As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 179 de 289

Páginas do PDF

As Luzes de Leonor

Caderno

 

Minha mãe escreveu-me de Almeirim a «anunciar-me que Leonor Benedita teve as primeira regras. Penso que isto seja apenas fruto da sua imaginação, ou que a pequena que é muito quimérica» tenha inventado alguma coisa para lhe manchar de vermelho a camisa e os lençóis da cama, «pois ela, que nem sequer ainda mudou os dentes de leite, só fará nove anos no mês de Novembro. Estas parvoíces enchem-me de raiva; mas os meus pais vão às nuvens com esta rapariga. A mim parece-me que tudo isto não passa de sonhos; eles querem casá-la com um rapaz que dizem ter por ela uma paixão decidida. Não sei absolutamtente nada dos pais do dito futuro esposo, mas olho esta pobre rapariga quase como a pequena Maria Regina: ela está morta para mim. Eles façam o que quiserem; o que me mete pena é que tantas quimeras possam torná-la talvez infeliz um dia mais tarde.»

Lisboa, 17 de Abril de 1788

†

Às escondidas, a menina esmaga com cuidado em cima de uma tábua, com uma pedra pequena, pétalas de flores vermelhas,

rosas rubras,

sardinheiras,

petúnias.

Mergulha-as depois dentro de água, e em seguida esfrega-as já esfaceladas entre os dedos pequenos mas tenazes, lacerados pelos espinhos, as urtigas, as farpas e pela dureza das arestas da pedra agora manchada de encarnado, a fazê-la lembrar sangue de crime, de quando mata os bichos pequenos, batendo-lhes com a pedra até os esmagar, sangrando.

Sanguinolência que ela pretende imitar pisando as flores na mistura da água, desse gesto colhendo um sangue vegetal e sem cheiro, com o qual todos os meses passará a sujar a camisa, as culotes e os lençóis, imitando as regras que ainda não teve com oito anos e meio, mas das quais ouve falar as criadas, seguindo-as até às caves onde substituem os panos sujos de mênstruo, usados entre as pernas, e que mais tarde lavarão no rio, ali perto.

Leonor Benedita recusa-se a ser como as irmãs, iguais às bonecas francesas, superficiais e inúteis, e querendo escapar às novas regras maternas, a que não se habitua, simula para os outros uma idade que não tem, mas sente.

Talvez assim, quem sabe, a casem…

Ou ela fuja?

†

Acabara de se sentar à escrivaninha para continuar a carta que há dois dias anda a escrever a Carlos Augusto, dando-lhe conta do desatino dos seus dias, de tudo o que tem feito e engendrado a fim de obter dinheiro para saldar-lhe as dívidas,

quando uma açafata da Rainha chega para a levar ao Palácio de Queluz, mal lhe dando tempo de trocar o fato simples de fazenda inglesa cor de cinza que usa nesse dia, pelo vestido de seda azul-hortênsia, mais de acordo com a ida à Corte; põe ainda sobre os ombros a capinha de zibelina branca e nas ondas do cabelo cacheado um chapeuzinho de rosa-água, aba curta semeada de pequeninas pérolas.

Acorrendo numa mistura de esperança alvoroçada e apreensão sombria ao chamamento da Soberana, que desde a sua chegada a Lisboa ora se esquiva a recebê-la ora lhe dá motivos de esperança infinita, e que de súbito mais parece esperá-la impaciente. Nesta inesperada mudança, julga haver a influência benéfica do visconde de Vila Nova de Cerveira ou do arcebispo de Tessalónica, seu dilecto amigo. No entanto, ciente do desagrado que provoca no ministro Martinho de Melo, Leonor acaba por ir mais temerosa do que confiante, receando as palavras de D. Maria.

Mal chega à câmara da Rainha, esta manda sair as damas de sua companhia, assim como as infantas, as fidalgas. E sem se deter em detalhes, fazendo Leonor sentar-se perto de si, diz-lhe de um só fôlego e tom grave:

– Saiba Vossa Excelência que tenho em meu poder cartas, bilhetes, poemas, enviados por D. Teresa de Távora, vossa tia, ao Rei D. José, meu Real Pai. Entre outras miudezas da intimidade de ambos, mas por demais conhecidas de todos, prevenia esta dama, aflita, o Rei meu Pai contra a raiva da sua família que é também a vossa, Senhora Condessa. Sobretudo, punha D. Teresa de sobreaviso Sua Majestade, para o ódio de vossa avó D. Leonor, Marquesa de Távora, a quem a senhora minha Mãe tanto respeitava, por ela tudo fazendo, infelizmente em vão, para que lhe fosse poupada a vida.

