As Luzes de Leonor
Caderno
E nada mais contrapõe ao apelo que Leonor faz à razão, entendendo até que aos outros pareça exagerado o seu afastamento e o liguem a um desgosto que ela afinal nem sente, embora não desminta a bela imagem de viúva inconsolável que lhe atribuem. Afinal apenas o dever em relação a Sancho a mantivera falsamente apegada a comportamentos que para si já pouco contam.
Só o gosto pela leitura e a apetência pela escrita nela se mantêm intactos, desavinda desde menina com os próprios sentimentos, um pouco à deriva. Recalcara-se então nos gostos, contrariara-se nos desejos e pensamentos que ao longo da vida mantivera aprisionados e secretos.
Amara em segredo quem não podia nem devia.
Jamais se permitindo escutar o coração, cortara as próprias asas e escrevera a maioria dos seus versos na surdez das emoções retidas: abrira mão de si mesma.
A sua hora passara.
†
CADERNO
Volto a ler a Ilíada. Ou a dimensão do desastre.
E se em princípio a história do amor fatal de Helena e Páris me deixa quase indiferente, tudo o resto me enleia, capturando-me com o seu enredo, o seu excesso, a sua tragédia.
O seu equívoco.
Coração sobressaltado do Cosmos, acrescento, tomando consciência da necessidade de equilíbrio, de harmonia, da emoção e lucidez criadora dos poetas.
Será esta mistura perfeita de argúcia e destempero que me envolve e transporta, empurrando-me para a Ilíada de Homero? Apesar de me sentir perdida entre as suas grandiosidades, alucinantes batalhas, incessantes desatinos e sentimentos arrebatados dos seus heróis em sumptuosos universos masculinos. Analisados através da paixão e da cólera, da imoderação e da inacreditável coragem, do orgulho, da arrogância e da insolência.
Tímido e escasso é já o espaço reservado às mulheres neste cruel mundo de aço e espadas, de feridas e sangues derramados, arrebatamentos de punhais, actos de heroísmo desmedidos.
Como Helena é triste e severa….
Como é austera, se a compararmos com Aquiles, com Páris ou mesmo com Príamo. Prisioneiro da sua contenção, só Heitor se lhe assemelha. No entanto, privada da sensualidade que deveria ser a sua condição, ela estiola, vacila, o que a impede de ser perfeita no papel de fatalidade que Homero lhe destinara na sua epopeia, enquanto portadora de desgraça e maldição, escrava de Afrodite diante de um amor, do qual só ela conhece a pequenez aflitiva.
A desgraça e a morte curvam-se à sua passagem, e Helena sente-se enlouquecer diante das monstruosidades da guerra, que o seu fraco amor desencadeia. Permitindo que a condenem diante da sua falta, a que ninguém claramente alude, mas da qual todos mudamente a acusam. Ela própria assume-se culpada e sem redenção; por sua causa Tróia perde-se e os seus melhores guerreiros perecem, assim como os de Esparta.
Sinto-me tentada a escrever um longo poema a partir da Ilíada.
No rasto de Helena, a retomar a ideia de perda e culpa que arrasta consigo.
Lisboa, 25 de Março de 1791
†
Acorda a meio da madrugada
com desejos de frutos sanguíneos: amoras, cerejas, ginjas e morangos, framboesas, mirtilos e groselhas. De corolas de flores acres e vermelhas, hastes duras e pétalas sumarentas, carnudas.
Levanta-se da cama na escuridão cortada pelo borralho da lareira e das chamas mínimas, difusas e trémulas dos pavios acesos das lamparinas postas diante dos santos, e vai dobrada, debruçada sobre a própria barriga, até à cómoda onde corre os dedos pelo tampo de mármore até encontrar os frascos de jaspe e de cristal de rocha, onde se anelam os perfumes: água de colónia, extracto de rosa e de violeta, essência de laranjeira e de almíscar, de ambrósia. Puxa mais para si os vidrinhos de aroma, tira-lhes as rolhas de prata e, em ânsias, deixa a língua correr no rasto do seu gosto.
Mas logo se enjoa.
Torna para a cama onde se senta, pernas pendentes e pés apoiados numa grande almofada de veludo de cetim rosa, enquanto colhe da imaginação o sumo esverdeado das uvas, a turvação encorpada dos abrunhos, sentindo a água a crescer-lhe na boca, saliva grossa a ressumar-lhe nos lábios ressequidos. Ergue-se de novo, embrulha-se numa longa echarpe e sai em direcção à cozinha, os passos descalços e alçados como pode, para não acordar quem está adormecido.
No fogo murcho da chaminé, encontra sobre a tripeça de ferro a cafeteira com café tépido, que deita numa chávena e, sequiosa, bebe de um só trago. Mergulha a ponta dos dedos na tigela do açúcar e chupa-os gulosa, olhando em torno à procura do pão de centeio; e não encontrando mais nada que lhe mate a fome desusada, pega na palmatória e dirige-se à casa de jantar onde na fruteira de vidro coalhado se misturam maçãs, peras e laranjas.
Na última prateleira do aparador de carvalho descobre mel numa pequena taça de vidro de Murano com florzinhas cor-de-rosa lavradas e, ao lado, uma covilhete com marmelada. Na prateleira do meio há também um prato com pão-de-ló, que pousa sobre a mesa para cortar uma fatia. Junto à janela, numa credência de canto, encontra o jarro de leite tapado com um naperon de renda e, voltados ao contrário numa salva de prata, os copos dispostos com cuidado.
Mas uma inesperada tontura faz dançar a sala à sua volta. Ampara-se à parede e fecha os olhos a esperar que passe. Pouco a pouco o chão volta a imobilizar-se, até lhe parecer firme de novo debaixo do passo arrastado e prudente com que torna ao quarto.
Insaciada.
†
Juliana aguarda a irmã junto da escadaria de mármore que dá para o jardim. Pousando na balaustrada as mãos delicadas, olhos fitos no portão de ferro encimado pelo brasão dos Oeynhausen; ora num pé ora noutro, sapatinhos de pelica fina a abotoar de lado. Nervosa, muito embora o rosto sem expressão não o mostre, controlando a respiração opressa de ter corrido e deslizado ao longo dos corredores, numa pressa inútil,
pois Leonor Benedita chega atrasada,
figura miúda, perdida no banco forrado da cadeirinha enviada pela mãe a buscá-la a casa do tio, onde, respeitando a sua vontade, a deixam morar após a morte da avó, no seguimento de muito choro e desmaios. Vem passar o dia com os pais e as irmãs mas, em vez de estar contente, o coração aperta-se-lhe no receio de não a deixarem voltar quando descer a noite. Não se ilude na idealização dos afectos, consciente de não os sentir por nenhum deles.
Fria e distante.
Depois do desaparecimento da avó que, apesar do jeito austero, tanto a amara, refugiara-se perto do cheiro a tabaco e a livros que a roupa do avô solta, sentindo-se segura no seu escritório e biblioteca, onde passava as longas horas dos dias. Recusando, arisca, a mão macia da mãe querendo levá-la consigo, só aceitando de bom grado ir viver com os tios a quem já se habituara.
