As Luzes de Leonor
Angelus
O duque, apesar de não se mostrar agradado com o pedido, acaba por concordar em ter uma conversa com o conde de Oeynhausen mal este chegue a Lisboa.
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ANGELUS
Vejo-te percorrer o trajecto até Marselha e, inquieta, regressares na tarde seguinte a Avignon, para dias depois voltares e tornares, num turbilhão sem cautela, o rosto crispado e sem cor, olhos de sobressalto. E quando não estás a caminho de Marselha ou a ir na direcção de Arles ou Nîmes, andas horas a cavalo com arte de fuga,
fato de montar de fazenda inglesa, pernas de cada lado dos flancos do animal, a sentir nas mãos enluvadas o palpitar estremecido das veias do seu pescoço fremente e macio, enquanto correm unidos pelas matas densas onde a luz penetra a custo, bem para lá das muralhas da cidade.
Tal como ele, deves escutar o apressado bater do coração no peito em desordem, enquanto, como se fossem um só, saltam as cercas, os penhascos, os troncos das árvores decepadas pelas tempestades, os valados que vos tentam barrar o caminho.
Como se quisessem voar, galgarem o espaço e o tempo.
Chega-me o seu odor a gardénia e a água de rosas junto à nuca, onde os cabelos e a penumbra se enovelam e o perfume se afunda na pele, deixando nela um travo provavelmente agridoce.
Quando Phillipe Tournier aparece, mesmo sofrendo por ver-vos juntos, fico onde estou: sigo-vos, vigio-vos, vejo-vos ir travando conhecimento um com o outro, a perderem a noção das horas, conversando ao ritmo dos animais que seguem a passo, sem repararem que se entranham nos bosques, se afastam, se perdem.
Por vezes levam os cavalos à trela, noutras sentam-se no chão húmido e alcatifado de erva, de musgo, de líquenes e folhas, gravetos e agulhas dos pinheiros selvagens.
De tudo sou testemunha invisível:
dos vossos gestos inacabados, dos sorrisos incrédulos ou da trémula gargalhada cristalina, dos olhares a demorarem-se um no outro, para se esquivarem de seguida. Da perturbação cada vez maior que começa a tomar conta de ambos, em intimidades ainda tímidas.
De longe fico a olhar-vos, respiração suspensa e febril, sem saber o que fazer
dos meus sentimentos em pedaços.
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Mal desembarca em Lisboa, doente e com pouco dinheiro, o conde de Oeynhausen procura o seu cunhado Pedro de Alorna, que o recebe sem entusiasmo, mas também sem frieza. Escuta com atenção o que ele tem a dizer-lhe, e no final, evitando mais comentários, compromete-se a levá-lo até à filha que o conde não vê desde os seis meses de idade, já lá vão seis anos.
Carlos Augusto tem o coração apertado ao chegar à quinta dos sogros em Almada, na esperança de amolecer o coração do marquês de Alorna e conhecer Leonor Benedita, que quando ele avança para a abraçar e a tomar ao peito se esquiva, indo refugiar-se no colo da avó, a cobrir com as mãos o rosto miúdo.
«Vai beijar o teu pai», ordena sem grande convicção Leonor de Lorena à neta, mas a menina que o fita por entre os dedos fininhos cruzados diante dos olhos, começa a soluçar em surdina, assustada com aquele desconhecido louro que nem sequer sabe falar a sua língua.