De olhos fitos nos dedos pousados no regaço, Leonor escuta em profundo silêncio a voz de vidro transparente da Soberana, e quando esta faz uma curta pausa de reflexão ou descanso fita-lhe o rosto magro e envelhecido, encontrando no seu olhar uma lucidez e uma severidade que em tudo contrariam os boatos postos a correr sobre a sua extrema melancolia. Olhando em silêncio, espera que ela continue, reparando na serenidade da sua voz:

– São cartas, bilhetes e poemas, Senhora Condessa, escritos em folhas quebradiças e lilases. Versos, declarações e confissões, traçados com uma tinta agora desbotada, esborratada pela humidade e pelos anos.

D. Maria recusa-se a confessar a hipótese que se lhe tinha posto de início, dessas manchas no papel poderem não ser devidas ao labor do tempo, mas sim a lágrimas vertidas no passado. Continuando como se falasse sozinha:

– Poderia eu ignorar semelhantes cartas?

Dos mansos e geométricos jardins do Palácio de Queluz para onde dão os aposentos reais, chega-lhes a fragrância intensa das acácias e das glicínias, à mistura com o odor pesado das rosas sanguíneas a estiolarem-se na jarra de porcelana chinesa posta na mesa junto da qual se encontram.

Tentando perceber o que dela é requerido, Leonor faz finalmente a pergunta que a Rainha espera:

– E o que pretende Vossa Majestade da minha pessoa?

– Quero que a Senhora Condessa procure D. Teresa de Távora, vossa tia, no convento de Santos, e faleis com ela de modo a confirmar se estas cartas tiveram resposta de El-Rei D. José e, no caso afirmativo, tentar perceber se D. Teresa de Távora ainda as guardará consigo.

– E no caso de minha tia as guardar, será demasiada ousadia e indiscrição da minha parte querer saber o que pretende Vossa Alteza Real fazer com elas?

– Rasgá-las!

Mas D. Maria logo volta atrás, hesitante:

– Aliás, depende…

Dependerá de quê? gostaria de indagar Leonor, estupefacta. Por prudência cala-se, sem coragem para confessar à Rainha não se sentir capaz de procurar a marquesa nova, sua tia, que mal conhecera em menina, antes de a grande tragédia se abater sobre a sua família.

Desgraça motivada, precisamente, pela leviandade de Teresa de Távora, sentindo alguma indignação diante do inusitado encargo imposto pela Soberana. Mas, na verdade, começara já a sentir despertar em si uma incontrolável curiosidade, que a impele a satisfazer de bom grado a vontade da Rainha. Acede a voltar no dia seguinte, a fim de levar a autorização que lhe permitirá entrar no convento de Santos.

†

Leva ordem da Rainha para entrar no convento de Santos.

Primorosa e severa no trajar, véu negro de renda aberta sobre os cabelos dourados, passo curto, moderado e porte com a reserva necessária para quem está incumbida de uma tarefa Real, do interesse de D. Maria.

Teresa vê-a entrar

retraída, olhar esquivando-se ao seu, sorriso contrafeito nos lábios que, por momentos, lhe lembram os da sogra, assim como o orgulhoso talhe da figura. Tão idêntica a Leonor de Távora, assim meia encoberta pela penumbra existente entre o corredor e a entrada dos seus aposentos, que fica tolhida na cadeira de pau-santo onde está sentada, como se tentasse escapar a um contacto que jamais pediria com a família da qual há muito fora banida. Na verdade, sente ainda o peso do ódio a arruinar-lhe a vida, desde a data em que quase todos os Távora foram exterminados no cadafalso montado em Belém.

Durante o tempo que Pombal demorara a encenar e a executar a tragédia, ficara fechada no convento do Rato, castigada pelas freiras com jejuns, rezas e cilícios. E só no fim e a seu pedido por escrito, o Rei a deixara sair, montara-lhe uma casa na freguesia de Santiago, arranjara-lhe criados e aias, dera-lhe uma sege e uma cadeirinha. No entanto, as portas de todos aqueles com quem antes convivera fecharam-se-lhe, e quando o Soberano ficara saciado preferira esquecê-la, desse modo cedendo facilmente à pressão da Rainha Mariana Vitória e das princesas, do confessor, dos fidalgos seus conselheiros e do próprio Sebastião José, que sempre condenara a ligação de ambos. Mandaram-na então para o convento de Santos onde acabara de criar a filha, recebendo uma pensão anual de seis mil cruzados, mantida mesmo depois de D. José ter morrido. Nunca lhe faltando ali dentro o conforto e até algum luxo.

