As Luzes de Leonor
Caderno
Primeiro chega sozinha Catarina de Lencastre, logo depois Curvo Semedo, Joana Isabel Forjaz, Nicolau Tolentino e a condessa de Soure. Logo em seguida Pedro de Alorna, que viera na véspera de Évora para tentar ser recebido pelo ministro de Estado. E mais tarde o duque de Lafões e sua mulher Henriqueta de Meneses, o conde de Ega, Francisco Bingre, Sebastião Ferreira Barroco e por fim a condessa de Lumiares e Mariana de Arriaga.
Mas é quando vê Freire de Andrade apear-se da sua sege que o Intendente-Geral se agita. Será, no entanto, a chegada de William Beckford que o fará abrir a portinhola do carro e sair embuçado, querendo ver mais de perto o bulício em redor da casa daquela que ele considera uma perigosa conspiradora jacobina.
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CADERNO
Torno algumas vezes à leitura de Christoph Martin Wieland, e apesar de algumas composições dele ainda me encantarem, não posso deixar de me aperceber da pouca importância da sua obra se comparada com a de Goethe ou de Schiller.
Estes são já o vento da mudança.
Da ousadia.
Da vontade incontida de querer chegar mais e mais longe.
Apesar de tudo começo a traduzir Oberon, que continuo a amar, identificando-me com o espírito de alguns destes versos construídos entre uma certa avidez – infelizmente logo mitigada – e um certo alvoroço.
«Eu monto, eu corro, eu vou da antiguidade
Visitar os românticos países»…
Tenho o gosto de partir, através da imaginação e do sonho, a galgar distâncias sentada na minha sala de trabalho, tentando vencer os dragões da insónia.
Lisboa, 25 de Agosto de 1795
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Não manda ensinar as filhas mais velhas a bordar no bastidor.
Nem a fazer renda.
Malha.
Tapeçaria.
Nenhum trabalho de agulha e roca, de fio ou de fiar, ou mesmo de corte e costura, a estilhaçar o sonho. «Coisas de partir», escreverá dois séculos mais tarde outra poetisa…
Prefere dar-lhes a ler filósofos franceses e poetas alemães, que tanto admira. Falar-lhes de Voltaire, de Goethe, de Schiller, mas também de Homero e de Camões, de Hildegarda de Bingen, de Christine de Pizan e de Teresa de Ávila.
Fala-lhes da importância da ciência e faz-lhes o elogio da razão, enquanto o coração se desacerta no seu peito em sobressalto e o pensamento voa para longe, incerto, perdendo-se no trajecto, impaciente e arredio,
contradizendo as próprias asas.
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Leonor da Câmara olha a tia com curiosidade, mas encara as primas com evidente desagrado.
É um rapariga metida consigo, fechada, rigorosa e severa, com fraca apetência para as coisas do espírito, embora sendo piedosa em demasia para a sua pouca idade, agindo com uma rigidez de adulta, como se quisesse a todo o custo afastar de si a tentação, o regozijo e o pecado.
Aceita a tristeza e o olhar desfocado de Leonor Benedita, assim como a apatia de Henriqueta, mas repele a galanteria e o riso solto de Juliana, ou mesmo a mordacidade de Frederica e o seu gosto pela vida. O que ela mais detesta, no entanto, é a alegria esfuziante de Luiza, a fazer-lhe recordar por contraste a própria infância de menina órfã, guardando a todo o custo uma persistente imagem materna, que lhe dá a ver uma mulher à beira da morte, sofrida e sonhadora.
Portanto, se por um lado a atrai o que na tia lhe lembra a mãe, por outro lado essa parecença entre Leonor e Maria afasta-a, fá-la recuar, desviar os olhos, a impedi-la de frequentar mais a casa da Rua da Boa Morte. Já o irmão, de quem ela cuida e educa como se fosse mulher feita, adora a tia e as primas; menino magoado a crescer num ambiente solitário e triste, o convívio com elas mitiga-lhe a carência de afectos.