Estranhando a demora do trajecto, Leonor Benedita espreita pela janela num gesto tímido, abre mais a frincha das cortinas corridas e não reconhecendo onde está, atira-se para trás sufocada de susto, julgando-se perdida.
E se os criados que a transportam a deixassem ali, abandonada? Mas logo faz por afastar os maus pensamentos. Talvez esteja a chegar, contrapõe a si mesma, ainda que continue a temer-tremendo face a essa hipótese.
– Olhai que lindas e boas são as vossas manas! – costumam chamar-lhe a atenção as criadas quando ela vai passar o dia em casa dos pais. Mas as irmãs parecem-lhe assustadoras e estrangeiras, faceiras e desenvoltas, a troçarem das suas maneiras, dos seus modos recolhidos e desajeitados, das suas roupas: vestido de fazenda cinzenta a dar com a chuva, ou de linho branco quando é primavera; de seda só nas festas, a que se escusa a ir invocando doenças. Se necessário for vomita, dedos às escondidas metidos na boca até chegarem à garganta, hábeis em provocar o vómito.
– Ela é esquisita! – continua a reclamar Frederica, desagradada.
Juliana, pelo contrário, que atentara no seu olhar um pouco desacertado, rosto fechado e gesto no recuo, tivera pena dela. E por isso mesmo a espera, pacientemente encostada ao parapeito onde passeia as pequenas unhas rosadas. Teimosa, Frederica fica na companhia de Henriqueta, recusando-se a sair do quarto, apesar da ordem contrária dos pais que espreitam pela janela. Luiza dorme na sua pequena cama de tule e rendas.
Juliana está atenta ao barulho da rua de Santa Isabel onde moram, esforçando-se por ver para além do portão de ferro trabalhado em forma de renda. A seus pés encontram-se os canteiros das ervilhas-de-cheiro, a misturarem o seu odor encorpado com o cheiro esgarçado das rosas sanguíneas e o da madressilva amaciando o ar, que devagar a menina sorve, como quem bebe a matar a sede. E ao aperceber-se da chegada da irmã, apressa-se na escada com um certo alvoroço a recebê-la, enquanto os criados que carregam a cadeirinha sobem pelo caminho estreito do jardim, para a pousarem, finalmente, na terra batida, à sombra da magnólia.
Faz-se uma longa espera, e Juliana inquieta-se.
Renitente, Leonor Benedita sente o coração a pulsar-lhe desregrado no peito e, contrariada, inclina-se devagar para a saída, enquanto o resto do corpo se recusa a acompanhar esse primeiro movimento, mantendo-se imóvel.
Não a vendo surgir, Juliana aproxima-se, esboça ainda o gesto de quem vai abrir a portinhola, decorada com um florão de rosas em tons baços de ocre e verde seco. Mas já Leonor Benedita afasta as cortinas de damasco vermelho, empurra o fecho e surge delgada e séria. E sob o olhar da mãe, que entretanto saíra de casa, continua quieta, mãos atrás das costas, olhar pousado algures entre as flores e as árvores; fugindo ao sorriso da irmã, que se detém diante de tamanha hostilidade.
Por seu lado, Leonor hesita, frente ao gritante contraste das suas filhas: Juliana de pele nacarada e olhos de ametista, caracóis louros apanhados por um laço de fita de cetim, fato de musselina liso e maleável a deixar-lhe livres o movimento das pernas e dos pés. E Leonor Benedita, morena, de olhos afastados e pardos, a condizer com o castanho do cabelo liso penteado em bandós repuxados e hirtos, capa cinzenta a descair-lhe dos ombros, permitindo antever o vestido severo de fazenda, gola redonda e subida, peitilho apertado por botões de madrepérola até debaixo do queixo esquivo. Botinas pesadas, mal tapadas pelas pregas que avolumam a saia.
Interdita, Leonor modera o passo na sua direcção, reflectindo no melhor modo de abordar a filha mais velha que tanto lhe é estranha. Mas Juliana, naturalmente espontânea, agarra a irmã pela mão, praticamente arrastando-a até junto da mãe, que se curva a fim de apertar as duas no mesmo abraço.
Leonor Benedita recua.
†
É Catarina que, ao fim da manhã, lhe traz a notícia:
– Parece que os reis e os príncipes de França no dia 21 de Junho tentaram fugir a caminho da Áustria, mas foram descobertos pelo povo em Varennes e arrastados de volta a Paris, de novo para as Tulherias.
Leonor fica sem fala, gesto detido a meio, olhar alertado, querendo saber mais. Mas a amiga não tem resposta para nenhuma das suas perguntas, apesar de mulher do ministro Luís Pinto de Sousa Coutinho que foi quem recebeu em primeira mão o relato da tentativa de fuga real. No entanto, prudente e astucioso, evitara entrar em pormenores com Catarina, sabendo de antemão que ela iria sem demora contar tudo à condessa de Oeynhausen de quem ele não gosta.
Ansiosa, Leonor procura Pedro, que apenas confirma aquilo que ela já sabe, sem se mostrar surpreso com os acontecimentos franceses. Acrescentando, com desprezo, que a maioria dos fidalgos da Corte portuguesa tremem de medo, e não de pena, pelo destino dos reis de França, preocupados, sim, com o próprio futuro. E D. Maria, em busca de ar fresco nas Caldas, regressa de imediato a Queluz, a aguardar mais notícias do estrangeiro.
Julho está no início e Carlota Joaquina, que pensara ter-se livrado da sogra por algum tempo, abandona as salas douradas de Queluz e retorna aos jardins do palácio, indiferente ao sobressalto ou tumulto vindo de tão longe, despida sob as sedas, os véus e os tules que lhe valem nas horas sufocantes. Mesmo assim, manda que os criados negros venham refrescá-la com os grandes leques de plumas coloridas, enquanto joga e troca segredos com as infantas, as jovens fidalgas e com as suas damas espanholas, deliciando-se com os odores exóticos, luminosos e intensos dos ananases, dos limoeiros-da-índia e mesmo das laranjeiras, que a densa aragem da tarde se encarrega de espalhar.
Os fidalgos, de casaca, colete e calção, embora mal suportem o calor, mantêm-se por perto, a inventarem rimas e gargalhando alto, perseguindo na fuga as princesas e as açafatas que se molham com estouvado descuido ao entrarem descalças nos lagos calmosos, salpicando-se umas às outras nos tanques de mármore, demorando os braços roliços e nus por entre a espuma cintilante dos repuxos de água.
Leonor pede para ser recebida pela Rainha, que afinal é quem está menos informada, pois todos tentam poupá-la aos pormenores cruciantes e aterradores, a quererem antes que ela esqueça, se distraia do tormento dos reis de França. Dias mais tarde Leonor começa a receber notícias de Paris, enviadas por Sophie de Condorcet, por madame de Angoulême e por Théroigne de Méricourt.
Na carta mais detalhada, de Germaine de Staël, há uma frase ambígua e preocupada:
«Ouvem-se rumores de que se aproximam tempos áridos e furiosos, de violência e de crueldade.»
†
Leonor Benedita ergue o rosto e fita a mãe, com o mesmo olhar determinado e inclemente que a esta sempre surpreende e perturba. Finalmente os tios convencem-na a ir viver em casa dos pais. Mas durante meses ela grita com pesadelos todas as madrugadas.