A Rainha cumpre rigorosamente a promessa de honra de seu Pai, sem todavia esconder quanto a despreza; o mesmo desprezo que vê reflectido no olhar da sobrinha, que à entrada da porta parece aguardar um gesto de boas-vindas. Teresa repara nela com atenção, tez clara, bonita e alta, sem se recordar de como ela fora em menina.

Por seu lado, Leonor, ao vê-la sentada perto da janela, amodorrada e abatida, acha-a velha, sem nenhum viço. E sente-se surpreendida, embora reconheça que seria impossível encontrá-la tal como lhe dizem ela ter sido: ágil e torneada embora muito magra, cabelos negros e fartos ondeando pelas costas morenas, tornozelos finos deixados a descoberto no ousado erguer das saias. Boca húmida e olhar mórbido, demorando-se a provocar os outros com o seu riso; risadas argentinas como serão recordadas, gargalhadas fúteis de quem não tem tino nem cuidados na vida.

Por fim, Teresa ergue-se com vagares demorados e Leonor aproxima-se. Sem se tocarem nem cumprimentarem, fitam-se com desconfiança mútua, prontas ao recuo; ressentimento de fio de lâmina afiada, gestos que se recusam e se imobilizam no gelo onde se prendem.

Nenhuma delas aceitando a outra.

Leonor, por causa da desonra da família, a morte dos avós e a sua própria prisão no convento de Chelas.

Teresa, pelo facto de a sobrinha estar ali a reabrir-lhe a antiga ferida no lado esquerdo do peito, que julgara cicatrizada. Ao mesmo tempo, dá conta da beleza e da elegância dela como especial agravo, pois vem realçar a fealdade da filha desde sempre maltratada, como se não fosse igual aos outros netos dos marqueses de Távora.

Finalmente sentam-se diante uma da outra, a sentirem a brisa tépida que não as alivia do lume do calor, e Leonor informa-a tê-la procurado a mando da Rainha D. Maria, a fim de saber se as cartas de amor encontradas na gaveta de D. José são dela, se dizem a verdade, se tiveram resposta do Rei.

E caso isso tenha acontecido, se as guarda e onde as guarda.

O rosto de Teresa acende-se, os olhos nocturnos brilham e os ombros erguem-se num assomo de raiva:

– Para quê essas perguntas passados tantos anos? Porquê reabrir o que parecia sarado?

A voz freme-lhe, arde, resguardando o segredo.

Mas Leonor insiste.

Punindo-a?

Como não admite pedir perdão nem piedade, Teresa, em vez de continuar a insurgir-se, acalma-se; e num tom seco, confirma que o Rei lhe escrevera cartas, que ainda guarda. Mas, de rompante, o medo antigo está de volta, trazendo junto o ódio vingativo da marquesa de Távora, sua cunhada e sogra. E sem perceber o motivo por que o faz, começa a desabafar o que tem guardado no peito, desamparada, sem aprisco possível.

Ao dar-se conta de estar em silêncio a escutá-la há horas, como se lhe aceitasse os argumentos, as escusas, os motivos, e finalmente as acusações, Leonor sente-se traidora

diante da memória de sua avó, Leonor de Távora.

†

Teresa de Távora vê a sobrinha voltar-lhe as costas e partir sem se virar uma única vez, rejubilando, as cartas de D. José atadas com fita de cetim escarlate apertadas ao peito com afinco voraz, para as ir entregar à Rainha e desse modo conseguir, por certo, a paga da sua gratidão. Indiferente ao deixá-la para trás trancada na sua clausura, rosto branco como a cal e olhar estilhaçado, os dedos fincados como garras na seda preta do vestido subido no pescoço engelhado, que já fora de garça, pois para entregar as palavras do Rei seu amante se vestira de luto.

Apesar de tudo, fizera Leonor de Almeida voltar mais três vezes ao convento de Santos antes de se dar por vencida e entregar a correspondência ardente que sempre guardara com mais cuidado do que se fossem diamantes canários.