Mas Leonor da Câmara sabe como fazer para que a sua influência sobre ele não esmoreça, enquanto vai tecendo as malhas do poder sobre aqueles que lhe estão próximos.
Expulsando o sonho e a imaginação da vida de ambos.
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Pina Manique nunca gostou do abade Correia da Serra. Desconfia dos seus conhecimentos, dos seus estudos, das suas leituras, da sua posição política.
Suspeita da sua inteligência.
Das suas ligações com a Maçonaria e a França.
Portanto, ao escutar os boatos que circulam em Lisboa sobre a entrada clandestina em Portugal do célebre naturalista francês Pierre Marie Auguste Boussonet, fugido do seu país no seguimento da perseguição movida aos girondinos, manda os seus espiões irem atrás do abade, do duque de Lafões, de Freire de Andrade, também da condessa de Oeynhausen e de seu irmão o jovem marquês de Alorna. Todos eles por demais afrancesados, ousados e revoltosos, trazendo no pensamento e nas atitudes as Luzes que desde o início iluminaram e moveram a revolução francesa.
Quando lhe entregam um relatório segundo o qual o abade provavelmente escondera em sua casa o naturalista, o Intendente-Geral da Polícia vai falar com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Pinto de Sousa Coutinho, que a contragosto acaba por concordar com a sua proposta de intensificar as averiguações antes que o caso se torne um problema diplomático.
Pina Manique redobra os cuidados no que diz respeito à investigação, aumenta o número dos seus homens, mas chama a si o fulcro da inquirição, indo muito além deles: dá especial atenção aos rumores, escuta as conversas da Corte tentando entender-lhes os segundos sentidos, vistoria à sua volta com olhar de águia, vigia com minuciosa diligência as movimentações na Academia Real das Ciências, regista os nomes daqueles que a frequentam com maior assiduidade; e embora sem obter nenhum indício especialmente comprometedor, a sua intuição diz-lhe ser o abade Correia da Serra quem mantém escondido Boussonet, e acaba por mandar os seus sicários revistarem-lhe a casa. Mas, para seu desespero, encontram-na vazia e sem sinal de que por lá tenha passado alguém que não seja o conhecido secretário da Academia.
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Naquele final de verão indeciso entre a aragem fria e as vagas de calor, na companhia das suas damas, camareiras, açafatas e as anãs da corte a que a Rainha sua sogra é mais apegada, a Princesa Carlota Joaquina vai passar alguns dias à Real Quinta de Caxias: tão perto do mar que por vezes se escuta o húmido murmurejar das ondas, e um forte cheiro a maresia desliza por entre a cerrada vegetação, a contornar os arbustos, as alamedas de faias e os canteiros dos lírios, indo misturar-se ao rumor das fontes e ao tranquilo espelho de cristal dos lagos.
Rodeada pelas infantas, damas indecisas, fidalgas e fidalgos dolentes que a enleiam de ociosidade, a Princesa do Brasil estende-se com a sua Corte à sombra das latadas das rosas ou das árvores afagosas, e enquanto aguardam que as tardes refresquem, vão beberricando malvasia e licor de medronho, ou então limonadas amargas. A camareira-mor, D. Juliana Xavier Botelho, manda que tragam os sorvetes, e mais tarde o espumante, tingido pelo crepúsculo no cristal das taças, ao som de malaguenhas e de madrigais, de modinhas brasileiras e da lânguida guitarra portuguesa.
Durante as entornadas horas de queimor, Leonor prefere abrigar-se no fresco da biblioteca a procurar nas estantes altas as obras que desconhece, ou aproveitando para regressar aos seus autores preferidos, que retoma com o entusiasmo da primeira leitura. Pela janela entreaberta chega-lhe o zunido do calor e o entontecedor perfume das alfarrobas, a misturar-se ao odor pesado e farto das laranjas doces e demasiado maduras, caídas no chão do laranjal ali perto. Mas, nos saraus nocturnos, a Princesa Real não se priva da sua companhia e, mesmo quando há baile, manda interromper os músicos
para ela recitar os seus versos.
