As Luzes de Leonor
Monólogo do Marquês de Alorna
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Sei da ardente vontade que Leonor tem de viajar, de conhecer outros países: «Os mais distantes! Passos em volta uns dos outros, em torno do vasto mundo», costuma sublinhar com acinte. E a esse motivo prende-se grande parte do seu teimoso interesse pelo conde de Oeynhausen, pois imagina minha filha que sendo ele estrangeiro a levará mais facilmente para fora de Portugal. Para isso, porém, terá de vencer primeiro a minha determinada oposição de Pai ao seu casamento com o fidalgo alemão, de parcos meios e ainda piores costumes, evadido da Fortaleza de Spangenberg onde esteve preso por motivo de jogo e pouca honra, trazido para o nosso país pela generosa mão de seu primo o conde de Lippe, protegido do marquês de Pombal.
Reconheço sem nenhum pejo e até de bom grado que para o afastar de Leonor recorro a tudo: zangas e interdições, intrigas e se preciso for meios mais drásticos, pois necessário é neste caso «andar eu com o prumo na mão», jamais os perdendo de vista. Assim, proibi-a de sair de casa sem ser na companhia da Mãe, de receber bilhetes e cartas senão lidos já por mim, e quando o conde nos visita escuto-lhes as conversas, sigo-os, diviso as suas expressões.
Vigio-os.
Observo-os, e desse modo os controlo.
Espreito-os.
Falando-lhes com aspereza, com dureza, e até com rudeza, sem pretender em nada moderar um forte e evidente travo a destempero:
– Se o senhor conde de Oeynhausen deixasse de comparecer seria melhor para todos nós! Minha filha é flor de meu peito e ninguém a colherá se não for do meu gosto. Desobedecer-me não a deixo, nem no ombro de quem eu não aprove encostará a cabeça.
É de grande conveniência ficarem cientes de ser eu quem manda por aqui. Sou eu quem dou ordens, sou eu quem crio as tempestades.
«Sou eu que faço os desdéns.»
Não quebro nem mostro sinais de fraqueza mesmo quando Leonor, com o seu temperamento revoltado, me faz frente ousando contestar-me as decisões. Sempre pronta a responder-me, a desobedecer-me. Fazendo eu os impossíveis por não me mostrar perplexo quer com a sua frieza quer com a sua dilatada rebeldia. Desconhecendo-a, tão diversa a encontro daquela outra filha que me escrevia do convento de Chelas cartas de desmesurado agrado, nelas me dando garantias de cega obediência.
Tenho-me eu em conta de um Pai por demais paciente com toda esta rebeldia, havendo entretanto cedido a alguns dos seus caprichos ao deixá-la repelir com desprezo, ainda em Chelas, D. Brás da Silveira e, já fora do convento, cada pretendente da minha simpatia. Sempre ela reclamando: um de ser coxo, outro idiota, aquele por ter um olho cego, e de todos a muita idade. Como se ninguém fosse digno dela, nem capaz de manter de igual para igual pensamentos tão subidos.
Incapaz Leonor de um gesto feminino de amor submisso e humildade, se até na teimosia de querer casar com o conde de Oeynhausen não lhe encontro qualquer sinal de paixão mais acesa.
Se um dia esta minha filha conseguir gostar
será de si mesma.
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Foge-lhe dos braços e, rápida, embrenha-se no bosque que ladeia o jardim frondoso da quinta dos Nabais, com a grande casa branca ao fundo. As silvas, os cardos e os espinhos das rosas selvagens prendem e rasgam-lhe a bainha do vestido de cassa, indo lacerar-lhe os pés através do cetim verde-lírio dos sapatos bordados a crivo e lâmina de prata, encharcados já da terra ensopada pela chuva dessa manhã.
Ele segue-a depressa, passo largo galgando a distância que os separa, farda azul muito hirta a magoar-lhe o corpo magro e ágil. E quando finalmente a apanha, agarra-a pelos ombros fazendo-a voltear nos seus braços, lábios roçando-lhe o pescoço longo e delicado a sentir-lhe o odor a malva e a gardénia. E só então a toma pela cintura delgada, quebrada, enquanto ela se deixa conduzir em silêncio, com uma espécie de indiferença que o desconcerta.
