As Luzes de Leonor
Angelus
†
Nunca saberei se me adivinhas o rumor quando volteio em torno da tua vida, tu, meu brilho e fulgor de regozijo. Vi-te ajoelhar aos pés do Papa, lívida como se o ar te faltasse e tu perigasses numa titilação
de ave aprisionada,
meu cisne
e laço do mesmo nó, tu que és da condição dos mitos e dos lumes, por onde cuido de te saber minha Ceres
com pele de seda de Alexandria,
tão diversa de todas as entidades que junto de ti se apagam; e mesmo alheada como andas, a tactear a vida que vais sublimando, ajustas a natureza aos teus desígnios, usas a teu favor a cintilação das estrelas, a luminosidade das constelações boreais, o deleite das enseadas, a fertilidade da terra e os ocultos poderes dos jardins suspensos de Babilónia.
E nessa imensidão nomeias, distingues a cor das auras, conheces a laceração das almas, o poder dos planetas, as marés luzentes dos úteros dos corpos femininos ávidos.
Durante as insónias passeias pelas áleas, as salas da Biblioteca de Alexandria, teu Éden onde se resguarda a insubordinação do conhecimento, o deslumbramento da beleza eterna, o voo dos poetas,
a rosa de ouro dos alquimistas.
Enquanto desvendas o entendimento, a essência urgente das palavras da escrita, no labirinto da mente,
Ariane tecendo com as artes da sedução o seu fio longuíssimo, translúcido e cismado.
†
Depois de uma longa espera, Leonor recebe finalmente uma carta de Pedro a dar-lhe conta da sua experiência de recém-casado, tentando aligeirar os sentimentos doridos. Ela, no entanto, pressente o peso do fardo, o desencanto que o irmão carrega:
«Ao ponto desta, já tu sabes que estou casado. Eu quis logo dar-te parte disto e desejava que esta notícia não te chegasse por ninguém primeiro do que por mim; porém, andei tão atrapalhado que não pude fazer, e também posso dizer que não quis porque se o fizesse nos primeiros dias havias de ficar triste, assentando que eu estava muito contrafeito. A falar a verdade no dia do casamento antes eu queria levar duas estocadas do que passar por semelhante passo; nos dias seguintes andei em um combate interior que me custava infinito a disfarçar, mas finalmente desenganei-me de que não é o Diabo tão feio como o pintam e principio a dar-me belamente com o novo estado, e deste modo podes estar descansada a meu respeito porque estou restituído ao meu antigo estado de folgazão que tu conheces; tendo demais a mais vencido um passo tão dificultoso para a minha imaginação e de que meus pais tinham tanto desejo, ajuda também a alegrar-me.»
No mês seguinte ao casamento de Pedro, Maria escrevera a Leonor a contar da tristeza em que o via mergulhado, melancolia mal disfarçada mesmo quando junto de Henriqueta, sua mulher, que ele lhe descreve com crueldade irónica:
«É uma mocetona da tua altura, bem feita, não é formosura mas não é feia, corporalmente muito bem educada, entra bem por uma casa, dança bem, canta nem por isso, à mesa faz muito bem as honras…»
Com amargura, Leonor reconhece os sinais destruidores da vontade implacável do Pai: um rasto de infelicidade na vida do irmão, como já acontecera com Maria.
†
Leonor começa a sentir espaçarem-se as agonias, as azias, os vómitos, as ânsias de quando acorda, embora o levantar-se da cama, o aflorar com os pés nus a lã macia dos tapetes lhe desencadeiem vertigens que a empurram de volta para a quentura dos lençóis.
Apesar de tudo, mesmo as tonturas começam a acalmar-se.
Durante as insónias que continuam a atormentá-la, parece-lhe escutar os ruídos mínimos do seu corpo
a transformar-se:
dilatando-se, alargando, como se a arranjar espaço para a criança ainda sem nome, a crescer dentro da sua barriga, anichando-se, aconchegando-se, aninhando-se no sossego da mistura de águas tépidas, mansas cores entorpecidas e de odores macerados, entrelaçados.
Perfumes que também chegam a Leonor, a acompanham ao longo do dia, e que só ela reconhece na sua mescla adocicada de baunilha e canela, esbatida pelo travo do zebro e do tomilho; essência com a palidez das açucenas, a delicadeza de uma brancura rosada e equívoca.
Recorda-se de Maria Regina e de Leonor Benedita terem cheirado assim, nela marulhando antes de nascerem; o mesmo ruído abafado, feito por um mínimo desfolhar apressado, um perpassar de asas, um breve sopro, um suspiro, um levíssimo respirar sem peso.
Leonor sabe ter uma menina dentro de si.
A exigir-lhe cada vez mais atenção e entrega,
dedicação e zelo materno.
