As Luzes de Leonor
1789-1793
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Encostada à amurada, respira fundo o vento agreste e molhado, deixando o olhar percorrer a superfície encrespada do mar, detendo-se nas ondas que vão e vêm num revolver desatado de espuma, sal e brumas. Ora desejando chegar ao termo da viagem, ora preferindo continuar nela para sempre, como o judeu errante, num tempo sem fronteiras nem limites, onde simplesmente voasse, vogasse, resguardada dos próprios sentimentos, das dúvidas, dos inconfessáveis medos e fantasmas.
As pálpebras pesam-lhe das horas mal dormidas, olheiras marcando-lhe a face macerada, pestanas densas a sombrearem-lhe o olhar turvo de inquietude que ela disfarça e tolda com os dedos, num gesto ambíguo entre o torpor e o afago.
Outras vezes obriga-se a agarrar a pena, na construção do disfarce da escrita onde se abriga, em busca do equilíbrio que lhe dá a poesia. Mas naqueles dias os poemas preferem permanecer ausentes, evitando a queixa, o desabafo, e por isso tardando, sem atender ao seu apelo mudo. Enrodilhada nos lençóis, vai amontoando as noites, devorada pelas insónias que teimam em não ceder ao láudano nem ao xarope de papoila.
Enquanto tenta, com pouco êxito, não pensar no futuro nem recordar o passado, dividida entre o sobressalto de onde vem fugida e a sonolenta apatia de um porvir previsível e sem escolha, pelos meandros do amargor, da agrura decretada pela obrigação mesmo se absurda. Sem conseguir entender até onde quer ou pode exceder-se na sua vida.
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A viagem é longa e pesada,
Leonor guarda um silêncio de permanente hostilidade, perturbante para os que a cercam, criando tensões nos que lhe estão perto. Frederica e Juliana, e mesmo Henriqueta, distraem-se brincando na coberta ou a olharem as altas ondas verde-esmeralda com a sua crista de espuma alvacenta; Carlos Agrário, resguardado todo o tempo no beliche abafado, cada dia mais fraco e febril, chora em surdina ao senti-la distante.
Carlos Augusto passa os dias e as noites com o capitão do paquete, numa súbita e estreita amizade, chegando a jantar no seu camarote, prolongando as noites até ao sol romper o negrume no horizonte, a bordejar o oceano, quase sempre acalmado àquela hora. Leonor suspeita que ele joga madrugada fora, e ela já não sabe mais onde arranjar dinheiro para lhe pagar as dívidas, nem disposição para lhe perdoar as mesquinhas infidelidades.
Escuta o bramir do mar encoberto pela cerração, fitando a desmesura do espaço iluminado pela luz leitosa da lua e das estrelas feitas de pequenos diamantes. Debruça-se mais na amurada a sentir o frio agreste a arrepiar-lhe o corpo, mas logo se volta, inquieta, com a estranha sensação de estar alguém a fitá-la,
acobertado na escuridez imensa.
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Desembarca em Lisboa tomada por pressentimentos e cuidados inexplicáveis, consciente de que os fados jamais se compadeceram da sua vida, num destino que vai contrariando quanto pode.
E embora esteja de novo grávida, arrepende-se de ter abandonado a França. Faz-lhe falta Théroigne e o seu entusiasmo transbordante e provocatório, numa paixão de camélia incendiada. Mas não consegue também esquecer o inquietante arrepio que nela provocava sempre a equívoca beleza de La Fayette. Sente ainda a falta do entusiasmo das revolucionárias, amazonas combatendo pelos direitos das mulheres.
Gostava de as ver subir às tribunas na descoberta da própria voz.
Sobretudo, Olympe de Gouges com a sua agressividade mesclada, a ferocidade implacável de Pauline, a determinação de Claire Lacombe.
Impaciente, Leonor acaba por descer o portaló e afasta-se sozinha, a evitar quem os viera esperar à Rocha do Conde de Óbidos. Apressa-se na terra batida onde o sol abrira rachas e fissuras, feridas nunca cicatrizadas. Alcança os altos degraus de pedra grossa e gasta, que o tempo inutilmente tentara amaciar com as humidades esverdeadas e viscosas das águas escusas e o lodo do rio.
Esgueira-se pelos poucos lugares de sombra esgarçada das árvores raquíticas, tentando iludir o calor do início da tarde. Em busca de um fiacre vazio.
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Carlos Augusto vê desaparecer a ponta do seu vestido de tafetá cor de amora por entre os cascos dos barcos derrubados e arrastados para terra, depois de a ter visto descer, quase correndo, o portaló instável e mal assente na pedra molhada.