– Só quero que me ouças – pede-lhe.
Inesperadamente sente-a crispar-se, e por isso se cala e aperta-a mais a si em jeito de sustê-la, descendo-a depois devagar a beber-lhe o hálito de goivo. E sem parar de beijá-la, inclina-se para a estender debaixo de um pinheiro, no sítio onde a caruma e as folhas poupadas pela tempestade do equinócio fizeram uma estreita cama.
– Não sou um jogador por vício, por hábito, como te contou o marquês de Alorna teu Pai! – diz-lhe baixo. – É verdade que joguei, cedendo à tentação do demónio, sei lá… Mas juro-te por minha honra não tornar a fazê-lo!
Carlos Augusto pede a Leonor não tanto o seu perdão ou a sua confiança, mas que o ame tal como ele é, mesmo sendo os seus defeitos mais do que os méritos. Percebendo isso, ela amansa, sem vontade porém de ceder, de perdoar-lhe a decepção sofrida. Perdida a ilusão de ele ser perfeito, continua ressentida e sombria.
Porque ele não é o herói de que tanto necessita.
Abeirando-se dela pelo brilho.
Pelo garbo.
Jamais pelo lado da mácula, do turvamento a que tivesse de dar lustro com a ponta da imaginação como se fosse a ponta da manga ou dos dedos enluvados. Queria-o de uma brancura cintilante, de modo a mostrá-lo imaculado a seu Pai quando este lhe perguntara:
– Pretende a minha filha desobedecer à vontade de seu Pai para casar com um jogador? Um militar foragido, evadido do forte onde estava preso por ter perdido ao jogo o total dos ordenados do seu regimento?
Carlos Augusto debruça-se um pouco mais, mas Leonor esquiva-se, não querendo dar-lhe a ver a marca do ferrete que as palavras do Pai lhe haviam deixado.
– Não estejas zangada comigo, Nelly! – roga tão baixo que ela mal o ouve. – Aflige-me saber-te tão agoniada devido aos meus antigos pecados! – insiste, com ternura envergonhada. Mas Leonor já se ergue a encará-lo nos olhos cinzentos, que Carlos Augusto desejaria conseguir manter afastados da luz dos dela, de um azul de cinza ponteado de ouro.
– Nunca mais quero escutar sobre ti palavras que me envergonhem! – exclama alto, acrescentando com dureza:
– E muito menos isso poderá acontecer se chegares a ser meu marido! Não destruas o respeito que guardo por ti.
Diante um do outro confrontam-se pela primeira vez, sentindo Carlos Augusto nela uma crueldade tamanha, que julga entender estar ela a testar o seu amor.
Por isso cede,
frouxo.
Amando-a ainda mais, como se isso fosse possível, fascinado com a desmesura do gelo onde o coração de Leonor sempre arde.
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«Mana Leonor do meu coração
Que linda carta me escreveste.
Tomara dizer-te os meus sentimentos, mas gastaria nisso muito tempo escusadamente, porque tu conheces melhor do que ninguém o meu coração, e por consequência aquilo de que este é capaz.» Mas, para ser contigo totalmente franco, como é meu hábito e bom costume, tenho de confessar-te que, embora julgando entender-te em tudo, desconheço os princípios em que te baseias e apoias para te rebelares contra o destino, querendo em troca tu mesma construíres um outro, deixando-me dividido: tu menina voadora de uma banda, e da outra o senhor nosso Pai, dono de seu aprisco! E se desejo a felicidade de minha irmã, estou sem querer ver-te partir, largando-nos a todos para trás, sem condições de seguir teu rasto.
Terá de ser, Leonor, exactamente assim?
«Ainda que tu, mana, tenhas mais razão que eu de questionar o mundo, não o tens feito tanto como eu ponho costume», andando como ando ao deus-dará desde pequeno pelo lado da secura da vida, enquanto tu, apesar de tudo junto de nossa Mãe, recebeste do embalo e da ternura outro agasalho. Vais-me desculpar se insisto na dúvida de estares certa, ao tanto quereres levar avante a tua vontade neste caso, que parecendo ser de amor é bastante mais de liberdade.