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D. Maria recupera devagar dos seus ataques, exausta como se tivesse guerreado com os demónios que por vezes vê comparecerem junto de si.
– Arredem! Arredem! – grita, atemorizando o Palácio de Queluz; depois aparece cambaleando à porta dos seus aposentos, branca de medo, os dedos entrelaçados no rosário de rubis e opalas que lhe dera o marido, seu tio, antes de morrer. Ordena que lhe tragam o filho, a nora, o confessor, de quem se rodeia, embora desconfiando de cada um deles. As aias e as açafatas correm a cumprir-lhe a ordem, assustadas com a lividez da face e a voz obscura.
A Rainha sabe sofrer de um mal ensimesmado, que os físicos da Corte não entendem, não diagnosticam, não curam, atestando-lhe uma demência de que não padece. «Só se eu tiver enlouquecido de tristeza e solidão» – pensa com uma lucidez aturdida, debilitada pelas sangrias a que é sujeita cada vez que desmaia, fazendo com que ela desfaleça ainda mais, e mais mergulhe numa melancolia irremediável.
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Sentada a um canto recolhido do salão, a belíssima condessa de Soure, alheada do que se passa à sua roda, a mão direita a amarfanhar a seda esmeralda do vestido e a esquerda detendo o movimento do leque marfinado, parece apenas atenta a cada verso que Leonor recita. Entre os seus lábios vermelhos e húmidos, aflora a língua aguda, sedenta e ávida, a condizer com a intensidade imprudente do olhar cor de violeta, expondo já o que imagina continuar oculto.
De todos os presentes suspensos das palavras de Leonor, apenas Mariana de Arriaga dá conta, intrigada, da perturbação da jovem condessa, guardando no entanto para si o que antevira. Mas ao recolher bastante tarde aos seus aposentos, passo rápido a deslizar sem ruído pelos solitários corredores atapetados de Arraiolos do Palácio de Queluz, apercebe-se de um curto gemido entrecortado, um sufocar de desejo ou suspiro de anseio, soluço de arrulho reprimido.
Assustada, pára e encosta-se à parede, esgueirando-se na penumbra envolta no xaile azul-cobalto, respiração suspensa, atenta como uma fera ameaçada. E só por isso se apercebe do par abraçado e meio oculto pela espessura aveludada de um cortinado, mesmo este não mais do que sombra no escuro, junto do qual um dos vultos se debate para ceder de seguida, resvalando numa espécie de desmaio que o outro vulto colhe e aperta ao peito, boca invisível a beber o que a sede exige, lhe é entregue e logo retirado, para de novo se dar, ambos vorazes, capuz da capa negra de súbito caído, permitindo-se mostrar uns cabelos ondulando dourados e soltos à luz mortiça das poucas velas espalhadas pela vastidão da galeria.
Uma mulher – percebe Mariana –, não lhe distinguindo senão os cabelos e mesmo assim intuindo quem seja, a vê-la entregar-se em arroubo a alguém que a volta, a vira, e de frente a encosta à parede, se inclina sobre ela subindo-a pelas ilhargas, pernas longas onde entrelaça as suas enquanto se curva, a lamber-lhe devagar a humidade da nuca.
Incrédula, a dama de honor da Rainha estremece sem contudo baixar o olhar, tão fixo como o de um lince: a reparar no modo como ele se aproxima mais, a tocá-la, a roçá-la, num resvalo demorado pelas suas costas até ao fuso cingido da cintura, para depois afastá-la de si, abrir-lhe os braços e estendê-los até parecerem ficar pregados na parede como numa cruz, enquanto ele lhe sobe a capa e arregaça a saia de seda do vestido à mistura com os saiotes, a morder-lhe os ombros já despidos da camisinha de cambraia, o dorso livre do espartilho, com os atilhos e os nós quebrados, deslaçados.
