir desta prisão, desta clausura, fazendo aumentar o saber, para mim sempre pouco, a exigência de mais e mais Luzes! Só assim diluindo o nevoeiro que por aqui tanto se adensa, com excepção do curto espaço da minha cela de que faço escritório e quarto: três são os passos que consigo dar entre a janela e a mesa onde estudo e escrevo; e outros três entre a minha cama e a de minha irmã. E quinze são aqueles que me levam até ao leito de nossa Mãe, na divisão ao lado.
Passos esses quantas vezes multiplicados durante os anos passados até agora em Chelas? A distanciar-me sem remédio da menina feliz que fui e de quem hoje quase não tenho memória, nela já não me reconhecendo.
Aqui, as muralhas da opressão nunca são derrubadas, tal como estas paredes grossas e invulneráveis, na sua textura salgada e mistura de cheiro limoso a Tejo e a revoltoso mar. Aspereza onde gosto de passar a ponta da língua, julgando detectar uma multidão de lágrimas invisíveis, por certo vertidas pelas incontáveis religiosas que neste convento as têm chorado.
Prisioneiras derrotadas pelo avesso da própria revolta.
Cientes tal como eu, quem sabe, de não pertencerem a este lugar de clausura e de mediocridade. O meu coração e os meus sentimentos trancados anseiam por escapar, por voar para longe e muito mais alto.
Até onde me levar o conhecimento e o pensamento da Luzes.
†