Da tua liberdade.
Ferindo a mana por ela a torto e a direito, tudo e todos em proveito próprio, e isso incomoda-me alguma cousa, sabendo como sei quanto te empenhas, Leonor, em sair de Portugal por nele não caber a tua ambição e desmesura.
Sem perceberes até que ponto te deslumbras contigo mesma, deixas-me sem chão, desabituado de tantos ilusórios sonhos, tamanhas fantasias de intensidade, propósitos de glória, a contrariares sem teres medida quem desorientado te rodeia. A um ponto tal que nem sei se mesmo o teu bendito Voltaire te aprovaria.
Rogo-te minha irmã: repensa as tuas decisões a este respeito! Pondera se tão desmedidos projectos não te prejudicam mais do que te beneficiam, se aquilo que supões ser alegria não poderá antes representar teu triste fim. Conversa novamente com o conde de Oeynhausen e resolvam ambos o melhor para o vosso futuro. E quando me convenceres de ser por amor que com ele te acertas e partes, podes crer minha Leonor que estarei do teu lado.
Aceita um beijo e as infinitas saudades
do mano
Pedro
13 de Novembro de 1777
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– São as leituras feitas a esmo por ti, sem controle de nenhuma parte, que têm vindo a incutir no teu espírito essa insubordinação sem limites. A darem em cada dia que passa mais alimento à tua teimosia, às tuas ambições e excessivos sonhos, impróprios da alma feminina. Obras como a de Voltaire e a de Rousseau – já to disse uma vez – querem-se queimadas, nunca à cabeceira!
Leonor estremece indignada ao escutar as palavras do Pai, e apressa-se a esconder alguns dos livros trazidos de Chelas. No dia seguinte, estando os pais fora de casa, arrasta Carlos Augusto para o pequeno gabinete onde, pela bainha das horas, ela escreve, lê e toca cravo diante da janela, tangida pelas hastes quebradiças do hibisco carregado de campânulas rosa-pálido estriadas de vermelho.
Dizendo-lhe numa voz sumida:
– Casa comigo, se é isso que desejas e eu preciso.
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– Chama a tua irmã e depressa! – ordena o marquês de Alorna a Maria. Tão alto lhe fala que ela logo lhe entende o descontrolo e, em vez de Leonor, vai em busca da mãe que encontra a bordar a ouro e a ponto de cruz a cercadura de um pano de altar.
– Venha a senhora minha Mãe antes de o senhor meu Pai encontrar a mana! – pede afogueada, voz enrouquecida, os olhos tristes muito acesos. Mas antes delas, chega Leonor ao escritório que D. João percorre com passo agitado.
– Diz-se na Corte ter o conde de Oeynhausen pedido licença à Rainha para ser baptizado a fim de casar com a minha filha! Isto é verdade?
Em vez de se intimidar, Leonor olha-o nos olhos. Atingido por esse olhar ele pára, interdito, como sempre que ela o desafia.
– Sabe bem o senhor meu Pai qual é a verdade e o motivo de tudo isto. Por acaso o conde de Oeynhausen não pediu já a minha mão a Vossa Excelência?
– Pedido de casamento que eu recusei.
– Mas eu aceitei.
Avançando mais um passo que deseja firme, Leonor enfrenta a vontade férrea do pai, no seu propósito de a afastar de quem ela já escolheu.
– Com a minha autorização e a minha bênção tu não casas com esse estrangeiro! – grita ele, tomado por uma violência desconhecida de todos os que o conheciam antes de ter dado entrada no Forte da Junqueira.
– Para casar sem autorização a idade não me falta, mas preferia sair de casa de meus pais casada, com a bênção e a alegria dos dois.
– Pois nunca a terás, e daqui não vais para lugar nenhum que eu não consinto.
– Com o devido respeito, torno a lembrar a Vossa Excelência a minha decisão de casar com o conde de Oeynhausen, nem que para isso leve séculos!