Sonhos maus que sempre cala.
Levanta-se da cama em silêncio e, como se deslizasse, percorre o espaço que a leva, sonâmbula, até à porta da rua, diante da qual se deita enroscada em si mesma.
Olhos escancarados, de quem vê muito longe.
De manhã cedo as criadas descobrem-na gelada, corpo arrepiado e hirto, que a camisa de noite de cambraia com entremeios de renda mal tapa.
– A condessinha Leonor Benedita está outra vez a dormir no tapete da entrada! – comentam entre si as mulheres atemorizadas, vozes a subirem na surpresa causada pela estranheza do acto. E afastam-se apressadas, a benzerem-se, rezando de medo e usando figas às escondidas, devido ao temor que ganharam dela, pois uma menina ensimesmada pode deitar mau olhado… E apesar do pouco trabalho que dá, ficam aliviadas quando ela vai passar o domingo com o avô.
Aos gritos das criadas Leonor acorre destemperada, desce com rapidez os degraus da escada até à entrada onde encontra a filha, estremunhada, tomada pelo susto com o tumulto armado à sua volta.
Envergonhada, também, por se ver quase nua diante de quem ainda desconhece. E tiritando aflita, refugia-se de bom grado no aconchego morno dos perfumados braços da mãe, que carinhosamente a ampara e cobre, a tapa, aquecendo-a com o tépido calor do seu corpo.
Ficando Leonor Benedita, mansa e queda, a respirar-lhe o odor dos cabelos.
†
De novo pesada e exausta, passa os dias a arrastar-se pelas cadeiras e pelas chaises-longues das salas, estendida na cama por cima da coberta branca, depois de tirar a colcha de damasco. Barriga maior do que das outras vezes em que esteve grávida.
Recusando-se a pensar que se for varão o filho que espera, virá para ocupar o lugar vazio deixado por Carlos Agrário, o menino morto.
Nas tardes lentas do outono Leonor fica a olhar as folhas ruivas do abrunheiro e do castanheiro, plantados em cantos diversos do pomar da casa, encantando-se com os odores pesados a matizarem as transparências dos tons entornados do crepúsculo, sob a latada das rosas trepadeiras, da cor do sangue derramado, onde gosta de passar as horas quentes.
Na sombra rala e perfumada, temperada pelo odor dúplice da malvasia e do cravo, apercebe-se de uma leve poalha dourada trabalhada pelo enredo da brisa, entrançando-se, dobada pelos últimos raios de sol a esvair-se, acompanhado pelo toque longínquo das ave-marias da Basílica da Estrela. E tamanha é a doçura encoberta, que o coração mal lhe cabe no peito nunca aquietado.
Fecha os olhos, reclinando-se no preguiceiro, onde o crepúsculo algumas vezes a encontra.
†
Logo depois de João Ulrico nascer, Carlos Augusto precipita-se a ver Leonor. Leva-lhe um delicado alfinete de ouro, tendo no centro dois corações que se entrelaçam, feitos de pequenos rubis, diamantes e meias pérolas encimadas por minas novas e granadas.
Desinteressada, ela mal pousa o olhar no seu brilho mate, à luz vacilante das velas nas palmatórias das mesas-de-cabeceira, de cada lado do leito ainda em desordem, de onde sobe um cheiro acre a ferrugem do sangue que encharca os lençóis, e suja as mantas e os almofadões onde se encosta.
Sem desviar os olhos da lamparina votiva acesa, como sempre, diante da imagem de Teresa de Ávila, Leonor fecha na mão o alfinete, sentindo a ponta acerada do seu fecho espetar-se-lhe na palma húmida e escorregadia. A jóia será o prémio que o marido considera que ela merece por finalmente lhe ter dado um robusto varão que continue o nome dos Oeynhausen. No assento de nascimento do filho, não haverá rasto do seu apelido de solteira.
Brusca, retira a mão que continua presa na tenaz dos dedos dele e manda-o afastar-se, sair e fechar a porta atrás de si.
Pretende ficar só.
O espelho da cómoda de alçado continua coberto com a echarpe de seda com a qual mandara Thérèse tapá-lo, não querendo ver nele a sua imagem. Exposição insuportável a afrontá-la,
em horas revolvidas pelas contracções que a dilaceravam, parecendo esfacelá-la, enquanto sentia a criança descendo, morosa, a percorrê-la, a atravessá-la, nadando ao longo do seu corpo como se fugisse de encontrar a saída para a qual estava a ser empurrada.
Agora deitado no berço de madeira entrançada, coberto com véus e folhos de tule bordado a fio de algodão creme, João Ulrico dorme sossegado, o rosto miúdo apoiado na almofada de cambraia, queixo junto à dobra do lençol de linho macio.
Olha-o perplexa, como sempre que lhe nasce um filho, dividida entre um sentimento de rejeição e o vazio absoluto. Depois, à medida que os dias passam, o amor acaba por ir chegando com lentidões e vagares, a derrotar as emoções febris que a assaltam e que, por vezes, parecem querer afastá-la da maternidade. Num torvelinho de sensações diversas, de que ressaltam a ideia da fuga, o desalinho e a inquietação. Tudo isso irá desaparecendo até restar apenas um sentimento de intranquilidade.
Nos lençóis entretanto mudados, Leonor pressente o sono a subir como uma espécie de nevoeiro, uma bruma que, depois de lhe aflorar os lábios sem cor, toma o anil molhado dos seus olhos que já se fecham.
Antes, porém, com a mão hesitante, procura debaixo das cobertas, e sob a almofada acaba por encontrar o alfinete dado por Carlos Augusto.
A ponta afiada do fecho dourado ameaça voltar a feri-la.
†
Desde que chegou de França, Leonor foi vê-la duas vezes à grade; na primeira, longos dedos brancos escapando por entre os ferros que as apartam. Olhares de anelo retomando da memória os sentimentos e as emoções, que em Gonçala jamais se aplacaram, sumindo-se em si mesma, perdendo-se na imensa distância contida entre a ilusão sonhada e uma anterior realidade jubilosa e possuída. De súbito mudada em abandono e enjeitamento,
apesar de nela se manter acesa a chama intensa da exaltação.
Devorada pela paixão e o anseio alimentados pela soledade árida da cela, o silêncio penoso do claustro, o deserto da cerca e do cemitério onde as irmãs são enterradas quase à superfície.
E a indesejada clausura que a sufoca,
entregue às penitências de martirizar o corpo revolvido pelo gosto e a fruição que as recordações de Leonor trazem de volta.
Onde está o riso, o gemido, o sussurrar a maresia de ambas, senão no seu ouvido?
Onde está o seio, a anca, o pulso, a nuca perlada de suor sob a onda dos cabelos espalhados ao longo das costas senão no seu olhar?
Gonçala vive de lembranças sobressaltadas pela esperança de a amiga volver, mas também pela queda vertiginosa provocada pela sua ausência. Escreve-lhe às escondidas, manda-lhe bilhetes ardentes, palavras desabridas, sem se importar com o risco que corre, consciente de poder ser surpreendida a passar para fora do mosteiro essas missivas de delírio e traição aos votos feitos, de desafio à Igreja, às madres e aos padres confessores, a quem sempre mentira sem nenhum peso na consciência limpa e lisa.
