As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 242 de 289

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As Luzes de Leonor

Caderno

Faz promessas.

E temendo o incerto, acaba acreditando que Josefa possa estar a preveni-la de desgraças causadoras de um futuro infausto, tão infeliz e solitário que, embora a cunhada lhe garanta que as premonições e as visões são produto da ignorância e do obscurantismo, corre aflita a ajoelhar-se nas lajes de pedra da capela da casa, frente à velha imagem da Virgem Maria, tomando para si a muita fé que nela põe o marido. E é em vão que Leonor tenta acalmá-la.

Morde-lhe o coração um pressentimento ruim.

 

†

CADERNO

 

«Mr. Rousseau não consegue persuadir-se de que uma mulher seja sua igual» – escreveu Madame D’Épinay.

Fico desconcertada quando faço a desmontagem das minhas idealizações. Sempre tive Rousseau por um defensor da liberdade, da igualdade entre todos.

Não apenas entre os homens.

Lisboa, 30 de Maio de 1799

†

Sem saber como agradecer ao Príncipe D. João, a quem deve o convite, que sempre lhe fora negado, para frequentar o Paço, William Beckford pensa ofertar um magnífico diamante rosado a D. Carlota Joaquina. O novo marquês de Marialva, que sempre o protegera, alerta-o para a incorrecção e o perigo desse gesto impensado que, além de poder ser entendido como ostentatório, corre o risco de parecer ofensivo.

Mas como ele teimasse na ideia, o marquês, lembrando-se de que escutara sua sobrinha Eugénia de Meneses comentar o extremado gosto que a Princesa do Brasil tem pela Quinta do Ramalhão, embora relutante, dá-lhe a conhecer esse facto, a rogar-lhe com insistência que use sobretudo de cautela e tacto.

Levando a sério o conselho do amigo, Beckford, que frequenta as assembleias do duque de Lafões e de Leonor de Almeida, arranja maneira de se encontrar com esta a sós e pede-lhe que sirva de ligação entre ele e D. Carlota Joaquina, a fim de ficar a saber qual seria a reacção da Princesa Real diante de semelhante oferta da sua parte.

Leonor olha-o com curiosidade. Sabendo da paixão recolhida que por ele nutre Eugénia de Meneses, muitas vezes se tem indagado sobre quais serão os sentimentos dele não só em relação à neta do velho marquês de Marialva como em relação a si própria. Depois dos encontros de ambos no Jardim Botânico da Ajuda, não tem dúvidas sobre a ardência do desejo existente entre os dois. E no entanto, o que consta nos salões de Lisboa, é serem inconfessáveis os gostos do inglês, dirigindo-se num dúbio sentido contrário…

Imaginando vê-la hesitar, William Beckford insiste no pedido tomando-lhe as mãos, que logo sente a esvoaçarem sobressaltadas na concha das suas.

Perturbado, liberta-as.

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Mariana Vitória de Carvalho, açafata da Princesa do Brasil, vê-a em conversa acesa com a condessa de Oeynhausen que fora chamada à Corte. Adivinha-as a falarem do amor dela com João do Rego. Amor contrariado por seu pai, o visconde de Santarém, e por seu irmão Manuel Francisco, que a pretendem casar contra-vontade com Francisco de Sousa, um dos guarda-roupas e amigo do Príncipe D. João, que de imediato tomara o seu partido.

«Em dama de minha companhia não se mexe» –, teima por seu lado a Princesa Real com voz de vergasta, decidida a confrontar o marido e a desafiar os seus poderes de Príncipe Regente que ainda nem o é oficialmente.

D. Leonor de Almeida parece tentar acalmá-la, argumentando no sentido de se conseguir um possível acordo com o marido, e propondo-se para tanto ir falar com o marquês de Ponte de Lima, ministro da Fazenda, de quem Sua Alteza o Príncipe respeita sempre muito a opinião assisada.

D. Carlota Joaquina aparenta aquietar-se.

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O marquês de Ponte de Lima recebe-a com o respeito devido à filha do marquês de Alorna, embora pessoalmente discorde dos seus pensamentos e princípios, segundo ele impregnados do perigoso espírito das Luzes, que trouxera com ela de França para Portugal, logo apoiada por pessoas como o abade Correia da Serra e o próprio duque de Lafões ou mesmo o irmão dela, Pedro de Alorna, e o seu inseparável amigo Gomes Freire de Andrade.

Mas a condessa de Oeynhausen está ali enquanto enviada da Princesa Real, de quem defende a causa com inteligência e perfeito zelo, tentando levá-lo, enquanto conselheiro e ministro, a interferir junto de Sua Alteza Real na tentativa de este ceder num mero caso de intriga palaciana, sobre os amores e desamores de um mero guarda-roupa com uma açafata da Corte. E isto quer dizer apenas que ele deverá contribuir para que a vontade de D. João coincida com a de sua mulher D. Carlota Joaquina, deixando-a levar a sua avante.

Leonor vê-o atento aos seus argumentos, parecendo concordar com todas as ideias por ela expostas. Sem contrapor cousa alguma, nem mesmo tentar invocar os progressos que nele a doença tem feito nos últimos tempos. Seguindo o seu conceito rigoroso do dever, o marquês de Ponte de Lima não se escusa.