†
O velho poeta vai-se gastando nos dias.
A cada hora que passa mais alquebrado, amparado por grandes almofadas; esvaindo-se agarrado às palavras já ininteligíveis que mal traça nos cadernos abertos sobre o pequeno tampo da escrivaninha de leito, disposta como uma ponte por cima das pernas inchadas, encobertas por mantas de arminho e marta.
À sua volta, em vez do alvoroço habitual, feito de poemas declamados, de luzes, de discussão, de música interminável, espalha-se um silêncio de mau agouro. Clima mórbido do qual Leonor foge quando encontra pretexto para recusar os convites, os pedidos, a convocação urgente da sua presença.
No fim de tarde do dia doze da Abril, encontrando-se sozinha sentada à beira da sua cama, Leonor deixa-se ficar na demora empurrando os minutos, enquanto fita triste e fascinada a mão trémula de Metastásio, que teima até ao fim no trabalho da escrita poética: sua última tentativa de acompanhar o pensamento até à encruzilhada de intermináveis caminhos inalcançáveis.
Ao despedirem-se, ambos sabem ser a última vez que se vêem. Ela busca ainda o apoio do seu olhar generoso. Metastásio retém-lhe a mão esguia no gelo da sua.
A temerem os dois o negrume da morte.
†
Minha amada eterna
Esta é uma carta de alerta para aquilo que, creio, o teu conde tentará esconder-te: a urdidura das intrigas da Corte portuguesa no que te diz respeito, os sintomas de envenenamento da mente da nossa Rainha e Senhora virando contra ti e teu marido o seu espírito aflito e frágil.
Tentei tudo por tudo a fim de afastar dos teus ombros mais este peso: fui à Academia das Ciências falar com o duque de Lafões para obter para ti o seu interesse, cheguei mesmo a abordar a própria D. Maria, que se fez desentendida, mas pouco ou nada consegui avançar com vista ao teu alívio. E embora esteja consciente dos perigos que corro ao escrever esta carta, faço-o pelo amor que te dedico e pela lealdade que te devo.
Está pois atenta às mudanças de humor de teu marido, tenta ter acesso às suas pastas, aos seus papéis e cartas oficiais chegadas de Lisboa pelo correio diplomático. Quando tiveres claras provas de tudo o que nestas linhas te conto, vira o mundo do avesso, explica-te directamente a Sua Majestade, utiliza a influência das princesas, escreve ao arcebispo de Tessalónica, apoia-te quanto puderes na realeza, pede ajuda a teu irmão e a teu Pai.
Não permitas que destruam a honra do teu marido. Na Corte corre a notícia de que o teu conde teria voltado a entregar-se ao vício do jogo, dando por isso pouca atenção ao negócio do qual foi incumbido enquanto embaixador em Viena e desse modo fazendo vacilar o êxito dos enlaces das Casas Reais portuguesa e austríaca.
Não te deixes vencer nem permitas que te apunhalem pelas costas. Toma cuidado amiga da minha alma, porque o veneno uma vez espalhado só pelo seu antídoto poderá ser debelado.
E eu duvido que o tenhamos em nossas mãos.
Beijo-te com toda a minha amizade.
Tua para sempre
Teresa
Lisboa, 20 de Maio de 1782
†
As manifestações de dúvida, de desconfiança ou mesmo de crítica aberta ao seu desempenho como embaixador de Portugal em Viena, aos seus erros na análise política, à incapacidade de decisão e falta de pulso firme começam a chegar a Carlos Augusto. Boatos passados sobretudo entre os portugueses frequentadores dos salões, onde continua a sentir-se a influência dos opositores ao duque de Lafões que durante anos estivera exilado em Viena.
As observações mais gravosas, porém, chegam pelo correio diplomático, ora do gabinete do secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, Aires de Sá e Melo, ora da própria Rainha que, afinal, até continua a revelar condescendência ao mostrar-se apenas desagradada com a inconclusão das tarefas de que o incumbira.
Mas Carlos Augusto é sobretudo um militar.
A política perturba-o.
†
Eugénia Maria Josefa de Bragança vê-os chegar, com uma ponta de azedume e descontentamento; nunca simpatizara com Aires de Sá e Melo e, apesar dos laços familiares, o próprio marquês de Angeja é-lhe antipático, devido à manipulação sem escrúpulos das grandes fraquezas do seu marido, o visconde de Vila Nova de Cerveira, de quem é mulher contrafeita.
Diante deles Maria Josefa cala o desagrado, mas a sua filha Maria Ana Josefa, cheia das maiores suspeições, deita-lhes um demorado olhar de lince antes de ambas abandonarem o salão, onde conspiram a tramar novos planos e enredos, certamente contra o conde de Oeynhausen, a quem nenhum deles perdoa a atribuição do cargo de embaixador de Portugal em Viena pela Rainha D. Maria.