Mas reparando na mãe e na irmã assustadas à entrada da porta, amparadas uma na outra, acrescenta condoída:
– Lamento infinito o desatino, parecendo-me por tudo isto ser de melhor acerto ir passar uns tempos a casa da tia Mariana, condessa de Atouguia e vossa irmã, senhora minha Mãe. E virando-se de novo para D. João, parado a fitá-la emudecido de raiva, torna muito calma:
– Reflicta o senhor meu Pai neste assunto. Pois como não sou mais uma criança, sei o que melhor convém à minha felicidade.
Tomando entre os dedos cada um dos lados da saia do vestido de tafetá lilás com listas verde-pimenta, ergue-a um tudo-nada, roda o corpo delgado e ganha a penumbra do corredor, onde melhor resguarda do olhar de todos o evidente tremor dos ombros descobertos.
†
Como é possível, Tia Mariana, ver-me obrigada a sair de casa de meus pais e a vir refugiar-me junto de Vossa Excelência, buscando em desespero compreensão e ternura?
Fugida do olhar de aço do senhor meu Pai e do silêncio conivente e consumido de minha Mãe, vossa irmã, que nunca me defende do excesso de autoridade que ela mesma acata com aquela absoluta submissão a que eu me recuso. Contrariando ambos, senhora minha tia, decisões pessoais que estou certa de contribuírem para a minha felicidade. Pediu o senhor conde de Oeynhausen, com humildade mas também com firmeza, a minha mão, logo recusada por meu Pai apesar de estar conhecedor de eu não aceitar outro enlace.
Basta de despotismo, senhora minha tia.
Não pense Vossa Excelência estar a confessar-vos morrer de paixão romanesca pelo senhor conde de Oeynhausen, mas é a ele que eu quero como marido, é para ele que voam meus interesses e inclinações, unindo como une a delicadeza à finura de espírito e à sensibilidade. Portanto não cedo, não o troco por nenhum dos pretendentes arranjados por meus pais: um coxo, outro vesgo, outro analfabeto, e todos eles velhos.
Engalanados mas velhos.
Eu, senhora minha tia, não suporto quem me seja nefasto, alguém de quem me enoje e cujo cheiro me repugne. Desagrada-me a incultura e ainda mais a rudeza, a grosseria portuguesa da qual durante muitos anos a vida me manteve afastada. E não será agora que vou conviver com essa boçalidade; muito menos ainda dentro de minha casa, deitado na minha cama! Por isso, tia Mariana, vos pedi refúgio enquanto aguardo a sentença de meu Pai sobre este caso. Só dele depende tirar-me ou não as últimas esperanças de fazer um casamento que não me arrede da convivência com a família.
Mas desde já garanto a Vossa Excelência muito me apoquentar a situação criada, afastada daqueles que mais amo. Mesmo o mano me assusta com o seu silêncio e Maria, que aceitou casar a contragosto com o conde da Ribeira, leva largos tempos sem responder às minhas cartas.
Sou invadida por vezes de melancolia, sem embargo do desmedido carinho com que Vossa Excelência me trata, igual ao dedicado a minhas primas. Pois eu, que julguei ser a primeira das filhas de casa de meu Pai, fui afinal rejeitada sem custo, não obstante ele saber o abatimento em que me lançam seus rigores. E se me recuso a retroceder e a quebrar juras, não é por me ter endurecido o coração, mas sim por estar firme no propósito de casar-me por escolha própria. Eu sei o que me faz falta. Aquilo que quero, tendo em conta princípios e sentimentos.
Não estudei tanto, senhora minha tia, para ser tratada como uma criança, ou como uma mulher leviana e idiota, incapaz de decidir da sua vida. Porque apesar de partir da base de ser justo, em nome da minha felicidade, transforma o senhor meu Pai a sua preocupação em prepotência, tornando-me a pessoa mais infeliz do mundo.
Pela minha glória trabalho eu, sem desguarnecer nenhuma frente, buscando o conhecimento e optando pela razão em detrimento das emoções mesquinhas.
