As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 116 de 289

Páginas do PDF

As Luzes de Leonor

Angelus

Abstraída de tudo o resto ela tenta encobrir a muita emoção de que é tomada.

 

†

ANGELUS

 

Vai minha lua, dobra a esquina da tua existência; deixa para trás o que é da condição da queda, da prisão e do negrume. Vai minha alada, poetisa da luz do teu tempo, dona do teu destino, a ganhares uma outra vida no futuro.

Torna-te na grandeza que és.

Pudesse eu e levava-te,

dava-te a ver debaixo do vestido as asas que te despontam nas omoplatas, e séculos depois as tuas meias de vidro, os sapatos de cristal como o teu coração gelado,

Minha Isolda

e perdição,

em vez de água e de vinho eu beberia o filtro do amor que mata vindo das tuas mãos; falcão no meu próprio punho a voar ao teu encontro. As histórias que inventas ainda não me chegam vindas do lugar da tua língua, nem versos de tua fala na recusa da melancolia.

Minha alumbrada

no êxtase dos poemas que fazes e rasgas e retomas depois à tua imagem que ainda desconheces mas eu sei, de tanto vaguear pelo forro de nós, e agora me tens a teus pés, pois vigiar-te tornou-se já um hábito e ardente vício, na ousadia de me entender como teu prisioneiro, sonhando escrever-te cartas como Abelardo,

minha Heloísa.

†

Há dias em que Leonor julga perder-se

desamparada,

sem conseguir contornar os escolhos, as dúvidas, os medos adivinhados de súbito, desacertando-se com o coração e a alma atormentados que, por compostura e calamento, ela esconde de todos, buscando apenas na escrita e na leitura a dimensão da sua asa de voo.

A querer ignorar o desequilíbrio que desde o parto de Maria Regina a aflige, mas vai conseguindo iludir entre as recepções no Palácio Imperial, os recitais de música e os salões literários.

Há ainda as reuniões em casa de Metastásio, mais sedutor pela delicadeza e pela sensibilidade do que pela poesia, que apesar de tudo ela continua a amar, em discordância já em Chelas com a opinião de Filinto Elísio, espírito crítico e mordaz, demolidor da obra do velho poeta.

Leonor faz um enorme esforço para sair de casa, a contrariar a angústia que a leva a supor o negrume das cousas e das pessoas; no entanto, não se permite a queda na depressão,

indo e vindo das bibliotecas dos palácios, dos parques e dos jardins que percorre depressa,

como se fosse alada.

†

Ainda não se refez do choque: o Imperador José II acaba de mandar fechar em todo o Império setecentos conventos de ordens votadas à contemplação.

À oração?

Ordens de quem se diz votado à espiritualidade e ao misticismo. Mas ela lembra-se da ignorância, da tacanhez e da indolência da maioria das freiras de Chelas, ajoelhadas nos genuflexórios ou no chão gelado, intercalando as orações com pedaços de sono, cabeceando fingindo rezar, cabeça baixa para esconder os olhos fechados, dedos cruzados dos quais pendiam os terços de cruz balouçando.

Conhece por demais os vícios dos conventos, a maldade e as intrigas, as falas de desconfiança, a falsidade das madres, às quais nunca se afeiçoara.

Sabe da sua preguiça a coberto da simulação da fé e do rigor, ciente de ser a severidade, em muitas monjas, uma atitude eivada de calúnias e mentiras, recalcamentos e frustrações sem grandeza de espírito nem nenhuma piedade.

Experimentara por demasiado tempo o veneno daqueles casulos sufocantes e insalubres em que facilmente se tornam os mosteiros, onde os sentimentos sinceros se deixam contaminar por uma friagem tamanha que logo se acham destruídos. Frialdade mais eficiente para o desequilíbrio da alma e do carácter do que os ventos e as geadas no desgaste da saúde do corpo.

Porque se desassossega então com as medidas tomadas pelo Imperador em relação à Igreja?

Pergunta-se, indignada consigo própria,

confundida e perturbada num mesmo pensamento.

†

Carlos Augusto cala-se, exercitando a prudência.

Leonor, pelo contrário, exacerba-se.

Exalta-se.

O Imperador, para além de encerrar conventos e acabar com as ordens contemplativas, mandara censurar os sermões e proibir as procissões. E isso, sim, já a incomoda sem qualquer dubiedade. Acabando por confessá-lo a José II, de um modo cortês e respeitoso, mas também frontal, durante a audiência privada pedida por si a conselho do vigário-geral da diocese de Niederösterreich, o conde Ernest von Herberstein, seu confessor desde a chegada a Viena.

O monarca fita-a espantado, mas também agradado com a invulgar sinceridade, surpreendido com tanta ousadia. Escutando-a curioso e interessado na sua opinião contra a censura dos sermões e em defesa dos actos litúrgicos, sem com isso deixar de condenar, com o mesmo afinco, os desmandos, a ignorância, as injustiças e as crueldades dos padres e das freiras.