Mariana escuta as respirações ofegantes e febris, o barulho de tecidos que se esgarçam, rasgam, se entreabrem e fendem sob a pressão implacável dos dedos, que na pressa afagam e magoam, desejando chegar-lhe à pele macia e tépida, ao nu do corpo dela, entrando, esgueirando-se, indo até onde conseguem chegar, mais dentro, mais longe, mais fundo, pelos atalhos da nudez.
É então que a mulher entorna a cabeça para trás, deixando a descoberto a garganta vulnerável, como se a ofertasse à boca voraz que a aceita, e o vulto dele novamente se inclina, aparentando mordê-la, bebê-la, a sugar-lhe o sangue pelos golpes mínimos que a lâmina dos seus dentes abriram no pescoço iridescente, de tão pálido na escuridade, como uma haste de lua.
Um arrepio de medo tolhe por segundos a dama de honor, que instintivamente recua a ocultar-se para lá da curva do corredor, de onde continua a espiá-los sem ser vista. No entanto, parecendo adivinhá-la, escutá-la, eles param: desenlaçam-se, silenciam os gemidos, cortam os laços que entre os dois o desejo dera, e hirtos, desconfiados, soltam-se. Ele, levando a mão ao punho da espada, desaparece por entre a neblina que entretanto em torno de ambos se levantara do nada. Por seu lado, ela apanha a capa do chão onde se enrodilhara como uma mancha mais opaca no negrume e, astuciosa, embrulha-se nela, a tornar-se de novo apenas vulto irreconhecível. E ágil, azada, rápida como um animal selvagem, mostra as suas longas garras em riste.
Assombrada, Mariana de Arriaga julga vê-la fixar em si um alucinado olhar azul-violeta, tão brilhante que, na cerração do corredor, só poderá advir da própria ardência; e numa espécie de crepitar de asas, evapora-se no ar. Não sem antes se virar, levitando, e nessa espécie de dança, de volteio, por um brevíssimo segundo, descobrir a ponta da cauda de um vestido de seda verde que à escassa e trémula claridade das velas afigura ser de esmeralda-viva.
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O primeiro-ministro escuta num dos salões do Palácio de Queluz um estranho diálogo entre Freire de Andrade e o conde novo de Alorna que, vindo de férias passadas em Almeirim com a família, antes de partir de volta a Évora, fora ao Paço prestar homenagem à Rainha:
– Hoje à tarde, à hora de sempre, ele estará à nossa espera na mesma sala dos fundos da Academia… – murmura Pedro de Alorna.
– Lá estarei sem falta. A tua irmã vai estar presente? – retorque, indagador, Freire de Andrade. O camarada de armas confirma com um aceno.
Anteriormente alertado por Pina Manique para a presença de um naturista francês, clandestinamente abrigado em Lisboa ao que parece pelo abade Correia da Serra, o ministro de Estado não pôde deixar de ligar essa informação ao ajuste sigiloso do estranho encontro marcado para uma academia, que tudo leva a crer tratar-se da própria Academia Real das Ciências.
Alarmado, hesita entre mandar chamar o Intendente-Geral da Polícia para lhe dar conta do que acaba de ouvir, ou procurar o duque de Lafões, amigo de tantos anos apesar da divergência de ideias, e dizer-lhe da sua forte desconfiança, alertando-o para a perigosa situação em que está a ser colocada a Academia de que D. Maria tanto se orgulha.
Dividido entre estes dois homens poderosos, opta por falar primeiro com o duque de Lafões, seu par.
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Henriqueta de Alorna conta e reconta os dias pelos dedos, com medo de errar, mas chega sempre à mesma conclusão vertiginosa: o período está atrasado duas semanas.
