As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 212 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

Mas apesar de transportar consigo dores e dúvidas, Leonor chega tranquila, tendo como maior objectivo

ficar em paz consigo própria.

 

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DIÁRIO

 

Adormento-me exausta nestes primeiros meses de sossego, enleada na luz coada do vale; aquietando-me debaixo das copas odorosas das acácias ou à sombra aromática dos cedros. Por vezes sinto-me atraída pela luz encrespada dos plátanos e as humidades que se levantam perto dos choupos debruçados nas águas do rio correndo ao longo dos seixos lisos, por entre os quais os peixes se esgueiram; deito-me na erva molhada, em cima das pedras alisadas pela chuva e pelo sol,

ou prefiro ficar esquecida nas espreguiçadeiras masculinas, das quais tomo posse. Dentro do meu peito, sem que nada com evidência o demonstre, algo se move e cresce num ainda amortecido turbilhão. E mais cedo do que previra dou por mim a fazer planos, apesar do alívio que sinto por me encontrar resguardada e sozinha, tentando não me iludir com falsas idealizações nem querer construir o futuro pelo avesso do passado.

Tarefa árdua,

só possível quando puser termo à pausa e ao descanso farto e merecido que me estou oferecendo.

Almeirim, 25 de Agosto de 1793

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Desfruta da companhia das filhas quando elas a procuram, cheirando ao vento tépido dos últimos dias de Setembro e ao aroma mosqueado da terra, dos arbustos e das plantas que ganham já a tonalidade ruiva do outono;

levando até ela, nos braços ainda nus e nos vestidos leves, a acidez áspera da casca das árvores dos jardins e do bosque, por onde correm, brincam às escondidas ou perseguem borboletas, calando o medo inconfessável de se perderem…

dela.

Estouvadas e alegres, demoram-se nas fráguas, nos atalhos, nos esconderijos que inventam na descoberta do rio onde pescam ou dos campos por onde cavalgam escorregando das selas dos cavalos, nos seus fatinhos de montar improvisados, escarranchadas como rapazes, diante dos camponeses que se benzem espantados de vê-las galopar gritando de entusiasmo pelos meandros, os caminhos da quinta, ao longo das planuras do vale ameno.

Sem darem conta do falcão atento no seu voo planado, nem repararem nas dálias, nas pervincas, nos malmequeres brancos ou nos goivos incendiados pela luz do poente.

Picando-se nas rosas,

desatentas, enquanto jogam à cabra-cega a tactearem o ar perfumado pelos pessegueiros, as cerejeiras e as amoreiras.

†

Querida mana da minha alma

Venho despedir-me de ti, pois como já te tinha dito fui chamado a integrar o Estado-Maior da expedição militar que segue amanhã rumo ao Roussillon, território fronteiriço entre a Catalunha e a França; e como nunca te escondo nada, mana do meu coração, confesso-te levar comigo sonhos de bravura e de vitórias.

Mesmo antes de levantarmos ferro, conheci e fiz amizade com Gomes Freire de Andrade, um militar valoroso, entretanto designado comandante de regimento. Pressinto que nos vamos dar bem, pois partilhamos esperanças e sonhos, para além de comungarmos os mesmos ideais.

Espero, minha irmã, que saibas cuidar de ti mesma, mas também tenhas em atenção a solidão do nosso Pai e a situação de tristeza em que deixo Henriqueta, minha mulher e tua cunhada.

Recebe beijos deste teu irmão

que parte sem deixar de estar perto.

Pedro

Lisboa, 29 de Setembro de 1793

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Olha com desapego o retrato do marido, pintado por ela tão semelhante ao que dele se lembra, tão idêntico ao que dele retém a memória, que quem o conheceu se espanta, logo afastando a vista. Como faz Josefa, a empregada mais antiga da quinta, supersticiosa diante de tamanha precisão de traços: as mesmas sobrancelhas sobre o olhar distante, a testa alta, as fontes fugidias onde os cabelos discretamente empoados rareiam, lábios bem desenhados e sem nenhum sorriso, o rosto longo e esmaecido.

Em traje militar de gala, onde as dragonas douradas e as condecorações sobressaem, mão direita delgada pousada sobre livros, enquanto a esquerda se guarda em busca do calor do próprio peito por dentro da fazenda da casaca, espada segura sob o braço, tomada pela lâmina fina e quase invisível na sombra que a embacia.

Um homem triste e alheado.

Assistindo ao próprio apagamento.