As Luzes de Leonor
Caderno
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«Parti ontem de Barcelona e fui dormir não sei onde, mas creio que se chama Guiquete, a terceira casa num deserto ao fundo dos Pirenéus. A solidão, o ar selvagem dos seus habitantes, a linguagem bárbara que eu mal compreendia porque não era o verdadeiro espanhol, tudo me provocou um terror quase superior às minhas forças, mas fazendo da necessidade virtude desci do carro com uma pistola na mão (descarregada, diga-se de passagem). Uma das criaturas que dificilmente se acreditaria ser da espécie humana iluminou-me, um caleo na mão e olhando sempre para a pistola. Apercebi-me de que ela tinha tanto medo de mim quanto eu tinha dela; então depus bravamente as minhas armas mas o terror tinha-se espalhado na casa e tive dificuldade em fazer com que a dona do albergue viesse falar comigo. Esta mulher com seis filhas e um velhote doente eram todos gigantes que me faziam medo; bem se vê que me aproximo de La Mancha, meu caro amigo, e que as viagens não são suficientemente poderosas contra os preconceitos da infância. À meia-noite ou pouco antes chegou uma carroça cheia de mulheres e homens todos enormes, falando alto, armados até aos dentes e falando como D. Quixote. Eu ainda estava levantada e os seus discursos não me tranquilizaram nada, mas no meio dos meus terrores, as filhas da estalajadeira, que estavam completamente maravilhadas com os meus dois castiçais de prata, com os berloques do meu relógio e com um espelho da minha toilette, rodearam-me, a curiosidade sendo nas mulheres mais poderosa do que o medo. Perguntei o nome a uma que tinha um rosto mais cristão. Com uma espécie de reverência polida à sua maneira, (ela) gritou-me muito alto que se chamava Esperança; esta palavra despertou-me um pouco e apercebi-me então que havia ainda este recurso para sustentar os infelizes mortais. Deitei-me mais tranquila mas o dia seguinte esperava-me. Juliana acordou com febre alta de que só me dei conta na carruagem, e fui obrigada a parar em Vilafranca onde passei o dia bastante inquieta: à força de cuidados e de assistência adequada a pequena está bem e continuaremos a nossa viagem amanhã.»
Vilafranca, 1 de Outubro de 1787
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Sempre que Leonor manda parar o carro, o abade Correia da Serra aproveita para entrar nas matas que vão marginando as estradas.
Ele gosta mais quando o cocheiro, para encurtar caminho, mete por atalhos escusos onde quase sempre se perdem. E enquanto ficam a discutir como vão poder encontrar o desvio certo ou o caminho de volta, inclinado por entre ervas, arbustos e raízes e plantas silvestres, ele procura as espécies raras ou para si desconhecidas enquanto botânico, mas também aquelas que lhe pareçam ou saiba serem comestíveis.
Alteia, líquenes, chicória selvagem, erva-do-diabo, ambrósia, funcho, eufórbio, malvaísco…
Enche sacos com tudo o que encontra e à noite entretém-se a estudá-los, a admirar-lhes as diferenças, a catalogá-los.
Por vezes a cozinhá-los, até a comê-los. E como é hipocondríaco, no dia seguinte, enquanto vomita e Leonor o olha condoída com a sua aflição, imagina-se perto da morte.
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Num tumulto de tempestade, as águas do Ebro transbordaram do seu leito e invadiram Tortosa, num rompante de pressa que metia medo. E enquanto, horrorizada, Leonor olha o desastre à sua volta, contam-lhe o que se passou.
Primeiro ouviram-se os estrondos sombrios e ameaçadores de trovões por entre o ruído de chuva exaltada a querer ser dilúvio; depois apareceram as primeiras águas revoltas, grossas, opacas e alterosas, com ondas a fazerem de mar, subindo ameaçadoras até às casas baixas, a infiltrarem-se pelas frinchas das portas e das janelas, pelas rachas nas paredes, a entrarem e a invadirem as salas, os quartos, inundando, ensopando e destruindo, arruinando tudo por onde passavam.
Devastando, afogando.
Dentro da sua carruagem, rodeada por uma multidão faminta que aos gritos e soluços choram os seus mortos queridos, Leonor vai dando conta dos deslizamentos das terras, das derrocadas que continuam a fazer-se ouvir.
Enquanto espera às portas da cidade de Tortosa que o governador, a quem escrevera, a mande buscar, ela desce do carro a tentar auxiliar, e ao querer saber o número de mortos replicam de forma evasiva. Mas um velho destroçado, com lágrimas deslizando ao longo da cara, acaba por lhe dar uma terrível resposta:
– Morreu toda a minha família, a minha filha, o meu genro e os meus seis netos.
E ao dizer isto, cai para o lado já sem vida.
Os soldados que entretanto tinham chegado conduzem-na ao hospital, onde o consternado governador se encontra a dar o apoio possível a quem está vivo. E quando ela lhe comunica a vontade de partir, disponibiliza-lhe um grupo de militares, comandado pelo major Louís de Cuerda, que a ajudam a reunir as suas gentes, tentando encontrar maneira de ela poder prosseguir viagem. No entanto, será o tenente-coronel dos voluntários reais, D. Joseph Carbonell, que Leonor reconhecerá mais tarde como «o mais bravo e mais intrépido soldado do Rei de Espanha», o seu anjo da guarda, que a ajudará a prosseguir caminho por entre uma desgraça tão dilacerante que a todos parece incontornável. As pessoas atingidas pela tormenta limitam-se a chorar ou a procurar os desaparecidos. A aflição e a confusão continuam imensas, numa amálgama de destroços, lama e corpos a boiar nas águas barrentas e grossas.