A Maria Ana Josefa bastara-lhe escutar o início da conversa para adivinhar o resto, sem sentir a necessidade de ficar à escuta por trás da porta pesada, deixando apesar de tudo uma frincha entreaberta. Pensamento logo afastado, presa dos preparativos para o baile dessa noite no Palácio de Queluz, vestido de seda branca a avivar-lhe a morenez da pele aveludada.
Mas os motivos que fazem brilhar o negrume dos seus olhos de cigana prendem-se com Leonor de Almeida, ao tentar encontrar forma de melhor a prevenir das intrigas que estão a ser urdidas contra ela nos salões da fidalguia portuguesa.
Ultimamente tem pensado com preocupação na amiga, que conhecera quatro anos antes na Corte de Almeirim, em Agosto de 1778. Impossível esquecer o quanto se divertiram, juntando a alegria das duas ao estouvamento das jovens fidalgas e das açafatas, num revolvimento onde se misturavam a insensatez e a puerilidade das infantas. Inconsciência de todas, cortada somente aquando das súbitas visitas da condessa de Vimieiro, severa, demasiado séria e senhora de uma impositiva amizade com Leonor.
No entanto, mais do que de Teresa de Mello Breyner, lembra-se de ter sentido ciúmes da bela viúva Joana Isabel Forjaz, com a sua poesia ardente, fragilidade ardilosa e requebrada, pulsos quebradiços, mãos volteando como se dançassem, quando na penumbra dos salões reais declamava sonetos ou entoava sonatas. Pior ainda era quando ambas se refugiavam nos aposentos uma da outra, entre risos à socapa e malícias de estouvamento; então, ficava a remoer ódios e a desfolhar malmequeres, entre o «muito pouco e nada» de cada pétala.
Ana Josefa, impaciente, tenta afastar recordações que preferia esquecidas, pois ainda hoje lhe levantam dúvidas e lhe convocam melancolias inusitadas. No entanto, são as premonições ruins que a preocupam, pois tem por costume dar ouvidos às suas intuições que raramente falham. E são elas que a levam de volta à porta entreaberta do salão, onde sobressaem as vozes do ministro Aires de Sá e Melo e do marquês de Angeja.
†
Com o pó que guarda na caixa de cristal e prata lavrada, em cima do toucador, tenta disfarçar as olheiras fundas que lhe ensombram as faces pálidas. Mais um vez grávida, frustrada e infeliz, entretém-se a colorir as pálpebras translúcidas com as tintas azuis e lilases.
Procurando salvar-se e à lucidez que tanto preza, Leonor faz versos, mas em seguida larga-os por todo o lado enquanto espera ansiosa por Carlos Augusto.
Se ele regressa a casa mais tarde do que é hábito, cheira-lhe a camisa, a farda e, desconfiada de tudo, revolve-lhe os bolsos sem saber o que procura, a desconhecer-se nesses actos tão abaixo da sua condição e dignidade.
«Ando a dar cabo de mim própria» – pensa. Lamentando estar em Viena, com a qual tanto sonhara mas que já quer abandonar.
Voando?
Queimando!
†
Treme quando a vê incendiar-se,
tomar o fogo da chama.
Ao voltar a casa depois das noites passadas diante das mesas de jogo, evita fitar Leonor, olhos de cinza azulada que o devassam, calando ele as palavras que lhe deve; pois à medida que as tece desfia-as, desfá-las uma após outra por cobardia, esgarçando-lhes a malha apertada. Murmúrio velado por dentro da voz enrouquecida, num discurso prudentemente apagado:
«Conheço e adivinho em ti a discordância em relação aos meus actos, gostos e prazeres, que sempre te parecem medíocres e a que chamas as minhas fraquezas, mas que para mim são fruições insubstituíveis, amor da minha vida que jamais deixarás de o ser, embora com o teu modo determinado e inteireza de orgulho me distancies de ti.
Tu de macieza áspera,
carácter de rectidão urdida e finura de trato, a afastares-me, também, devido aos teus sonhos e à apetência que guardas de heróis e actos sublimes, portanto frustrada diante das minhas banalidades.
Talvez eu não seja mais, Leonor, do que um mero militar hoje sem brilho, nem habilidade para os jogos da política. Ao contrário do que imaginaste ao interessares a Rainha de Portugal a meu favor.
Quantas cousas minha amada de seda natural,
devo esconder da tua vista, desejando embora não te dissimular nada da minha vida; afastado que sou tanto da filosofia como do entendimento da ciência.
Longe das asas e da poesia.