Fugindo, galgando as escadas, Leonor distancia-se rápida, as saias agarradas e erguidas pelos dedos nervosos, chapelinho caído e largado por terra na pressa que leva, o casaco curto com botões dourados um tudo-nada descaído sobre os ombros, enquanto segue rápida a sumir-se já por trás das magras árvores que pontuam o caminho, e acaba por desaparecer ao longe, deixando todos imóveis e estupefactos.
Quando a perde de vista, Carlos Augusto, de mãos crispadas na amurada, olha para o cais estreito onde descobre o sogro e Pedro que os vieram esperar com fiacres e criados. Por todos eles passara Leonor num ápice, sem os fitar, nem lhes dar tempo para nada. Perplexo, o marquês de Alorna permanece imóvel e Pedro, surpreso, hesita, acabando por não conseguir retê-la.
Cega que vai, Leonor encaminha-se para lado nenhum.
Mas já o irmão a persegue determinado, e quando a alcança fá-la parar num abraço apertado. Muito pálida, apoia a cabeça no seu peito fardado, a ouvi-lo dizer com equívoca brandura:
– Agora, mana, é tarde demais para lamentares o teu erro.
Finalmente, ela chora.
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O sossego e a calma dos dias intermináveis de Lisboa, parecem-lhe abismais, incomensuráveis. As gentes que percorrem as ruas imundas andam curvadas, submetidas ao jugo da pobreza aceite. Repugna-a o cheiro dos dejectos que juncam os passeios e os cães abocanham. Usa um lenço de cambraia e renda estreita, monograma bordado a cheio e espargido com essência de nardo, que leva aos lábios com a mão enluvada, a evitar os vómitos secos. Encolhida na sombra do fiacre, corpo crispado pelo nojo.
Foge do fulgor do sol, habituada ao velo da claridade coada de Paris que ela adora, sobretudo nos finais de tarde quando a morbidez do crepúsculo se esbate na rugosidade da pedra antiga da catedral de Notre Dame.
Grávida, fecha-se em casa, e na penumbra das salas tenta rememorar aquilo que viveu no tumulto dos dias da revolução: ideias, convicções, exaltação e esperança largadas para trás. Esquecida do susto por ela sentido tantas vezes, e até do medo, do arrepio, apesar do acerto com tantos dos sonhos republicanos das mulheres a quem acompanhara.
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Mal a sabe de volta a Portugal, a Rainha D. Maria manda chamá-la, marca-lhe uma audiência, fiada no seu brilho para lhe iluminar a melancolia, o negrume da depressão onde mergulhara depois da morte do filho D. José, Príncipe do Brasil, e da filha, a Princesa Mariana Vitória, delfina de Espanha.
Mas na Corte portuguesa a ignorância é tanta que se Leonor avança logo recua ou se torna vagarosa no próprio enredo, porque onde não há matéria e espaço para alimento da inteligência e da argúcia o desinteresse acaba por tomar conta de tudo.
Desiludida, a Monarca lamenta as suas ausências prolongadas, e quando Leonor volta ao Palácio de Queluz nota-a cada vez mais desencantada na sua adiantada gravidez, e mais perdida nos pensamentos devastados onde parece refugiar-se.
Como se necessitasse de se alhear da realidade.
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– Sempre foste fria e egoísta! – acusa-a a mãe, franzindo os lábios finos e bem desenhados no rosto lívido.
Leonor encolhe-se, como se ela lhe tivesse batido.
O retrato de Maria continua pendurado na parede por cima da mesa-de-cabeceira, ao lado da cama de onde a mãe já não se levanta.
– Deixa a tua filha ficar connosco! Não vês que a pobrezinha nem vos conhece, nem vos tem nenhum afecto!
Ajoelhada junto da cabeceira da avó, a menina esconde a cara na dobra bordada a crivo do lençol de linho, molhando-a com as grossas lágrimas. Leonor chama-a, enrouquecida, tentando manter a calma:
– Filha! Preferes ficar com os teus avós ou queres ir morar em Lisboa com os teus pais e os teus irmãos?
Em silêncio, Leonor Benedita ergue finalmente a face abrasada do calor das cobertas, penteado em desalinho, os olhos, salientes e afastados, vermelhos do choro que lhe inunda o peito como uma queda de água; boca falando em falso, sem conseguir articular uma única palavra, por conta da aflição sentida.
– Deixa a criança em paz, que a atormentas e a mim matas de desgosto! Nunca vi ninguém como tu para revolver as feridas, indiferente ao sofrimento alheio. Pobres dos pais a quem, das filhas do seu sangue, não lhes tenha restado a que era feita de mel, mas a que é feita de zimbro…
– Vai-te embora! Vai-te embora! – acaba por gritar Leonor de Lorena, revolvendo nos dedos deformados pela artrite o terço de marfim com o qual parece querer agredir o ar à sua volta.