No entanto, cada vez mais busca na prece ressentida a sublimação almejada mas inviável, a redenção impossível, o alento na insatisfação, a consolação sem consolo; embora continue a cumprir-se somente na exaltada entrega deleitosa.
Imaginando-se no acto de passar de despojada a plena.
De espoliada a ressarcida.
De caça a caçadora. No entanto, menos semelhente a Diana do que a Maria Madalena.
Gonçala juntar-se-ia de bom grado às «preferidas de Deus», às «alumbradas», às «assombradas de Cristo», entre as quais julga encontra Hildegarda, Juana de la Cruz, Catarina de Siena. Delas lendo com avidez os aforismos, as memórias, os poemas. Bebendo-lhes os pensamentos, levitando nas suas levitações, assombrando-se nas suas aparições, alucinando nas suas visões, desmaiando nos seus desfalecimentos, transportando-se nos seus êxtases, penitenciando-se nas suas penitências.
Como Teresa de Ávila.
«Os desejos que eu tive e tenho ainda de fazer penitências são enormes; mas logo que as faço, a força do desejo impede-me de tal maneira de as sentir, que às vezes, ou mesmo quase sempre, tem um efeito de alívio a que me permito.»
E quando Leonor finalmente torna pela segunda vez, Gonçala percebe-a mais comedida, refreada, acomodada na vida, fria até nos modos, no tom surdo e nos gestos retidos, no sorriso desatento, no olhar cismado e penumbroso, naquilo que diz com uma voz manchada pela aspereza dos rochedos.
Quem é ela agora? pergunta a si mesma, com a lucidez recolhida da religiosa de Ávila; enquanto à beira do rio da sua chama Leonor continua de mãos contidas no regaço de matizes sedosos, ar de indiferença a ignorar-lhe os vestígios de arroubo, a lividez dos jejuns e dos cilícios que lhe laceram a cintura, do açoite e da vergasta a rasgarem-lhe as costas e a pele macia das coxas, na inútil tentativa de distrair com a dor o labor do desamparo, ponta e fio de folha da navalha de um desejo que não se mitiga nunca, ansioso já na pressa da entrega – sal e mel e cuspo –, de há muito impossível. Buscando em vão Gonçala o mesmo desassossego e aflição na expressão da amiga.
Perdida.
Portanto, nada lhe resta mais, nada lhe resta.
E o sussurrar da saia do vestido de fineza em seda vermelha de Leonor, como se fosse de asas, inquietada na pressa de partir ou voar para longe, sobressalta-a, com o seu acinte de diferença. Fazendo sobressair a pobreza do desbotado hábito de freira que veste, a arranhar-lhe a pele arrepiada pela saudade, a dissimular-lhe o belo corpo macerado e febril.
Queimoso.
Tal como a alma de Catarina de Siena ou de Teresa de Ávila, Gonçala «arde na desmesura de um amor que a desatina». E de boa vontade morreria para iludir a crueldade e o amargor do destino, ela que reconheceu o travo cúmplice das horas da plenitude e da exultação. Ao contrário da sorte mordida, que agora a mantém a ferros, cativa de um amor funesto e de prazeres furtivos.
De uma vida madrasta.
De uma tristeza molesta.
De uma sorte malvada.
«Ai, que longa é esta vida! / que duros estes desterros! /
/ Esta prisão, estes ferros / Em que a alma está metida!»
Ela que em seus transportes quer do tudo o mais, e mais ainda.
Nos êxtases e nos arrebatamentos, nos abrasamentos, levando-a até às cisternas das águas interiores, insalubres e contaminadas.
Sente-se idêntica às esposas de Jesus no sopro de bilro, no excesso, na entrega, na urdidura do apelo, na trama tecida dos pensamentos revolvidos, perturbadores e revoltosos; o fim adivinhado em vez de perceber o significado da vida.
Devedora do grão e da noz.
Culpada do delito de amar.
Comprometida com a desafeição.
Entre o sofrido e o tomado à revelia da dor.
Recordando as delícias, o gosto a ambrósia do fruto proibido do Éden…
«Ó belíssima forma, / ó suavíssimo perfume de desejáveis delícias», escreveu Hildegarda, sabendo as estrelas a esvaírem-se no céu entorpecido pela bruma da alvorada.
Reparando no olhar enchameado de Gonçala, Leonor envergonha-se, mas sem querer voltar a senti-la palma com palma levanta-se furtiva, olhos na pedra, a recuar para a saída; encostando, colando a sua ilharga à grade, durante um vertiginoso segundo: a amparar-se, recuperando da tontura que pretende derrubá-la? Ou como quem pede desculpa à amiga da traição, da cobardia?
Mas indo já deslizando, quase correndo, saia a restolhar no chão, a embrulhar-se-lhe nas pernas. E antes de desaparecer na curva apertada do corredor volta-se para trás, mão lívida e trémula a tapar os lábios secos, como se acenasse ou sustivesse um grito.
†
Já caíra a noite quando Pedro aparece, sem se fazer anunciar, em casa da irmã. Leonor, que aguardando a chegada do marido imagina serem dele os passos de homem que se aproximam e param atrás dela, não desvia os olhos do espelho diante do qual enfeita os cabelos com nós de fita de cetim escarlate, presos com pequenos alfinetes de pérolas e turquesas. Mas vendo reflectida no espelho a figura alta e magra do irmão, que aliás tem por hábito procurá-la a desoras, sorri-lhe divertida, erguendo-se para abraçá-lo. E sentindo o gosto meigo da ternura, pergunta por brincadeira:
– A esta hora não deveria o meu irmão já estar em sua casa?
– Não sem primeiro te dar a notícia que me chegou há pouco: o ministro Luís Pinto nomeou o teu marido tenente-general e inspector-geral de Infantaria. Mais uma vez conseguiste, mana, ganhaste!
A Leonor custa-lhe a acreditar no que acaba de ouvir. Depois de anos de empenho e teimosia, ora procurando os momentos mais tranquilos da Rainha D. Maria, buscando a sua antiga protecção, ora trabalhando no sentido de despertar o interesse e a conivência da Princesa do Brasil, Carlota Joaquina, o resultado das suas diligências decepciona-a.
Pedro, que esperava de Leonor uma explosão de alegria, diante do seu silêncio olha-a, e é com espanto que a ouve dizer indignada:
– O posto dado a Carlos Augusto está muito abaixo da sua condição! Será que não consegues descortinar as manobras onde elas se encontram? Aí anda mão do bispo-confessor da Rainha, que me intriga com Sua Alteza por eu ter sido protegida de frei Inácio de São Caetano.
Pedro julga ouvi-la acrescentar para si mesma, num tom de amargura:
– É muito pouco para o tanto que me é devido.
†
«Quando juro, está jurado», costuma dizer em jeito de promessa. Ao voltar de França jurara a si mesma aceitar o que a vida lhe desse, mas sendo tão parco e pobre, tão pouco o recebido, depressa se impacienta com a própria sorte minguada.
Leonor espera e deseja muito mais da vida. Anseia pelo tudo, recusando a mediocridade desprovida de Luzes que a rodeia, sem glória nem grandiosidade de nenhuma espécie.