Luto contra a obscuridade que mata os ideais, e pela luz que brota do debate de ideias e princípios.
Só deste modo posso alcançar a minha felicidade,
senhora minha tia.
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É pensando em Leonor de Almeida que a Rainha decide indeferir o pedido de convocação de um Conselho de Guerra, apresentado pelo conde de Oeynhausen tendo em vista a defesa da sua honra.
D. Maria julga ser melhor para a sua valida ficar-se por ali, abafar o caso, não pôr mais achas na fogueira do marquês de Alorna, pai austero a lutar contra o amor de ambos por si acarinhado pois, como gosta de Leonor, toma o seu partido, defende o seu caso de amor contrariado. Entendendo como ela é culta, ambiciosa, inteligente, quer preservá-la, defendê-la, ajudá-la.
Ama os versos que ela faz.
A maneira audaz como exprime o seu pensamento.
O seu olhar brilhante de audácia.
Dá-lhe prazer ouvi-la falar de livros, de filosofia e de política, sabendo defender com firmeza opiniões e ideias.
D. Maria jamais se esquece de como Leonor perdera grande parte da sua juventude por ser neta dos marqueses de Távora, mortos pela mão do marquês de Pombal, mas com a ordem assinada por El-Rei seu Pai.
Por vezes consegue adivinhar nela a menina que foi, a crescer em clausura. Então, mãos subitamente trémulas, testa perlada de suor frio, assusta-se; a língua prende-se-lhe, e quando se solta vai aflita em busca de saliva,
na secura da boca.
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Minha querida irmã
minha Maria
«Quem me diria a mim, querida mana do meu coração, que ainda haveria de olhar com saudade para os dias passados em Chelas! Que Almeirim não viria a ser aos meus olhos mais que um sítio de angústia e de melancolia? Só, sem a minha irmã, vendo minha Mãe entre dois fogos; ela a quem daria até à última gota do meu sangue, e por quem não posso fazer mais do que chorar. Chegando ao ponto de sentir pesar-me de tal modo a existência, que olho para a morte, com aquela indiferença natural de quem vive tão desconsolada como eu.
As quinze léguas que nos separam, minha querida mana, figuram-se-me uma distância imensa e a sua imagem não se me representa senão como a dos anjos no céu, a quem os mortais não podem chegar. Parece-me que há um ano não nos vemos, mana, e neste espaço de tempo têm-se passado inúmeras catástrofes e desgraças imensas.»
Pergunto-lhe: será que nosso Pai já terá começado a olhar para a minha consumição com a piedade necessária? Ou estará conjecturando mais alguma razão contra esta sua filha que, se não fosse tão desesperançada, esperaria que ele se esforçasse alguma cousa no sentido de a descobrir favorável e triste, em vez de a colocar eternamente perto do desgosto?
«Quem me diria a mim, que meu Pai me julgaria uma heroína de romance, que arrastada por uma paixão ridícula, depois de tanto trabalho para estudar o que verdadeiramente convinha à minha felicidade e à minha glória, chegasse aos vinte e sete anos para agir como uma criança?»
Afinal ele, que afirma ter mais luzes que todas as pessoas, só vê o pouco que julga eu valer, não lhe dando pena perder-me. No entanto, «sinto não sei o quê no coração, a dizer-me que meu Pai, mesmo sem merecimento nenhum da minha parte, quererá conservar-me, e que a sua cristandade tal como o seu carácter não sofrerão por muito tempo o espectáculo da minha aflição e o receio da minha morte.
Dê-lhe a mana por mim os mimos que eu não posso, faça-lhe compreender o que eu não digo, e jure-lhe da parte da sua filha verdadeira que não é a minha uma paixão frívola a que sinto, daí a minha firmeza. A mana conhece-me bem, sabe como são sinceros os meus princípios, e se a vontade de meu Pai não constitui para mim a lembrança mais adorável, arriscada será a minha sorte, pois sou uma miserável vítima de uns poucos de mil cruzados.» Mas, como a minha religião é a vontade de Deus, apenas isso está expresso no ditame da minha consciência.