No entanto fica calada, cuidando em não falar do que se passa a ninguém, sobretudo ao marido, temendo que de um momento para o outro as saias lhe apareçam manchadas com o vermelho rutilante do rubi, que é a cor do fim do atraso das regras, ou o vermelho-escuro das cerejas pretas, que é o tom dos desmanchos.
Sente-se como se atravessasse uma ponte instável, entre a margem da satisfação e a da descrença, passando do riso às lágrimas com uma facilidade sem fronteira. Habituado ao seu apaziguamento desbotado, alheado, Pedro olha-a surpreso, incapaz de lhe compreender os destemperos inusuais, as súbitas mudanças de humor, os desacertos sem motivo.
E não encontrando causa para aquele descontrolo, desconfia.
Henriqueta, porém, conhecedora do seu desamor, do seu desinteresse por ela, mas sabendo da sua vontade de ter um filho, prefere guardar para si as esperanças e os anseios: ora presa de uma alegria nervosa e esfuziante, ora tomada por um desencanto longo e sem medida. Ora dormindo num sono longo e pesado, ora acordando a meio da madrugada, ansiosa, a levantar as cobertas para examinar a brancura do lençol de baixo, erguendo a camisa de noite e levando os dedos às partes íntimas, para os retirar de imediato, olhar suspeitoso, o coração a desandar no peito, e logo jubilosa ao dar-se conta de não haver nenhum rasto de sangue. De manhã cedo passa a dar conta das náuseas, dos vómitos e das tonturas que a acompanham o resto do dia, à mistura com um sono pesado, irresistível. E ao examinar o corpo, apercebe-se do tom mórbido da auréola do bico dos seios, maiores e doridos.
Por altura do Natal Pedro resolve ir a Lisboa e Henriqueta, com o pretexto de visitar o pai doente, acompanha-o. Na verdade, precisa de conversar com Leonor: a cunhada, melhor do que ninguém, saberá indicar-lhe um médico a quem consultar em segredo.
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Mariana de Arriaga procura com os olhos a condessa de Soure, que só chega com as sombras do entardecer. Fita-a com curiosidade, a dar-se conta das olheiras pisadas, da extrema palidez do belo rosto macerado, mas também do olhar cintilante, que não baixa ao encontrar-se com o seu, ardente e febril, cruel e irónico, encarando-a como se a desafiasse.
A dama de honor da Rainha estremece ao reparar no vermelho intenso dos seus lábios húmidos e, ao vê-la aproximar-se, instintivamente recua. Mas ao passar por ela a condessa apenas acena ao de leve com um sorriso trocista, seguindo com uma elegância esquiva como se levitasse, até parar diante da Princesa Real, rodeada por jovens fidalgas e açafatas, tendo duas anãs negras a seus pés descalços.
Ao inclinar-se numa graciosa vénia diante de D. Carlota Joaquina, a condessa estende os longos dedos lívidos perlados de rubis, para ir colher-lhe a mão esquerda pousada a repousar no regaço de seda, e desce até ela a boca ávida, que deslizando acaba por se deter no sítio mais recôndito e vulnerável do seu pulso nervoso, no exacto momento em que o sol desaparece, a afogar-se nas águas do Tejo.
Encandeada pelos últimos fulgores do poente, Mariana de Arriaga, por um breve segundo, julga distinguir em contraluz o vulto de um grande pássaro de asas recolhidas, curvado e sôfrego, sobre o lânguido corpo em abandono da Princesa do Brasil.
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Embuçado com a ponta da capa negra, chapéu de abas tombadas a cobrir-lhe as feições, o Intendente-Geral da Polícia dissimula-se na esquina próxima do edifício da Academia Real das Ciências, onde vê entrar a condessa de Oeynhausen, acompanhada pelo irmão Pedro de Alorna, a uma hora demasiado tardia para irem assistir a palestras ou debates que a ele sempre enfastiam e afastam.