Foge-lhe a esperança, rasteira como erva daninha, na vontade que se afunda, mas também se assanha, sem se reconhecer nessa absoluta ausência, nesse marasmo. E nem mesmo o espelho lhe devolve a imagem quando nele se olha.
Sem retorno.
Como se estivesse transformada num daqueles errantes seres nocturnos sem sossego, bebedores de sangues.
Cada uma das cartas chegadas de Paris traz consigo a vertigem intacta, a querer reacender-lhe a chama entretanto extinta; falando-lhe de uma história que deixara de lhe pertencer, ao rejeitar, ao abandonar a sua trama revoltosa. E através das notícias que lhe mandam vê as amigas a caminharem em direcção a um futuro do qual ela se encontra para sempre excluída.
Mas essas cartas também arrastam consigo memórias que representam um bálsamo,
para o seu coração amargurado.
†
A Rainha fita-a com atenção, apesar da enxaqueca causada pela insónia que a martirizara até de manhã. Encontra Leonor triste e exaurida depois do parto, tal quando da sua chegada de França. Rebeldia contida, no entanto, em cada gesto comedido, na palavra esparsa impondo regras a si mesma, olhar lento e teimoso no esgueirar-se.
«Dubiedades», pensa D. Maria, já distraída com as próprias preocupações e medos, pois os folguedos que continuamente lhe proporcionam nessa primavera, querendo distraí-la, sempre lhe pesam no coração dorido.
Atormentando-a ainda mais.
Espírito a desejar involuntariamente toldar-se, fugir para o luto onde submerge, a afundar-se debaixo da morbidez das cinzas, dos cinzentos e dos negrumes dos véus e das capas, alheada dos ocres e dos vermelhos dos vestidos de gala, dos corpetes e das saias onde os dourados sobressaem e a Corte usa nos bailes e nas regatas que ela tanto detesta e a angustiam, mas para os quais o filho e a nora Carlota Joaquina a empurram.
Levam-na a passear no Tejo nos escaleres reais, indiferentes ao seu desagrado por rios e mares, tentando mostrá-la ao povo mais doente do que na verdade está, enquanto o Príncipe do Brasil toma para si o poder. Consta que em breve começará a assinar os diplomas reais com o próprio nome.
Refere-se à Rainha sua mãe como estando desarrazoada, desatento no esquecimento a que a vota, insistindo em que se mantenha fechada nos seus aposentos, entregue às aias e senhoras fidalgas, aos físicos que pouco mais fazem do que entorpecê-la com láudano e ópio, ou enfranquecê-la com o sangue vertido quando lhe lancetam as veias dos braços já feridos.
– Tanta água! – comenta D. Maria num tom melancólico, compondo o vestido e defendendo os olhos com os dedos trémulos da alacridade do sol, que tem como efeito nefasto fazê-la perder-se ainda mais no negrume de uma tristeza imensa, onde mergulhara depois da morte do marido e dos filhos.
Agastada, repele o seu novo confessor D. José Maria de Melo, e chama por aquele que está morto e tanto lhe falta. Mesmo assim, o bispo do Algarve torna sempre, solícito, a tentar tranquilizar a soberana com a sua bênção, que ela nem pede nem quer.
Naquele dia, porém, D. Maria leva consigo Leonor, arrastando-a. Mão seca fechada em redor do pulso estreito da sua valida e afilhada, que não reclama, a querer serenar a Soberana com uma aparente tranquilidade silenciosa.
Debaixo do palanque de brocado com debruns e franjas prateadas, escudo real lavrado a fio de ouro, terço de marfim e brilhantes em cima do regaço, D. Maria inquieta-se quando o barco se afasta da segurança da margem e a transporta para a aventura do rio. As damas de sua companhia, as camareiras e as açafatas formam à sua volta uma espécie de cordão dentro do qual se abriga. Sem nunca largar o braço de Leonor, fá-la tomar lugar a seu lado.
– Anda, menina! Anda, menina! – murmura desconexa, apesar do olhar lúcido.
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Quando começa a constar com insistência que o Príncipe D. João, invocando a persistente situação de moléstia de sua mãe a Rainha, pretende chamar a si as funções régias, Leonor procura o Dr. Tamagnini, agora médico da Corte.
Mais do que saber a sua opinião no que respeita à misteriosa doença de D. Maria, Leonor deseja contestar o diagnóstico de loucura entretanto tornado público pelos físicos da Soberana. Indignando-se contra a ligeireza com que todos parecem aceitar o estigma de insanidade atribuído à Monarca que, afinal, se limita a cumprir um profundo e sentido luto feminino.
– No espaço de meses morreram-lhe dois filhos, dois netos, o marido e o confessor! Na Antiguidade, as mulheres levavam anos a viver os seus lutos…
– Acontece, D. Leonor, que D. Maria é uma Rainha. Há deveres que não se adiam, decisões urgentes a serem tomadas. O país não pode ficar parado devido à sua tristeza.
Leonor não se cala: contesta, argumenta, dá exemplos de casos idênticos, quer levar o médico a rever e mudar o seu próprio diagnóstico, arrastando consigo, quem sabe, o parecer dos colegas.
A impedir o afastamento da Rainha.
Ao chegar a casa cansada e desiludida, Carlos Augusto, que a espera, dá-lhe a notícia há muito temida:
– D. João acaba de tomar as rédeas do poder.
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– Constou-me que a senhora condessa de Oeynhausen continua a encomendar livros do estrangeiro!
Os olhos pequenos e matreiros de Pina Manique resvalam na transparência clara do olhar de Leonor, que o fita a direito.
Incomodado, detecta nela mais uma vez o desafio. No seu meio sorriso velado adivinha a marca de um desdém que o ofende, por ser fruto da noção de superioridade que, em relação a ele, D. Leonor de Almeida não ilude, fugindo quanto pode de lhe dirigir a palavra. Mas a perguntar-lhe algumas vezes, de passagem, cheia de ironia:
– Então, senhor Intendente, ouvi dizer que Vossa Excelência já descobriu maneira de censurar a raiz do nosso pensamento?
Disfarçando a raiva, ele repreende-a, então, sorrindo de forma forçada e lívida:
– A senhora condessa gosta de brincar com coisas sérias!
E certo de ela entender onde está a ameaça dissimulada naquilo que diz, afasta-se relutante, tomando gosto ao amargoso travo da raiva impotente. Mas um dia, não se contendo, Pina Manique pergunta-lhe, por entre os acordes de um concerto para piano de Mozart, que ambos escutam na Sala da Música do Palácio de Queluz:
– Por acaso Vossa Excelência será apologista do filosofismo e do veneno das ideias estrangeiras?
Leonor ri-se-lhe na cara, a troçar do seu provincianismo.
– Quem não deve não teme, senhor Intendente-Geral da Polícia – acaba por lhe responder alto, a fazer gala de o provocar em plena Corte, à vista de todos.
Mas Pedro logo acode, habilidoso, a afastar a irmã, que arrasta consigo para o Jardim de Malta, longe de ouvidos alheios, a ralhar-lhe:
– Que imprudência, Leonor, tens de guardar mais cuidado! Sabes bem como o Intendente te persegue!