«Escreva-me a mana o que puder sobre o meu destino que me inquieta muito, pela relação que tudo isto tem com a firmeza na religião do meu pretendente, assim como a sua pouca fortuna, que tudo também depende disso.»
Entretanto Carlos Augusto voltou a reiterar o seu pedido de casamento e eu tornei a aceitá-lo, mantendo intactas as várias observações já feitas, assim como as decisões tomadas; apesar de nosso Pai pensar que as filhas não merecem nem sequer serem consultadas quando se trata do nosso casamento.
Empenhe a minha irmã, «peço-lhe, todos os esforços para que meu Pai se abrande». Bem sei que respeitará mais a opinião dele do que a minha, mas pense no pouco que exijo, já que apenas pretendo a felicidade, o direito a escolher a minha vida.
«Desejo, minha querida mana, as suas novas, com a habitual eficiência e ternura, para mim tão necessária. Dá-me cuidado a sua saúde e tudo o mais que é seu, assim como do mano.
Não poderei esperar vê-los?
Deixar-me-á ele cair no poço, logo ele testemunha das nossas mágoas há tantos anos a esta parte? Terá coração para me ver despedaçar deste modo? Perdoe-me a maneira como falo, pois a sua presença faz-me muita falta, pois embora a nossa Mãe me tenha amor, não tenho eu ânimo para afligi-la mais com os sinais da minha melancolia, e não sinto já forças para de mim mesma ocultar nada.» Aliás ela jamais me dá alívio algum, porque segue sempre a opinião de nosso Pai, obedecendo-lhe à vontade férrea. Não me atrevo, Maria, a mortificá-la mais, até porque sei não depender dela o desfecho deste caso. Abra-se pois por mim ao mano Pedro, de quem tenho infinitas saudades, e console-me, peço-lhe, com notícias boas.
«Peça a bênção a meu Pai da minha parte.
Adeus querida mana.
A irmã que tanto a estima e ama
L.»
†
Pesa-lhe por demais a ausência de Carlos Augusto.
Mal aprendera o gosto terno das suas hábeis mão macias, atentas ao prazer que sente, já ele partira; desconhecendo Leonor para onde, embora sempre o imagine cavalgando pelas estradas de Espanha.
Magoada com tanto mistério, desconfia daquele afastamento, desacreditando do pretexto invocado para tão súbita viagem: vagos negócios particulares que ela desconhece e ele não especifica, olhar esquivando-se ao seu, tristeza ou inquietação a sombrear-lhe o rosto comprido.
Mais tarde contam-lhe ter sido também esse o pretexto invocado quando do pedido de autorização para sair do Reino enviado à Rainha, mal esta lhe recusara o requerimento da convocação de um Conselho de Guerra a fim de ele lavar a sua honra.
– Espera por mim, Nelly. Não me esqueças! – suplicara-lhe ao despedir-se.
Não sabe Leonor como entender semelhante viagem, ora julgando-a uma fuga cobarde, ora mera prudência, maneira de ganhar tempo esperando o assentar da poeira em relação aos graves conflitos que ultimamente o afligem: a tenaz oposição do marquês de Alorna ao seu casamento com a filha mais velha, e sobretudo as críticas levantadas contra si, enquanto coronel comandante do Regimento de Valência do Minho.
Às saudades sabe Leonor domá-las, dominá-las, mas não à dúvida; nem ao desânimo de ser abandonada, deixada a lutar sozinha pelo amor dos dois.
Admirando-se ela menos com a dor do que com a ferida rasgada na solidão do peito.
†
Um pequeno grito rouco fica a pairar-lhe no beiral dos lábios, coração apertado por dedos invisíveis. Deixa cair os lírios brancos e os jacintos de um azul sombrio acabados de apanhar no jardim da tia. À sua frente, sentadas no canapé dourado da sala, estão a mãe e Maria, ambas contrafeitas, olhar escorregadio ao longo das paredes forradas de quadros e de espelhos onde Leonor descobre, reflectida, a sua cara rosada do ar fresco da manhã. E em vez de se lhes lançar nos braços, que elas também não lhe estendem, retrai-se, fecha-se no sentimento ressentido pelo tanto tempo que haviam demorado a visitá-la.