Leonor expõe as suas ideias com serenidade e precisão, calando-se ao dar conta, quase arrependida, do tanto que já ocupara o Imperador da Áustria.

†

A primeira coisa que ele faz quando chega ao quarto é pousar com cuidado a cabeleira austera, dois rolos horizontais alinhados abaixo das orelhas, que tem pequenas e bem moduladas. Antes de despir a casaca e o colete, alisa com as mãos a massa espessa do cabelo muito liso, de um castanho quase louro, onde Leonor gosta de afundar a lonjura dos dedos.

Observa-o a tirar a espada, bainha ajustada às ancas estreitas nas quais sente prazer em roçar as suas; nada a envergonha no imaginar daquilo que se coíbe e não faz. Por vezes pensa que poderia ter escolhido para casar alguém menos distante e contido, torrente de água no fogo dela.

Acicatando-lhe as vertigens do corpo.

«Uma donzela da vossa condição tem de saber dar-se ao respeito» – ensinaram-lhe as freiras do convento de S. Félix, ao vê-la dançar com Gonçala, naquele jeito de afago a escorregar de lume.

Ambas, afinal, contrafeitas.

Insatisfeitas por aquilo que só entremostravam uma à outra em súbitos relâmpagos logo contrariados. Mesmo assim, sobretudo Gonçala causava escândalo ao parecer desrespeitar os seus votos impostos.

Leonor levanta-se de onde está sentada para ir desapertar o colete de abas de Carlos Augusto, e ardendo de súbito desejo empurra-o, a vacilarem ambos nos passos que se cruzam, ele recuando e ela docemente a encurralá-lo junto à cama alta, disfarçando um sorriso nos lábios recortados, onde a ponta da língua aflora tentando matar a sede do cheiro da sua pele. E o marido que lhe foge ainda, admirado, acaba por se submeter ao seu incêndio, tombando os dois sobre a coberta suave onde Leonor começa por tentá-lo ao de leve, gestos suaves e vertiginosos como quem se oferece e escapa, seguidos de beijos fundos e comprometidos.

Fogo e luz.

Os dentes a morderem o que podem: a penumbra da nuca, a estreiteza das ilhargas, os pulsos fortes, a curva da axila que desprende da manga da camisa, a lisura côncava do ventre, a descer a colina breve em direcção ao longo pénis erecto, dele sentindo já o cheiro a almíscar. Sem nunca suspender o movimento ondulante e cadenciado do corpo, escorrega sobre o dele, indo apoiar as palmas das mãos no seu peito, voltando ao início, insatisfeita e faminta,

não dando conta do pequeníssimo zunido que o sol desperta no damasco da colcha atirada para trás, a desmanchar a nódoa de luz sanguínea e rasteira que, vinda da janela entreaberta, parece ir concentrar-se perto deles.

Por sua vez, Carlos Augusto tira-lhe o vestido enrodilhado na cintura, o espartilho, os saiotes, a camisinha, e por fim as meias de seda branca, que voam num turbilhão, assemelhando-se a pequenas

rolas.

Mais parecendo fúria do que desejo na insatisfação do que fazem e do que sentem, evitando a todo custo

os gemidos, os sussurros, os gritos.

†

Querido mano Pedro

do meu coração

Venho com grande satisfação comunicar-te que o Imperador José II deu-me a imensa honra de me nomear Dama da Cruz Estrelada, alta condecoração austríaca. Mas, para cumprir os requisitos necessários e que tudo seja feito com os rigores da praxe, terás de me enviar os documentos precisos para comprovação da linhagem da nossa família: nobreza de sangue e de raízes, que ambos sabemos virem do berço da portugalidade.

Podes adivinhar, meu Pedro, como tudo isto me alegra e choca ao mesmo tempo, na comparação inevitável que faço entre dois tratamentos opostos: enquanto na Áustria me cobrem de louvores e honrarias, em Portugal invejam-me, perseguem-me e aos meus com falsidades e intrigas!

Doem-me no peito estas diferenças, cada vez mais dividida entre duas metades de mim própria, o lado do coração que anseia por voltar à Pátria e o lado da razão a aconselhar-me a que não ceda e a que daqui por enquanto não parta. Por isso te pergunto, irmão da minha alma, como lidar com a ferida aberta pelo punhal da saudade, sem conseguir acalmar o pulsar do coração no peito aflito?

Tenho vindo a reflectir muito acerca de tudo isto, chegando à conclusão, meu Pedro, de que na verdade eu quero é procurar outros países, novas filosofias e novas correntes de pensamento. Sempre sem me deixar prender, sem me deixar amarrar a coisa alguma, a sítio nenhum. Limitando-me a respirar a liberdade, coragem arranjada sei lá como, para seguir sem medo os meus maiores ideais e anseios. Gostaria de poder partir solta de todas as amarras, seguindo por imbricados caminhos que tanto me demandam, me tentam o corpo e a alma.