Escondido a espreitar por entre os cortinados de damasco de uma das janelas da Sala da Música, Pina Manique distingue-lhes os vultos, apercebendo-se apenas que discutem junto ao lago, entretidos com os seus jogos de água.
Remoendo as audácias da condessa de Oeynhausen, segue os movimentos dos irmãos, mal iluminados pelas tochas e pelas velas acesas sob as campânulas de cristal e prata, que lhes defendem as chamas trémulas da áspera aragem nocturna.
Pedro e Leonor não sabem que, ao longo das alamedas recortadas pelo buxo e pelas árvores onde o negrume se abriga, estão ocultos os «moscas» do Intendente-Geral da Polícia, embuçados e atentos, tentando entender o que eles dizem.
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Quando Catarina chega é uma turbulência, uma tempestade.
Uma alegria empolgante e diversa, que leva Leonor a fazer-lhe todas as vontades.
Cantam, recitam poemas escritos na véspera, uma mais sensual e dolente, a outra mais racional. Bebem limonada, chá ou licor de romã.
Tocam modinhas brasileiras.
Por vezes fecham-se na penumbra perfumada do escritório de Leonor, onde ficam a conversar durante longas horas.
Há também tardes em que saem na sege de Catarina e partem um pouco ao acaso: passam pelo Rossio e descem a caminho do Tejo, onde ficam a admirar a luz do crepúsculo, enquanto o sol se esconde no horizonte, mergulhando de súbito nas águas limosas como se suicidasse.
Mas elas riem como duas raparigas em flor,
divertem-se no gosto que ambas têm em sentir crescer a conivência e a amizade uma pela outra.
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Chamada pela Princesa Maria Francisca Benedita, Leonor comparece muitas vezes na Corte, onde D. Maria, que se enreda nas suas depressões e melancolias, parece ficar mais desanuviada quando a vê. No entanto, sempre que pode, Leonor escapa-se e vai ao encontro de Carlota Joaquina que, durante os dias entornados e dolentes do verão quente de 1792, vive mais nas sombras ardorosas dos jardins do que dentro da tristeza austera do Palácio.
Rodeada pelas suas damas, aias e açafatas espanholas, assim como pelos músicos que arrasta atrás de si, a Princesa do Brasil senta-se em tapetes persas estendidos sobre a relva, reclinada em almofadas de seda e shantung, debaixo da escureza estriada dos loureiros e dos limoeiros que ladeiam as alamedas.
Faz questão de ficar o mais longe possível das gaiolas dos pássaros exóticos, de cores rutilantes e bicos sedentos, penas macias e espessas onde os tons se misturam e adoçam sob as asas. Incomoda-a o acossado olhar e o grito estrídulo das águias aprisionadas, embora a excitem os rugidos das feras enjauladas, assim como o odor ríspido e seco dos macacos e das corças, o cheiro almiscarado dos tigres trancados nas jaulas, à mistura com os perfumes doces e laboriosos dos ananases que chegam do Jardim das Estufas.
Vestidas de cassa transparente, de plumas, de rendas e sedas e cetins dormentes sobre a pele, tules alvacentos e esvoaçantes a descobrir a nudez dos ombros e do início dos seios, que os decotes ousados mostram, elas reclinam-se lânguidas, húmidas de suor e salpicadas pela água das cascatas e das fontes, dos repuxos dos tanques onde mergulham os pulsos nus, estonteadas de calor.
Leonor junta-se-lhes num fascínio incomodado, de início calada, tímida e arredia de futilidades e quebrantos. Mas logo a Princesa Carlota Joaquina lhe pede versos, batendo palmas e puxando-a para o seu lado. E ela, sem se fazer rogada, recita no meio de um silêncio que se vai impondo aos poucos.
Na calidez da tarde deixa-se inebriar pelo próprio talento, encantada com os olhares de admiração pousados nela, como se a redescobrissem na avidez da escuta. Em seguida irão pedir-lhe mais poemas, e ela voltará a ceder com agrado, levantando-se sem pressa, surpresa consigo mesma, gostando dos aplausos, dos sorrisos sinuosos e ambíguos dos fidalgos que a cortejam com a lisonja fácil, que apesar de tudo a perturba.
Mais tarde chegarão os licores, acompanhando o pão-de-ló molhado em malvasia e pouco a pouco, sem darem por isso, chega o crepúsculo que parece descer relutante no horizonte manchado pelas árvores. Depois os criados acendem as velas e os archotes, a incendiarem as mil flores dos jardins com as suas chamas tremeluzentes, ao som das malaguenhas e dos boleros dolentes, a fazerem amolentar os corpos que estremecem, arrepiados, quase doendo no desejo que encerram.
Pelas janelas entreabertas do palácio escapam muitas vezes sinais assombrados da aflição da Rainha:
– Jesus! Jesus! Virgem Maria!
Leonor arrepende-se de ter ficado longe da Soberana, tentando esgueirar-se de olhos baixos, com receio de encontrar a expressão reprovadora da Princesa Maria Francisca Benedita, que a mandara chamar.
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Discute com Carlos Augusto por causa de Bocage.
A frieza do tom e dos argumentos que o marido usa ao tentar mostrá-lo ignóbil a seus olhos, afasta – pensa ela – qualquer hipótese de ciúme.
Isso tranquiliza-a.
A Leonor parece apoquentá-lo o mau exemplo da boémia, para ele ameaçadora e insuportável, que o poeta transporta consigo. Passivo e evasivo, incomoda-o a irreverência, detesta a ironia, a sátira, temendo que as palavras do poeta e o exemplo da sua vida livre acabem, de algum modo, por contaminar a aparente acalmia em que terá caído o casamento de ambos. Transformando o direito do seu tecido aparentemente intacto, num avesso convulso e desorganizado.
– Não me parece conveniente convivermos com quem anda pelos botequins e pelos cafés até altas horas da madrugada, embebedando-se em más companhias. Misturando versos com grosserias e anedotas torpes.
Leonor escuta-o, ao princípio calada e ressentida, acabando sempre por se insurgir contra a mesquinhez destes julgamentos sumários. Uma vez por outra tenta usar de humor para ocultar a desilusão que sente perante a mesquinha atitude do marido.
– Terás por acaso receio que ele me corrompa?
Carlos Augusto olha-a, surpreso com o tom agreste que reconhece dos últimos tempos passados em França: deixando o desafio já marca na expressão do seu rosto, na determinação espelhada no brilho dos olhos de súbito endurecidos.
– Vais deixar de te encontrar com ele nos almoços do Pombeiro e mesmo no salão de Teresa. E não quero que ele continue a frequentar a nossa casa.
Apercebendo-se do leve mas impaciente encolher de ombros da mulher, dá-se também conta do seu olhar de desprezo que o apunhala, lâmina certeira a dilacerar-lhe o orgulho e a virilidade, retalhando-lhe o coração em desamparo. Mesmo assim, não podendo nem querendo recuar no que dissera, em voz ainda mais alta torna a proibi-la de ver Bocage. Mas Leonor levanta-se e enfrenta-o, perguntando num tom acerado:
– Estou por acaso diante de uma ordem do meu senhor?
