As Luzes de Leonor
1795-1797
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Chegam à casa da Rua da Boa Morte no início da tarde.
Arrastando-se de cansaço, Leonor deixa as crianças com as amas, as meninas nos seus quartos trocando-se, lavando-se do pó das estradas; e tombando meia vestida sobre a colcha de damasco da cama alta, manda Thèrése preparar-lhe um banho de sais e benjoim, depois de lhe ter desapertado nas costas os botões forrados do vestido de tafetá cinzento, os colchetes da cintura e do espartilho, os atilhos traçados em cruz, que mesmo frouxos lhe tiram do peito o ar que lhe falta, abafando com a mistura do mofo dos quartos fechados e das águas estagnadas.
Odores intensos a alfazema e a cânfora saindo pelas portas escancaradas dos armários, dos guarda-vestidos, das gavetas e das arcas que, apressadas, as criadas começam a abrir a fim de nelas colocar o que tiram das malas; odores a misturarem-se já, aqui e ali, com os aromas intensos das árvores de tília, das moitas de lilases dos jardins descuidados, a entrarem à toa pelas janelas de sacada e de adufa, escancaradas.
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Nicolau Tolentino está encostado ao umbral da porta do Nicola, caderno amachucado debaixo do braço, cara morena comprida e seca virada para o alto, a receber a aragem morna que ao princípio da tarde se levantara das bandas do Tejo e, subindo a Rua do Ouro vem agora varrer o Rossio, arrastando consigo um odor limoso que deixa um amargor ácido na boca, travo adstringente na saliva que engrossa de calor e sede.
Está o poeta ensimesmado, perdido em sonhos e desejos, versos em rimas largas que vêm e vão no seu pensamento distraído, que não dá por Bocage que dele se acerca a passo estugado, de aparência descuidada mas de bengala de cerejeira polida e macia, a levantar com a sua ponta embolada o pó granuloso e amarelento feito de dejectos vários e do entulho que desde o terramoto enche as ruas da parte baixa de Lisboa.
A mão comprida e leve pousa de súbito no ombro de Nicolau Tolentino que, desconfiado, se vira, olhos de um castanho intenso, franzidos e encandeados pelo sol reflectido nos pequenos vidros das seges, das berlindas e das carruagens que se cruzam devagar na praça encimada pelo Palácio da Inquisição, que tem o dom de lhe apertar a alma quando o olha de frente e vê, assente no seu pórtico imponente, a estátua da Fé calcando aos pés a Heresia.
Mas Nicolau Tolentino sorri já a Bocage que o arrasta pelo braço, a querer arrancá-lo da letargia onde fora encontrá-lo, ansioso por lhe dar a boa nova:
– D. Leonor de Almeida voltou!
Logo o amigo, que se endireita, se anima, brilho de aço novo a ganhar-lhe o rosto, pergunta sarcástico:
– D. Leonor ou Alcipe? A qual das duas se referiu a viscondessa de Balsemão quando te deu a notícia?
Bocage não responde, a enredar-se na recordação de Catarina de Lencastre invocada por Tolentino, dela sentindo o ardente odor a nardo entreabrindo-se, febril, no seu corpo roliço.
Hálito de murta que ainda sente nos lábios.
Na verdade não recorda mais o que ela lhe dissera, quando alegre, deitada na cama do quarto dele na rua do Loreto, referira o regresso de Leonor de Almeida.
Adivinhando o motivo daquele conturbado silêncio, Tolentino dá-lhe o braço, e sem mais palavras encaminha-o para dentro do café, onde ficam o resto da tarde em conversa afincada, enquanto vão bebendo copos de vinho tinto e cálices de absinto.