Um silêncio espesso fica a pairar entre elas, sem nenhuma o conseguir ou querer quebrar. «É parco o amor que não se expressa», pensa Leonor, que mesmo assim avança, sorriso formando-se a custo na comissura da boca, ao mesmo tempo que Maria se levanta para ir ao seu encontro a abraçá-la. Leonor de Lorena permanece sentada, limitando-se a oferecer o rosto ao beijo da filha desobediente, que se curva preferindo beijar-lhe as mãos geladas.
– A vossa bênção, senhora minha Mãe –, pede com voz seca e segura.
Duvidando embora do seu merecimento, Leonor de Lorena leva a mão à sua cabeça inclinada, onde pousa a ponta breve dos dedos transparentes e fugidios; Leonor sente-a contrafeita, e por isso afasta-se com brusquidão.
A rebeldia continua a morar no coração da filha, repara Leonor de Lorena com mansa amargura, mas ela e Maria estão ali como mediadoras ou talvez até como mensageiras de seu marido, que ultimamente vem mostrando ter perdido na prisão muito da antiga tolerância e ternura.
– Porque não vos acompanhou o senhor meu Pai? – pergunta Leonor, adivinhando a falta de resposta. E na verdade elas calam-se, olhos postos no tapete que a avó Leonor de Távora trouxera da Índia para a filha Mariana, condessa de Atouguia.
– A que vieram então? – torna, recuando de novo, ante a resposta dada pelo silêncio das duas.
– O nosso Pai parece ceder no que diz respeito ao conde de Oeynhausen… – explica Maria sem veemência, tentando em seguida, com pouco entusiasmo, convencê-la a voltar para casa.
Sábia, ela desconfia e põe condições, faz perguntas:
– Agora que o conde de Oeynhausen não está em Portugal é que meu Pai cede? Pois eu não cedo, e mal Carlos Augusto regresse casarei com ele.
Imóveis, a mãe e a irmã olham-na com espanto, mal acreditando na ousadia de que Leonor parece fazer gala, indo cada vez mais longe nos termos teimosos, impetuosos, desabridos. E as três hesitam naquele desequilíbrio: entre as intenções e os actos, o privado e o público. Até porque Leonor, ao ser-lhe posta a hipótese do regresso a casa, apercebe-se do ardil, preferindo continuar na paz onde tem estado nos últimos meses.
Defendida dos conflitos.
– Mas a mana não torna connosco? – pergunta-lhe Maria com ar assustado.
Não acreditando na mudança do pai, Leonor teme as armas desiguais, as armadilhas, os truques, as intrigas; os olhares de aridez e de hostilidade que terá de enfrentar, e quase geme alto, garganta apertada.
– Fico, caso o respeito pela minha vontade não seja garantido.
Leonor de Lorena, que na mulher apenas entende a humildade, sobressalta-se. Não só por aquilo que a filha mais velha acaba de dizer, mas também pelo tom por ela usado. E embora se negue a compreender, também não fala, apoiada em Maria com quem mais se iguala pelo temperamento, pela natureza passiva e pela sensatez, sabendo cumprir o que lhe é imposto.
Orgulhosa, Leonor ergue a cabeça e, ao fitar a mãe, o seu olhar prateado ganha uma implacável centelha ácida que ainda ninguém lhe vira.
†
Regressa semanas mais tarde, empurrada pela mãe e pela irmã, sem qualquer gosto.
Procurando ser discreta cala-se, desliza pelos corredores e pelas escadas, procura a sombra das salas, o silêncio do quarto, o vazio cintilante do jardim e do parque, do bosque nascendo perto da saída da quinta de Almeirim.
Manhosa, beija a mão do pai a olhá-la de soslaio, à espera de um pedido de perdão que não chega; aguardando a cedência da filha que tarda a entregar-se. Nunca medem forças, nem opõem as vontades, mas se alguém vai cedendo é ele, amordaçando a fala e mais ainda o grito a deslaçar-se já, engolindo decisões ditas de honra.