Tendo em conta o obstinado silêncio e rigores que o nosso Pai faz questão de manter em tudo o que me diz respeito, peço-te que sejas tu a dar-lhe a notícia da honraria com que acabo de ser agraciada. Quem sabe se este facto não o levará a abandonar a sua posição intransigente a meu respeito.

Fico aguardando com ansiedade notícias tuas.

A irmã que muito te ama

e traz no pensamento.

L.

Viena, 10 de Novembro de 1781

†

À medida que as semanas passam enquanto vai pintando o retrato de Maria Regina reclinada no colo de Leonor, Maria Wilhelmine de Thun dá-se conta do muito que a menina tem vindo a emagrecer, a esmaecer, a enfraquecer; como quem se esgueira ao de leve por dentro da própria fragilidade apática.

Sobressaltada, com um mau pressentimento logo repelido, reprime o arrepio sob o qual estremece, anjo da desgraça a atravessar o seu peito, e curva-se perturbada sobre as tintas dispostas na paleta de madeira manchada como um arco-íris, em busca dos tons que no quadro pareçam salvar Maria Regina.

Usando a espátula, mistura os pigmentos com o óleo filtrado, busca as cores necessárias: os brancos toldados, os cinzentos-pérola, o marfim encandeado pelo ouro, mas também a garança e o carmesim, o amarelo-palha, o lápis-lazúli para as íris dos imensos olhos, o madrepérola para as conchas translúcidas das pálpebras, o cor-de-rosa e o vermelho-papoila para temperarem a tez exaurida.

Fita-a de lado, logo desviando a vista.

Desde o dia do seu nascimento que Maria Wilhelmine a considera de uma beleza deslumbrante: cabelos cacheados cor de fogo, olhos de intenso azul a querer ser desmaiado, feições delicadas, pescoço de sininho de prata e carnação de uma brancura leitosa de ruiva, a deixar antever a palpitação das veias.

Torna a olhá-la, embora de soslaio, de novo com a estranha sensação de ela perceber os seus pensamentos. – «Inclina-a mais para a luz» – pede com voz enrouquecida, e Leonor desvia-se para a claridade opalina coada pelo cortinado de renda da janela. Mas logo a menina se queixa nos seus braços.

– Filha… Filha… – murmura angustiada, secando-lhe a testa humedecida pela febre que reaparece todos os fins de tarde, gretando-lhe os lábios pálidos onde o leite doce dos peitos da ama se talha nos cantos miudinhos, nos quais a criança passa a ponta afiada da pequena língua anémica.

Posta a tela preparada no cavalete, Maria Wilhelmine inclina-se, pegando primeiro no giz de carvão e mais tarde nos pincéis acabados de mergulhar na pureza das tintas, na vã tentativa de captar de Maria Regina os mínimos detalhes: as expressões de acalmia, os inesperados sorrisos de safira, o brilho das lágrimas, a nebulosidade do sono, na devassa da sua face alva a destacar-se das sombras, das fímbrias penumbrosas da sala, onde costuma aquietar-se no regaço de seda da mãe em curtos momentos de bem-estar.

Madame de Thun reconhece a contragosto como ela continua a escapar-lhe na sua beleza estranha, esquiva e vulnerável, olhar mareado e translúcido, a chama dos caracóis a fazer tombar a sua incandescência na golinha de tule do vestido que lhe disfarça a magreza do corpo fino e quebradiço feito haste, de onde se evola um macerado aroma a madressilva, contrastando com os cheiros da pintura: a cola, a óleos, a éter, a sangues secos e a insectos esmagados, a ossos e a ramos calcinados.

A mão delgada e clara da jovem condessa vai desenhando, enchendo, pintando, tacteando, adivinhando, seguindo o seu instinto, no desejo vão de despertar a vida onde já se instalou a morte, tentando imobilizar o gesto convulso, disfarçar o esgar triste, repor o colorido das maçãs do rosto, colocando a vivacidade no lugar do vacilo ao avivar a pele desmaiada da criança, como se quisesse fazer esquecer estar ela já condenada pelos físicos, derrotados pelo mal irreparável, que tanto escarnece dos seus métodos conceituados e dos remédios da ciência como dos feitiços, das mezinhas, das infusões de ervas e raízes preparados pela ama.

Só então Maria Wilhelmine repara que, exaustas, tanto Leonor como Maria Regina haviam pegado no sono. Não hesitando, continua a pintá-las,

não sem antes se dar conta da neve, a cair lá fora com o seu surdo ruído de feltro. E imagina as rosas almiscaradas e os lírios, as açucenas e as camélias púrpura, que nas estufas dos palácios de Viena começam a despontar, sentindo-se a si mesmas,