Pressionando-a a sobrinha de toda a maneira e modos de ameaça velada, fazendo-a antever um futuro sem eira nem beira caso recusasse entregá-la à Soberana. Mesmo assim teimara o que pudera na recusa de se apartar das cartas e dos bilhetes, agarrada ao passado; lendo e relendo as palavras de fogo que quase esquecera, os termos exaltados, os nomes de pomba e ninfa com que D. José a tratava.

Por fim, percebendo o perigo a que se expunha, abrira as cartas uma por uma, juntamente com os bilhetes a marcarem encontros clandestinos, e com eles cobrira a colcha de renda da cama, e na sua quentura se deitara ao comprido, a ouvir sussurrar debaixo de si as suas páginas, como se fossem gemidos de prazer.

Únicos liames de atamento à memória de si mesma no passado, quando fora a paixão, o delírio e a infidelidade, que levara à morte violenta a sua família mais chegada, sem que alguma vez tivesse sentido remorsos por isso. E mesmo assim a sua sogra Leonor de Távora lograra ser considerada como a primeira personagem de toda aquela história de perfídias, traições e crueldades inimagináveis.

Em seguida alisara as cartas já amarelecidas, juntara-as e tornara a atá-las com o fitilho púrpura.

Todas menos uma:

a mais longa e apaixonada, que escamoteara, escondera, roubara à Rainha. E quando a sobrinha, levando-as consigo, sai batendo com a porta, ela sente a única carta que lhe resta a arder junto aos seios.

Como jamais as carícias de El-Rei D. José conseguiram alguma vez incendiá-la.

†

Meu querido Carlos

«Que extravagância é esta das minhas cartas? Não falhei um correio, meu amigo; o único prazer que tenho no mundo é o de te escrever. Apercebo-me de que querem atormentar-te e inquietar-te. É de todas as crueldades que podem exercer sobre nós a que mais me aflige. Porquê privar-nos também desta concertação? Acabo de passar por um atraso na semana passada, mas acabaram por me entregar essa querida carta pela qual pus Lisboa em sobressalto; gritei, chorei, mandei todos os criados a toda a parte para saberem se alguém tinha recebido cartas de Paris, e se nelas se falava de ti; enfim, talvez os tenhas comovido e eis que finalmente recebi as cartas atrasadas um correio; quando toda a gente tem notícias do dia 18, eu tenho do dia 15.

“Meus caros censores! Dirijo-me também a vocês: berrem, exasperem-se, mas não direi nada que vos possa interessar. Achar-me-eis extravagante, bizarra, tudo o que quiserem, mas de maneira nenhuma indiscreta; eis o desafio que tendes: encontrar nas cartas que dirijo a meu marido qualquer frase que vos possa ferir. Para quê? Para justificar os vossos rigores? Não. Sabei que a minha alma é em privado como é em público. Perdoo-vos e lastimo que estejais reduzidos a profanar a boa fé pública para procurar faltas naqueles que as não têm. Escutem, pois: é a meu marido que falo e garanto-vos que um terceiro entre marido e mulher também me irrita muito.”

Meu querido Carlos, os que lêem as nossas cartas sabem muito bem que posso ter razão em aconselhar-te a que tenhas coragem e a que ganhes forças com reflexões salutares. Temos uma boa e adorável Rainha, estou segura das suas atenções para comigo; e eu e tu não somos a mesma pessoa? Ela quer a minha felicidade; poderei eu ter disso o exclusivo? Não, seguramente. Aguardemos ainda alguns dias com moderação e paciência e eu amolecerei o próprio rochedo que me barra o caminho para a felicidade.

“Sim, M. de Melo, eu enternecer-vos-ei porque vós tendes virtudes e preconceitos; empregarei as primeiras para destruir os segundos. Vós mesmo, que me detestais, sereis meu amigo, sereis meu defensor quando me conhecerdes. Vós sois um homem de bem; atacais-me demasiado vivamente, demasiado claramente para que eu vos tema; o mal está em que não posso opor à vossa espada afiada senão um frágil leque. Sabeis o que faria se tivesse uma espada? Quebrá-la-ia; as minhas armas são dessas que também vos evitarão muito bem: a moderação, a razão e a doçura. Quereis conhecer o meu alfageme? É o meu marido. Eu era tão veemente e arrebatada quanto vós; os seus conselhos e as suas virtudes franquearam-me esta rota mais doce e eis-me perante vós sem experimentar a menor cólera, a menor impaciência.”