Carlos Augusto encolhe-se, arrependido da sua excessiva ousadia, lamentando ter ido tão longe no verbalizar do que era, menos que uma ordem, um veemente pedido de atenção. Mas como é seu hábito, quando se lhe depara a força e a arrogância dos outros retrocede, frágil e fraco.
– Desculpa-me! – pede, hesitante, estendendo os longos dedos a tocar a tepidez macia do ombro que ela esquiva, afrontada.
Altiva.
Utilizando o orgulho como se fosse uma arma.
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Quando vai às sessões da Real Academia das Ciências e encontra o abade Correia da Serra, mantêm, juntamente com o duque de Lafões, longas discussões e eternas controvérsias, pois raramente se encontram do mesmo lado das questões que lhes interessam.
Leonor insurge-se sempre contra o facto de as mulheres não serem admitidas como membros da Academia. Motivo pelo qual ela se recusa a participar nas suas actividades com a mesma entrega de Teresa, a quem a Academia tanto deve, mas que, oficialmente, continua a ser uma mera sombra laboriosa.
Nesse dia, porém, o duque de Lafões nem dá por Leonor, que escuta o diálogo dele com o ministro Luís Pinto de Sousa Coutinho acerca da neutralidade que, segundo Lafões, Portugal deveria manter no caso do envio de um oficial para juntar-se ao Estado-Maior do Exército Prussiano, que na Holanda se propõe combater as forças da recentemente proclamada República Francesa.
Estupefacta, Leonor fica a saber que o secretário da Guerra e dos Negócios Estrangeiros já contactara Pedro, no sentido de ser ele o oficial a assegurar a ligação.
Então sai correndo, sem responder ao sinal de Teresa que a segue, aflita com o sobressalto evidente nos modos da amiga.
– Espera por mim! – grita-lhe ainda, mas ela já está a entrar na sege, de onde se debruça para o cocheiro a mandá-lo seguir para casa de Pedro, na Boa Morte.
†
Pedro recebe-a, entre o cuidado e o riso.
Temendo o seu sobressalto, tentara esconder da irmã a ida para Inglaterra. E agora ali está ela à sua frente, muito pálida e trágica: olhar zangado e os lábios trémulos, de quem teme o pior para a vida dele.
Primeiro tenta acalmá-la, mas continuando a vê-la ofendida brinca com o seu amuo, desarruma-lhe o cabelo como fazia quando era pequeno, e Leonor, terna e condescendente, lho consentia.
Ele sabe que vai partir dentro de dias.
†
Traz a palidez no rosto quando regressa da inspecção pelas províncias do Reino.
Às vezes sente-se desmaiar.
Leva as mãos ao peito dorido sob a farda de fazenda inglesa, que cedendo à pressão dos seus dedos se encosta à seda branca da camisa, amachucando o folho do peitilho.
Olha-se ao espelho e assusta-se com a imagem lívida que lhe é devolvida: olhos febris, cabelos a ficarem grisalhos, olheiras fundas a devorarem a face cavada. Mas, ao escutar o passo ágil de Leonor, logo esconde a preocupação iludindo a dor que desce a morder o braço esquerdo, para em seguida se ir fechar como uma algema em redor do pulso latejante.
Segue para o meio do quarto, pernas moles no passo estonteado, a tropeçar no tamborete forrado de veludo carmesim que o desequilibra. Leonor detecta-lhe o semblante esvaído e olha-o desconfiando. Desde que ele regressara a Lisboa acha-o calado, distraído dela e das crianças, mesmo de João Ulrico a quem tão especialmente ama.
Mas ele disfarça a vertigem, hábil no jogo do engano, aflorando-lhe as espáduas que o decote do vestido de cetim cor de ametista deixa nuas.
Leonor estremece ao seu toque.
Permitindo que o calor da pele dele ganhe a sua.
Desejando-o sem artifício, mas também sem ardência e exaltação.
Sentindo-a distante, embora terna, Carlos Augusto solta-a e afasta-se conformado.
Por mais que tente jamais a alcança.
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Ao contrário do seu modo de agir habitual, Teresa aparece de manhã cedo na casa da amiga, sobe correndo a escada que leva aos quartos, empurra a porta do toucador onde Leonor se arranja, e sem a beijar deixa-se cair numa pequena cadeira a seu lado. Desprende-se-lhe o cabelo do chapelinho negro, a escapar dos alfinetes de brilhantes e pérolas, indo tombar como seda pelas suas costas de magra. Tem a tez macerada, as olheiras escuras, o olhar pardacento, desinteressado e apático de quem pouco dormiu, os lábios despidos de carmim a franzirem-se de tristeza e amargura.
Acaba por dizer, num sufoco:
– Decidi entrar para o convento de Santos.
Leonor olha-a e escuta-lhe os argumentos, sem palavras para contrariar as dela, e preferindo não dizer o que pensa, acaba por invocar, embora de forma velada, a própria experiência.
– Sabes o que é viver em clausura, por trás de portas trancadas e de grades?
– Eu não, mas tu sabes. No entanto, são experiências diversas, pois enquanto Pombal te enclausurou, eu entrarei para um convento por minha vontade.
– E a liberdade, Teresa?
– De que me serve a liberdade de que tanto falas se não a uso? Talvez até venha a sentir-me mais livre num mosteiro do que em casa.
Percebendo que nada do que lhe disser será capaz de demovê-la, Leonor opta por agarrar as mãos de Teresa, e embora não possua remédio para curar a inquietação que a mina, nem resposta para as dúvidas que a torturam, começa a tranquilizá-la com a ternura; desentrelaça-lhe os dedos finos que logo se aninham nos seus.
– Não estejas aflita! Por uma vez na vida cumpre a tua vontade, não te forces a nada.
A amiga anseia por um lugar de clausura onde possa entregar-se a si própria? Então, não irá ser ela a demovê-la. E embora, por seu lado, necessite de liberdade para ganhar a lonjura, entende o desejo de viver num lugar fechado, onde seja possível a entrega à reflexão e ao pensamento.
Defendida do mundo.
Não obstante as suas dissemelhanças, Leonor continua a acreditar que, de modos diversos, ambas perseguem o mesmo ideal.
Um sonho idêntico.
Com o seu lenço de cambraia, seca as lágrimas transparentes de Teresa, redondas como pérolas, vertidas pelos seus olhos verdes, chovendo ao longo do rosto. Em seguida, cuidando em não rasgar o véu nocturno do chapeuzinho preto, tira-o com cuidado dos seus cabelos, desmanchando-lhe os cachos dos caracóis já meio soltos dos ganchos de prata e das travessas de tartaruga, para lhe acalmar em seguida com água-de-colónia o latejar febril das têmporas de pétala de rosa.
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Carlota Joaquina faz questão de levar Leonor consigo sempre que sai de Queluz na companhia das suas damas, das infantas, das meninas fidalgas, aias e açafatas, para ir caçar na tapada de Mafra.
Então é ela quem manda, princesa matreira e rutilante. Pontaria certeira, melhor que a do marido, montando de calças à maneira dos homens, ou de pernas nuas debaixo das saias largas, a apertar entre as coxas as ilhargas húmidas de suor do seu cavalo branco, malhado no focinho e nas patas.
