As Luzes de Leonor
Memória
†
Tão depressa tinha saudades de França, deixada para trás vibrante, ameaçadora e ávida, como me acomodava à vida aquietada e medíocre de um Portugal sombrio e estagnado.
No paquete, de regresso à pátria, muitas foram as horas em que me senti invadida pela melancolia. Então, era como se o odor acre e espesso dos nevoeiros dos cais do Sena, por onde tantas vezes passeara, voltasse até mim com amargor.
Talvez intuindo ou adivinhando o peso excessivo das mágoas e dos desgostos que me aguardavam, à mistura com as satisfações escassas que me haveriam de trazer os nascimentos dos meus últimos dois filhos: Luiza, menina delicada, olhos de safira e água, e João Ulrico, menino de robustez vigorosa, olhar de açafrão e cabelos de fogo.
Mas, diante do oceano que a fragata cortava,
risco fino a trancar-se atrás de si mesmo cicatrizado de espuma, eu apenas sentia o ferrete do desgosto assim como as náuseas de uma nova gravidez. Passava a língua pelos lábios gretados, e o silêncio sabia-me à imensidão salgada das lágrimas não choradas. De noite fugia à tepidez do beliche, preferindo passear na escuridão do convés, a convocar as constelações, os cometas, as estrelas da minha meninice. Observava a Lua enorme pairando no céu, parecendo-me querer adoçar os arrependimentos e as saudades do que ficara para trás, deleitada com a sua luz de leite coalhado.
Sem saber se me seria mais fácil ceder ao choro agudo das crianças impacientes nos colos de Angélique e Thérèse, se admitir a vontade que sentia de voltar para trás, arrependida de ter abandonado a França, se pelo contrário trocaria de boa vontade o meu passado pela plenitude, a política, a luta pela liberdade.
E assentando no meu diário o que me ia na alma, calava-me; tinta preta que, com o tempo, haveria de se transformar num tom ácido de ferrugem antiga, e que o movimento ondulante das ondas fazia derramar no papel pautado dos cadernos com capa de pano, onde ia alinhando versos e pensamentos.
Com avidez nervosa.
Quando sobre o meu ombro Carlos Augusto se debruçava, sacudia-o, zangada, ignorando que a vida dele haveria de ser tão curta. Se porém cedia à ternura e permitia que ele me envolvesse com os braços, logo me impacientava. Caso o visse levar a mão esguia ao lado esquerdo do peito, como quem tacteia uma dor oculta, desviava dele os olhos, egoísta, jamais lhe perguntando o que sentia.
Tinha então o meu coração a transbordar de França e da sua revolução; ainda agora recordo com perplexidade e deslumbramento o seu começo, a que assisti maravilhada e assustada comigo mesma.
Consciente de que, se pudesse voltar atrás, tornaria a repetir tudo de novo, excedendo-me mais ainda. Quem sabe se não teria sido preferível ter-me perdido tal como então era, e ganho uma outra dimensão de mim mesma.
Abandonado o sonho, enfraquecida a rebeldia que a idade dissolve, apago-me pouco a pouco sozinha, crivada de dívidas.
Impiedosamente viva.
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