Mas diante da decisão inabalável de Leonor em meter-se ao caminho, o que implica atravessar Tortosa completamente inundada, o tenente-coronel engenheiro A. Nodin resolve acatar-lhe o plano, levando a cabo o que ela lhe vai dizendo. E seguindo escrupulosamente as suas indicações, toma um grande barco a remos, nele manda fixar a carruagem, e fá-lo ladear por dois escaleres, cada um com doze homens munidos do necessário para os repescar em caso de infelicidade.
Cabeça descoberta e molhada, Leonor prefere fazer a travessia junto de D. Joseph Carbonell e do engenheiro A. Nodin, de pé nos madeiros mal alinhados do barco, onde além da sua gente seguem mais quarenta homens. Entre eles há um músico italiano a quem ela paga para tocar e cantar todo o trajecto, a distraí-los do perigo que na verdade correm. E até Amposta, convoca silenciosamente a Providência, com uma angústia que esconde de todos.
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Querida da minha alma
Em nenhum dos longos dias desta minha viagem deixaste de estar no meu coração ou te perdi do pensamento. Mas alegra-te, eu vou a caminho dos teus braços minha querida Tirce, amável amiga de quem tanto preciso e sempre me tem valido nas horas mais árduas e difíceis. Quando chegar a Lisboa vamos saber matar as saudades uma da outra, com a certeza de que entre nós nunca falta a verdade, a lealdade e o sentimento sereno.
«Emenda e emenda-me», pedi-te um dia, e nesta hora em que tanto necessito do teu conselho, embora já não estejas do outro lado das grades, continuas longe. Na verdade, querida Teresa, «só conversando contigo podia dar fim à multidão de coisas que me lembram para dizer-te», e agora que me aproximo de Madrid apenas tu conseguirás ajudar-me a escolher a maneira mais correcta de apresentar à Princesa das Astúrias a minha disponibilidade para me tornar a preceptora portuguesa de sua filha, a Infanta Carlota Joaquina, casada com o nosso Príncipe D. João.
Julgas-me louca, ou não estás certa das minhas capacidades de pedagoga, seguindo à risca o que retenho dos escritos de Rousseau? Afinal a Princesa da Beira é ainda uma menina com muito para aprender, e garanto-te não estar a desmerecer os ensinamentos do padre Filipe Scio, preceptor que a Infanta levou na sua comitiva para Portugal, e menos ainda de Domingos António Sequeira, professor de desenho e pintura da Família Real. Podes considerar-me uma convencida, mas aquilo que ensinaria teria outras bases mais sólidas, mais vastas, mais profundas, e ninguém melhor do que tu o sabe.
Esperando em breve poder dar-te pessoalmente novas desta minha demanda na Corte de Espanha
Até muito breve minha Tirce.
Tua fiel
L.
Valência, 15 de Outubro de 1787
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Inconformado com o seu amor infeliz, D. Diogo de Noronha conseguira seguir no rasto da Infanta portuguesa D. Mariana Vitória Josefa até Espanha, enquanto embaixador de Portugal em Madrid.
E como desde o casamento da Princesa com o Infante Gabriel só a conseguira ver raras vezes, sem nunca dela poder aproximar-se, derrama-se numa melancolia amodorrada, que o faz aquietar-se em tudo o mais na sua vida, engordando tanto que a si mesmo se desconhece ao dar com a própria imagem disforme reflectida nos múltiplos espelhos do Escorial.
Por isso, quando Leonor de Almeida chega a Madrid como uma tempestade de luz, acorda estremunhado e fica aturdido a vê-la brilhar em todo o lado, sem a ele recorrer, troçando da sua ajuda e débeis influências, recusando a hospedagem e a carruagem que lhe oferece.
Atordoado
diante daquela mulher tão bela quanto independente, de uma inquietude e fogo como ele jamais supusera existir. E pela primeira vez há anos, a imagem da Infanta Mariana Vitória Josefa começa a diluir-se no seu espírito,
a esvair-se, a desvanecer-se aos poucos.
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Quando Leonor se inclina respeitosamente à sua frente, num delicado requebro do corpo delgado, a Princesa das Astúrias fita-a com curiosidade, e descobrindo-lhe um ar inteligente e natural caldeado de altivez, interessa-se por ela, de quem já ouvira falar à infanta portuguesa Mariana Vitória Josefa, sua cunhada. E porque tem por astuciosos e falsos os comportamentos humanos, admira-se ao encarar pela primeira vez aquele olhar de mel, arguto e frondoso.
Leonor sente um calafrio de ansiedade a fazer-lhe estremecer ao de leve os ombros descobertos; nervosismo que a Princesa toma como sinal de espontaneidade, coisa que imaginava extinta há muito nas cortes de todo o Mundo. Alegre e impulsiva, Maria Luísa de Bourbón gosta de divertir-se, de jogar, de dançar, com uma alegria que os espanhóis não compreendem nem perdoam, desconfiados com a futura rainha que lhes parece demasiado ardente e livre para ser virtuosa.
Perplexa, continua a olhar a condessa portuguesa, aguardando uma palavra ou um gesto seu; encanta-a vê-la imobilizada na sua vénia, saia do vestido de seda cor de damasco aceso erguida pelos dedos esguios, bainha bordada a crivo bordejando a carpete persa. Acaba por sorrir, condescendente, e estendendo a mão delicada, onde brilha uma cintilante esmeralda, faz-lhe sinal para que se aproxime.
Agradada com a sua cortesia, Leonor julga aperceber-se da boa impressão que terá causado na Princesa das Astúrias, sem no entanto saber como há-de agir em semelhante circunstância; mas a sua inquietude não dura muito, pois nesse instante ouvem-se os primeiros acordes de uma peça musical de Domenico Scarlatti, e o salão imenso e austero mergulha numa concentração atenta.