Falemos de outras coisas. Os meus arranjos pecuniários depressa estarão concluídos. Enviar-te-ei certamente o dinheiro, mas aqui os negócios não andam tão rápido quanto é meu desejo; tudo se arrasta, mas que isso não te impaciente. A Rainha e o nosso respeitável Arcebispo, que amo como meu Pai, conhecem todos os nossos negócios e as razões dos atrasos. Estou muito satisfeita de que tenhas visto a respeitável família Necker. Peço-te que digas da minha parte quanto me lisonjeia a sua lembrança. Pergunta a M. Necker se ele recebeu a carta que lhe mandei por Fernando de Lima. A opinião de um homem como ele tem seguramente um preço infinito. Podes dizer a M. Marmontel que se eu valho alguma coisa numa arte cujos princípios ele tratou de forma sublime, é às suas lições que se deve esse milagre. O seu livro foi o meu primeiro professor de poesia e o que me perturba é nunca honrar suficientemente o mestre através de obras imortais.

Adeus meu querido Carlos.

Nelly

Lisboa, 5 de Maio de 1788»

†

O ministro Martinho de Melo sabe que não deveria ir a casa da condessa de Oeynhausen. Mas acaba cedendo ao seu apelo, atravessa o Tejo e segue até Almada, onde ela se encontra enquanto a Corte estiver nas Caldas da Rainha.

Leonor recebe-o numa pequena sala íntima e delicada. Tem os cabelos dourados ondulando soltos sobre os ombros, vestido simples de cassa azul-jacinto, olhar de anil e recolhido, parecendo ao ministro da Rainha de uma beleza mais fascinante que nunca.

Mas também mais cortante, insolente, mais impositiva e ambiciosa, depressa lhe enumerando sem rodeios aquilo que a trouxera de França, e que pretende a todo o custo alcançar, para além da tença que entretanto já lhe fora atribuída por D. Maria:

– Uma caução da Rainha sobre o empréstimo necessário para pagar as dívidas do conde de Oeynhausen, meu marido; a autorização para ele abandonar de vez a sua enviatura em Viena; e finalmente o regresso a Portugal, para ocupar um alto cargo no exército português.

Estupefacto, Martinho de Melo mantém-se em silêncio. Nunca por escrito a condessa adiantara tanto sobre as suas verdadeiras pretensões, jamais fora tão directa, tão clara, tão franca como naquele dia à sua frente, ambos conscientes de estarem sozinhos e sem testemunhas.

Como num passe de mágica, mudara ela de face, de voz, de registo; a trocar o comedimento pela ferocidade, a voz mitigada pelo tom altaneiro, a doçura pela aspereza, a humildade feminil pelo orgulho de fidalguia ofendida.

Sem peias diz-lhe o que sabe e também o que adivinha estar a maquinar-se nas suas costas. Cita nomes, factos, situações, encontros clandestinos, teceduras, ardis tramados contra ela e seu marido, desde a partida deles para a Áustria.

Fala de deslealdades de quem lhe está perto.

Exige justiça.

O ministro continua mudo, sem saber como lidar com uma mulher assim, altaneira, insubmissa, fantasiosa, tão diversa de todas as que ele conhece. E apesar de considerar que o seu discurso tem uma virilidade não condizente com a sua beleza dúctil e extremamente feminina, resolve usar de galanteria, como sempre faz com as damas, a aconselhá-la, a abrir-lhe os olhos, a expor-lhe com clareza aquilo que ele sabe do conde de Oeynhausen, da sua conduta, das suas incapacidades diplomáticas, das suas debilidades, das suas dívidas de jogo. Vendo-a aquietada, erradamente supõe-na rendida às suas palavras, continuando já conciliador:

– Sei que Vossa Excelência é mulher, ama o Conde vosso marido, mas como todos bem sabemos o amor cega, Senhora Condessa, o amor cega…

Leonor levanta-se, muito pálida, a dar por findo, quando Martinho de Melo menos espera, o encontro pedido por ela. E enquanto, curvado, aguarda de Leonor de Almeida a mão que ela não lhe estende, percebe perturbardo que poderia deixar-se enredar pela sua beleza esquiva, e enlear pelas suas palavras, os seus argumentos, a sua altivez de rainha.