Olhar dolente e andar coleante, passeia-se pelos salões espaçosos do Palácio de Mafra, onde se dança até de madrugada, lustres de cristal com centenas de velas a expulsar o negrume dos enormes salões onde consta aparecerem fantasmas, almas atormentadas, depois da meia-noite.
Mas a Princesa do Brasil não se atemoriza, gosta de se afastar do Paço de Queluz recortado por longos corredores obscuros que parecem formar uma espécie de labirinto, onde a cada passo espera encontrar o Minotauro, empenhado na sua vigilância vingativa.
Na tapada de Mafra, pelo contrário, o ar é lavado e seco, detectando ela apenas o cheiro esquivo dos veados, e o outro mais seco e acre dos javalis que persegue, vendo-os fugir à sua frente.
Recusando as caçadas, Leonor prefere ficar no palácio, apesar de ele a atemorizar um pouco. Refugia-se na biblioteca riquíssima ou na saleta dourada e verde que a princesa mandara arranjar para ela escrever em sossego os seus versos. Papeleira de nogueira entalhada com alçado, onde ficam os cadernos e o tinteiro de cristal e prata, pena largada em cima dos poemas entretanto escritos. À direita encontra-se o contador da Índia, e já perto da janela que dá para a varanda, está o saltério de macieza branda, tampo pintado com flores esvaídas.
É aí que se demora, junto dos livros, dos cadernos, das pautas de música, descendo ao pátio apenas quando os caçadores partem e quando regressam, anunciados pelo som metálico das trompas, do latido nervoso dos cães e daquela espécie de gemido surdo que os cavalos arrastam consigo, num pressentimento de perigo que poderá surgir do meio do tojo, das silvas e das sombras das árvores. Há também os risos, as vozes subidas dos fidalgos excitados pelo vento áspero que lhes fustiga as caras.
Carlota Joaquina é a única das damas a não montar à amazona, escarranchada e sem chapéu, cabelo crespo que na pressa se desprende. Cara lavada, tez de azeitona de um moreno cerrado, onde o carmim não se adapta. Olhos pequenos e ligeiramente enviesados, que pela vivacidade captam sem desagrado a atenção daqueles que a rodeiam.
No seu vestido bordado de tafetá cor de cereja, Leonor sente-se deslocada, mas mesmo assim afoita-se por entre aqueles que, em trajes de caça, já estão montados nos cavalos que os palafreneiros continuam a segurar pela arreata.
A Princesa do Brasil tenta ainda convencê-la a participar na caçada, embora no íntimo prefira que ela fique escrevendo: versos que mais tarde abrilhantarão os serenins, as serenatas, os saraus. Poetisa a competir em talento com Bocage, Curvo Semedo, Caldas Barbosa e Francisco Joaquim Bingre que, apesar de contrariados, vão aparecendo, em parte arrastados por ela, mas também curiosos com o fausto um tanto fanado, com as caçadas cruéis e estridentes atrás dos animais atordoados, ziguezagueando pelas matas, com as donzelas lânguidas que aproveitam para conquistar com as suas rimas.
Poetas a fitarem com irónica troça a ostensiva ignorância da fidalguia, assim como o alarido e a ostentação dourada, que a maioria das vezes esconde-mostrando a decadência.
Não obstante, acabam por se juntar aos caçadores, e quando chega a noite, durante os bailes, olham de soslaio a palidez das infantas distantes e das meninas fidalgas, roliças nos seus vestidos leves, seguindo já a moda francesa que a revolução simplificou: saias de crepe, de cassa e cambraia, corpetezinhos bordados a missangas e pérolas miúdas, pequenos casacos a bordejarem a cintura ainda marcada pelo espartilho.
Há também echarpes de tule que, em vez de cobrirem, sublinham os decotes e a curva macia dos ombros trigueiros, a fazerem sobressair a brancura inesperada e rosada das louras, que baixam molemente as pálpebras translúcidas, a sombrearem o azul-transparente dos olhos rasgados sobre as têmporas, como pétalas delicadas.
Na desordem dos salões e na turbação da sua câmara, Carlota Joaquina esquece-se com frequência do marido, que no entanto não deixa de se lhe impor durante as caçadas, discutindo os dois aos gritos a autoria do tiro entre os olhos do javali deitado no charco do próprio sangue, aos pés de ambos.
O Príncipe D. João fixa a mulher, descobrindo nela uma fealdade ostensiva e orgulhosa de si mesma que o atemoriza, e acaba cedendo.
Admitindo o fracasso.
†
Vencedora, a Princesa regressa ao palácio galopando à frente de todos, afastando-se veloz, fugindo aos convidados em busca da solidão e do silêncio das árvores que contorna, rasando os ramos mais baixos, sentindo no rosto o fustigar breve da folhagem e o ar tépido que a sua rapidez desloca.
Prefere experimentar a sós o gosto da vitória sobre o marido, levando à boca as mãos ensanguentadas do afago no pêlo suado do javardo morto e ainda quente; porque ela sempre desmonta, a curvar-se sedenta, buscando nos olhos escancarados do animal que abatera a fundura da morte.
Ponto culminante, inexcedível.
Só parecido com o êxtase.
Respirando então, num gozo inteiro, o cheiro já azedo da derrota que o corpo tombado exala. Exangue, mas ainda possante, com uma força revigorante de que desconhece o gosto, apesar de ávida. Únicos seres a quem guarda respeito, mas nos quais se vinga do destino que a trouxe até Portugal. Portanto, quando lhes respira a morte não é só júbilo o que sente, é a própria vida, num subido ardor, a incendiar-lhe o corpo numa vaga de lume.
†
Quando chega a casa de Catarina encontra-a na companhia de Maria Ana Josefa, numa conversa exaltada e nervosa; antes mesmo de entrar na saleta tão sua conhecida, toda em rosas suaves, cetins de macieza lânguida e lilases nas jarras de cristal de Veneza, Leonor escuta-lhes as vozes, ora surdas na tensão do diálogo, ora em atropelo nas palavras que lhes escapam num tumulto.
Passa devagar a ombreira da porta cor de marfim. E as duas calam-se de súbito, olhar ansioso poisado nela – Catarina torcendo os dedos afuselados e Maria Ana Josefa muito pálida, olhos negros brilhando de uma excitação mal contida.
Numa renda de luz, o sol translúcido do fim do inverno esgueira-se, ainda tímido, para dentro de casa através dos vidros da janela que dá para o jardim, onde as árvores rumorejam com suavidade, a aragem a insistir nas folhas da magnólia que brilham à claridade ácida do meio-dia. Por segundos, à roda delas tudo parece imobilizar-se. Leonor dá três ou quatro passos indecisos, a quebrar o encanto onde parecem ter ficado presas.
Catarina levanta-se de rompante para a ir abraçar, as palmas das mãos trémulas levitando junto dos seus ombros, mas sem na verdade lhes tocar, enquanto a filha do visconde de Vila Nova de Cerveira se mantém imóvel e em silêncio, parecendo um pouco retraída, encolhida entre as almofadas que a cercam e onde na verdade se aninha. Mas acaba por ser ela quem, em surdina contrita, dá a Leonor a notícia aterradora:
– Mataram o Rei de França, senhora Condessa. Luís XVI foi guilhotinado!
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